O laudo psiquiátrico post-mortem de Marcelo Pesseghini deve ser levado a sério?

marcelo pesseghini

Marcelo com os pais

O laudo psiquiátrico de Marcelo Pesseghini, o adolescente de 13 anos que é o único suspeito de matar os pais, a avó e a tia-avó, suscitou mais uma discussão intensa em torno da chacina. O psiquiatra forense Guido Palomba afirmou que uma doença mental — encelopatia hipóxica, falta de oxigenação no cérebro — fez com que ele desenvolvesse um “delírio encapsulado”.

De acordo com Palomba, Marcelo quis se tornar um justiceiro, foi influenciado pelo game Assassin’s Creed, vivia num meio violento (os pais eram policiais) e se matou não por culpa, mas pela sensação de fracasso ao ver frustrados seus planos de formar um grupo de extermínio.

Palomba ainda fez uma comparação um tanto quanto forçada com Dom Quixote: “Recordando, Dom Quixote perdeu a razão depois de ler muitos livros de cavalaria (Marcelo depois de muitos videojogos) e partiu para se tornar um cavaleiro errante (Marcelo, justiceiro errante). O automóvel de Marcelo no lugar do cavalo Rocinante; a faca e o revólver em vez da lança e do escudo; Sancho Pança (o escudeiro) seria os amigos da escola, convidados no dia seguinte”.

Guido Palomba é um tipo meio exótico, à la Professor Pardal, bastante chegado aos holofotes. Gosta de dar entrevistas e já foi ao Jô Soares algumas vezes. Seu perfil de Marcelo, numa linguagem ligeiramente empolada, foi repudiado pelo tio do garoto e por milhares de detetives nas redes sociais do Brasil (há uma página no Facebook chamada Não Foi o Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini com, no momento, 27 480 seguidores).

Agora, como é possível fazer um laudo psiquiátrico de um morto?

Bem, não só é possível, como também é relativamente frequente. Os americanos criaram um termo para isso: autópsia psicológica. É utilizado, por exemplo, em contestações de testamentos ou quando um acusado de homicídio quer provar que a vítima era suicida.

No caso Pesseghini, essa avaliação foi realizada pela polícia por causa da repercussão do ocorrido. Milhares de mortos anônimos no Brasil não ganham um exame desses. “O laudo de Palomba não é objetivo. Mas é tecnicamente impecável”, diz o psiquiatra forense e professor carioca Talvane Martins, que conversou com o DCM sobre o parecer de Palomba e sobre Marcelo.

O laudo é confiável?

Sim. Apenas é um perfil criado através de probabilidades. Usa estatísticas, freqüência de determinados fatores etc. Não é objetivo, mas é científico. A perícia foi bem feita. Palomba examinou as circunstâncias e se baseou nelas. Houve os depoimentos dos amigos, dos familiares e de uma médica.

É comum esse procedimento?

Nos processo de anulação de testamento o laudo é comum. Como o testador já morreu, ele é feito post mortem. Utilizam-se os depoimentos de quem conviveu com a pessoa e outros elementos. Eu fiz, por exemplo, o de uma mulher que estava sendo acusada de ter empurrado o marido pela janela. Tracei o perfil dele. Tratava-se, na verdade, de um suicida, com um grave quadro depressivo.

Mas e a comparação com o Dom Quixote…?

O Dom Quixote é uma licença poética do Palomba, mas deve ser visto no contexto. O garoto tinha um comportamento diferente, estranho.

O que acha da ênfase no papel dos video games?

Eu tenho uma opinião diversa sobre games e filmes violentos. O ser humano não é simplesmente uma caixa de repercussão e essa reação não é linear. Se fosse assim tão simples, quantas mortes não haveria todos os dias… A questão é como cada um reage e como isso afeta um histórico já complicado.

Os games são mais um elemento para entender o caso. Assim como a doença dele também não explica tudo. Quantas pessoas que tiveram encefalopatia na infância não matam ninguém?

O laudo usou a historicidade de Marcelo, um adolescente com um quadro fantasioso. Ele sabia atirar, sabia dirigir… Essa história chama a atenção porque é excepcionalíssima e extremamente dramática. O ambiente em que Marcelo cresceu é determinante. As armas em casa, o pai e a mãe falando de sua profissão, dos crimes etc. O laudo post mortem é comum — o que é rara é a ocorrência desse tipo de tragédia.

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Crime

Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
  • Anita

    Kiko
    Nem o laudo, nem a investigação policial… No face há muitas comunidades que não acreditam na versão ‘oficial’. As pessoas vão aportando dados, observações, analisando depoimentos dados por testemunhas… eu estou acompanhando algumas… A vizinha que viu gente pulando o muro da casa, no meio-dia… o tio que afirma ter recebido ligações suspeitas… Há inclusive um vídeo apresentado pela policia, onde aparecem as horas mudadas… indo e vindo… está no face, procure lá… Há outro onde se vê claramente uma sombra saindo do carro onde supostamente está o menino sozinho… Eu vi a tal sombra, não é necessário ser um expert em imagens… Tem tb a opinião de médicos legistas (Sanguinetti) que se contrapõe totalmente com a tese de que o menino se suicidou… Em fim, para mim, cada vez que se mexe neste caso, a coisa fede mais…

  • Sem nome, desta vez…
    • Lila

      Barbaridade!

