O inteligente pedido de desculpas de Vin Diesel à youtuber Carol Moreira. Por Nathalí Macedo

Sorry, fellow
Sorry, fellow

Frequentemente, fico incomodada o juízo que o mundo faz acerca das mulheres brasileiras.

Somos a cultura do carnaval, da bunda grande e do turismo sexual – logo, parece haver um consenso entre os homens que visitam o Brasil segundo o qual este é um país apropriado para fazer sexo – porque há aqui mulheres apropriadas para o sexo.

Vin Diesel parece concordar com este consenso, a julgar pelo seu comportamento desrespeitoso para com a youtuber Carol Moreira durante uma entrevista no Comic Con Experience: Ele interrompeu a conversa diversas vezes para assediar a moça, que – preciso dizer? – não estava ali para paquerar e ser paquerada.

Quando um astro de Hollywood chega ao Brasil, tendo suas botas lambidas sabe-se lá por quanta gente importante, é esperado – mas não aceitável – que ele pense que pode tudo. É esperado – mas não aceitável – que ele atrapalhe o trabalho de uma mulher apenas para lhe dizer que ela é linda.

Ela não é apenas linda, é competente. Tão competente que estava representando o único canal-web brasileiro que teria dez preciosos minutos para entrevistar o ator. Mas não importa o quão competente uma mulher seja: o mais importante é que ela seja linda (como se todas nós estivéssemos aqui só de enfeite).

A YouTuber resolveu compartilhar desabafar sobre o assédio em seu canal e em suas redes sociais, e contou ao portal feminista AzMina que recebeu diversas mensagens de ódio por ter denunciado a postura inadequada do ator. A quem, aliás, isso surpreende?

A recíproca, felizmente, foi verdadeira. A conta de Vin Diesel no Facebook foi invadida por brasileiros se manifestando sobre o ocorrido, até que o ator se pronunciou, pela primeira vez, sobre o caso:

“Como todos sabem, tento manter as minhas entrevistas mais brincalhonas e divertidas, especialmente quando estou na zona Xander (nome do seu personagem no filme ‘Triplo X – Reativado’, filme que ele estava divulgando no país). Mas, se ofendi alguém, peço desculpas pois nunca foi minha intenção.”

Esta mensagem não me parece uma sincera manifestação de arrependimento, mas uma maneira de contornar uma situação que estava saindo de controle – mesmo porque, justificar assédio dizendo que tudo não passou de uma brincadeira é prova da triste naturalização desse tipo de comportamento.

Assédio não é brincadeira e só é divertido para o assediador – para a vítima, não tem a menor graça, nunca.

Há, entretanto, um mérito de Vin Diesel nessa história: Pedir desculpas foi a coisa mais inteligente que ele poderia ter feito. Assediadores têm sido combatidos com alguma eficiência no Brasil, embora não com tanta eficiência quanto deveriam – vide o caso de Biel.

Para Vin Diesel, portanto, desculpar-se era mesmo a única maneira de tentar limpar sua barra por aqui – e, de quebra, ser deixado em paz nas redes sociais.

O pedido de desculpas serviu para que se desenhasse, com uma obviedade triste, o contraste entre sua postura e a postura dos internautas brasileiros que procuravam meios de defendê-lo – com a mesma receita de sempre: Justificando a postura do assediador e culpabilizando a vítima.

Quando um assediador gringo pede desculpas a uma vítima brasileira e grande parte dos internautas brasileiros o defende, nota-se o quanto o homem médio brasileiro está atrasado no que diz respeito à luta por igualdade: Ele é ignorante o suficiente para tentar justificar o assédio em pleno século do empoderamento feminino.

Há muitos motivos, entretanto, para que eu, como mulher brasileira, esteja feliz pelo desfecho deste episódio: Não havia país melhor para que Vin Diesel aprendesse que mulheres nem sempre estão dispostas a serem elogiadas por ele.

No país internacionalmente ridicularizado por um golpe machista, no país das bundas e das “mulheres pra comer”, um astro de Hollywood se vê obrigado pelas circunstâncias a pedir desculpas a uma mulher:

Duvido, mas ainda espero que Vin Diesel – ou quem quer que tenha tomado conhecimento deste episódio – tenha aprendido que mulheres não querem ser elogiadas apenas por sua beleza (venham para o século XXI!), e que da próxima vez que quiser elogiar uma mulher, olhe-a como um ser humano, e não como um bibelô.

Parafraseando Bela Gil: Você pode substituir o seu “você é linda” por um “você é brilhante”, por exemplo.