Ó o auê aí, ó! Uma oração em favor do silêncio nas praias

De quem foi a ideia de transformar barracas em complexos de diversão com cerveja quente?

 

Muita calma nessa hora

 

 

Não sei de onde veio a ideia de que praia é sinônimo de barulho e desassossego. Isso deve ter vindo de algum anúncio de cerveja. Hoje, cidades como Porto Seguro se orgulham de ter, por exemplo, uma rua chamada Passarela do Álcool. É muita falta de noção.

A grande culpada pela poluição sonora é uma instituição que, no início, era representada por um bangalozinho de madeira, com um dono chamado Zé ou Cafu, que jogava bola nos fins de tarde e servia três coisas: camarão frito, cerveja e caipirinha. Isso, se o Zé ou o Cafu não estivessem bêbados demais.

Falo das barracas, que viraram, atualmente, complexos de diversão com axé, forró, cerveja quente e multidões sedentas de sei lá o quê. A Avenida Zezé Diogo, na Praia do Futuro, em Fortaleza, é o símbolo supremo desse modo de encarar a vida. Nada contra quem curte essas coisas. O problema é que a Praia do Futuro e outras, que têm barracas a dar com pau, jamais poderão ser visitadas por quem não gosta de barulheira.

Haverá o dia em que a patrulha do Decibel Zero irá multar os barraqueiros e obrigá-los a ouvir Ivete Sangalo, Cláudia Leite e Fernando e Sorocaba no iPod. E, então, sentiremo-nos como os franceses chegando à Baía de Guanabara no século 16: “Voilà! Que bom lugar para descansar os ossos”. (Até que o primeiro nativo teve a ideia: “Acho que eles vão gostar do meu novo batuque”.)

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Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.