  • Lila

    Achei estranho o perito Palomba dar entrevista a um canal de TV como que antecipando o resultado do laudo, que agora sabe-se o conteúdo. Essa conduta não me parece mais ética do que a do colega de profissão que, manifestando-se sobre um caso concreto, publicamente tece comentários discordantes do trabalho do outro.

    Sobre o que realmente aconteceu com os Pesseghini, provavelmente jamais fiquemos sabendo.

  • Marcos Pinto Basto

    Conheço Guido Palomba. Fazer um laudo psiquiátrico de pessoa já morta, resume-se num histórico de atendimentos médicos, medicamentos receitados e tomados com efeitos colaterais, depoimentos das pessoas que tinham convívio com o falecido, com os pais e familiares. É trabalho moroso que deve prestar especial atenção às análises laboratoriais de todos os órgãos do cadáver na busca de resíduos de drogas. Fica muito difícil entender como um garoto de 13 anos, tratado com carinho por toda a família, tenha sido capaz de matar os próprios pais e depois suicidar-se. Este caso merece uma pesquisa mais profunda!

  • André Galindo da Costa

    Gostava muito desse site, mas acho que ele tem deixado a desejar e alguns fatos pela forma como se posiciona. Um desses casos se dá em relação a chacina da familia de policiais. Tenho conversado com mebros do Ministério Público de São Paulo e com um oficial que me é próximo. Nenhum deles acreditam que as mortes tenham sido uma ato intencional do menino. Existem fatos e declarações que não estão sendo levadas em conta na investigação. Sem contar que as provas foram alteradas. Pensar que um garoto de apenas 13 anos tivesse razões e fosse capaz de articular uma chacina dessa forma não simplismente pensar no impossível mas com certeza pensar no improvável. Vocês também não estão levando em conta as apreciações contestatórias da versão oficial feitas pelo Dr. George Sanguinett, que além de válidas parecem bastante coerentes. Pensar que o menino pudesse ser influenciado por jogos ou filmes violentos para realizar o ato, pensar que uma criança de 13 anos é capaz de sedar sua família e depois atirar com um tiro certeiro na cabeça de cada um com uma .32, arma que muitas vezes até adultos treinados tem dificuldade de acertar a mira, o que é o caso do focial com quem conversei, é acreditar também em histórias fantasiosas e propagar o mal hábito do jornalismo brasileiro em cubrir e manipular determinados fatos a servir os interesses de um determinado grupo e uma determinada elite de forma que eles se parecem mais com episódios de novela. Gosto muito desse site, recomendo ele sempre para meus amigos, conhecidos e alunos, porém creio que vocês devam rever algumas posições que ao meu ver parecem um pouco duvidosas e que fazem as pessoas perderem um pouco a credibilidade que vocês conquistaram até agora.

    • Edemar Motta

      Bom, inicialmente, pelo menos, falava-se de pistola semiautomática .40, exclusiva das forças do estado, de manuseio pesado, a meu ver difícil para um menino. Puxar a culatra dessa arma requer força e habilidade, o que um garoto treinado poderia ter. Depois do primeiro tiro, a arma quedou engatilhada, posição perigosíssima. Guardá-la assim um dia inteiro? Com déficit de oxigenação? Muito cômodo, muito conveniente, mortos não falam.

  • Saulo Wanderley

    Tudo que vem do governo Alckmin não é 1% confiável. Se o próprio governador dirigisse um veículo à minha frente, e sinalizasse que faria uma curva à direita, eu esperaria o veículo realmente virar à direita.

  • Graça

    Caso difícil, Kiko. Todo esse blá, blá, blá do laudo me pareceu um pouco forçado, encaixado, para dar um final
    convincente a um caso em que a polícia foi muito cobrada pela opinião pública e desde o começo criticada pelo modo como desenvolveu as investigações. Sei não, mas acho que tem caroço nesse angu…

  • Pedro Mello

    O FBI tem um departamento exclusivo para perfis psicológicos, já com um banco de dados bem extenso, mas até onde sei , é só para potenciais assassinos, ainda não identificados, não para quem já está morto.
    At´pe onde é legal se usar um laudo post-mortem?

  • Edemar Motta

    Laudos usados para discutir testamentos, é? Parece que há é uma indústria de laudos, estes mais fáceis quando o periciado, morto, não pode falar, não pode se defender. Provas irrefutáveis poderão me convencer da culpa desse menino. Quaisquer outras criações parecer-me-ão fantasias destinadas a servir sabe-se lá que propósitos, a abafar sabe-se lá culpas de quem. Por exemplo, há quem diga que aquele laudo de DNA dizendo que aquele filho reconhecido após 18 anos não é filho do personagem famoso é falso, e ninguém falou mais no assunto. Há ou não indústria de laudos?

  • francisco de/assis

    Interessante é esses psiquiatras emitirem laudos sem conhecer o paciente. O CRM não se opoe a esse tipo de procedimento? Vamos imaginar se o psiquiatra fosse cubano

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