“O povo não suporta mais a política por causa do PT e do PSDB”, diz o candidato da Rede à prefeitura de SP, Ricardo Young. Por José Cássio

Ricardo Young
Ricardo Young

 

Ricardo Young surgiu para a política em 2010. Como candidato ao Senado, teve mais de quatro milhões de votos. Fiel escudeiro de Marina Silva (juntos fundaram o movimento Brasil com S, em defesa do meio ambiente e da sustentabilidade), elegeu-se vereador em 2012 pelo PPS. Agora se prepara para lançar-se candidato a prefeito de São Paulo pela Rede Sustentabilidade.

Na Câmara de vereadores, presidiu a comissão de Meio Ambiente e liderou os debates sobre sustentabilidade. Seu sonho é implantar na administração a tese da teoria da complexidade. Sinteticamente, é a convicção de que não há nada que tenha apenas dois lados – e nenhuma verdade é absoluta.

“Em pleno século 21, caímos numa visão cartesiana”, diz ele. “É preto no branco. É esquerda ou direita. Situação ou oposição, minoria ou maioria. Os problemas são mais complexos que isso”.

Critica o prefeito Fernando Haddad. “Entre o seu discurso e a prática há uma inconsistência que faz com que questionemos a sua credibilidade”, diz. Também não acredita nos pré-candidatos do PSDB. “João Doria é um marqueteiro que pensa que política é palco”, ironiza. “Andrea Matarazzo é a outra face da mesma moeda de um partido de elite e discriminatório”.

Marta é bananeira que já deu cacho. “O povo não suporta política por causa do PT e do PSDB”, diz ele. “Quem determinou a agenda nos últimos 15 anos? Marta é parte desse problema”. Nem Russomano escapou. “É um candidato no modelo tradicional, com uma biografia que é só abrir os jornais e conferir”.

Nesta entrevista exclusiva ao DCM, onde pela primeira vez fala abertamente sobre a sua intenção de disputar a prefeitura, Young conta que já falou com Marina Silva sobre a sua intenção.

“A princípio ela me apoia. Já foi feita até uma declaração pública a esse respeito. Mas é claro que respeitamos o processo partidário democrático, e outras candidaturas que eventualmente surgirem serão consideradas”.

Diário do Centro do Mundo – Como analisa a gestão de Fernando Haddad?

Ricardo Young – Eu acho ruim e não digo isso por ser pré-candidato. Penso assim desde o início.

Respeito o Haddad como pessoa, figura pública, mas o descolamento do discurso da prática é tão evidente que, ou ele é incompetente, ou tem má fé. Porque não é possível que ele faça discursos sobre a mobilidade urbana e instaure ciclovias do jeito que são feitas. Que ele faça discurso sobre transporte público e faça corredores de ônibus do jeito que são feitos, descuidando de ruas e áreas comerciais.

Agora mesmo a Brigadeiro Luiz Antônio está com corredores em mão dupla e não dá mais pra fazer conversões. Parou a Brigadeiro. O que levava 15 minutos pra subir agora leva 45. Há todo um discurso sobre a modernização do transporte público e a nova licitação está parada, questionada pelo Tribunal de Contas.

Ele fala em sustentabilidade, mas os parques estão abandonados. Há uma inconsistência que faz com que questionemos a credibilidade do prefeito. Eu prefiro acreditar que seja incompetência, não má fé.

DCM – O prefeito tem algum mérito?

RY – O maior mérito foi no inicio do mandato, uma exceção à regra, quando instituiu a Controladoria do município para melhorar a integridade e qualidade da relação dos agentes públicos com a cidade e evitar a corrupção. Assumiu já com aquela questão da corrupção do IPTU e o que aconteceu? Um ano e meio depois a Controladoria praticamente deixou de existir. Essa teria sido uma boa iniciativa dele.

Outra coisa que teria sido interessante ele enfrentar é a questão da mobilidade urbana, criando a cultura de outros modais, para melhorar o transporte público. No início houve um ímpeto nesta direção, mas as contradições continuaram. Um exemplo: o secretario dos Transportes ser ao mesmo tempo presidente da CET e da SPTrans. Quer dizer: aquele órgão que deveria ser responsável por supervisionar os órgãos de trânsito e de transporte público, ao invés de supervisionar é conivente com a sua execução.

Se começarmos a olhar a administração, o número de secretários que foram substituídos, a influência política na escolha dos sub-prefeitos, que foi uma coisa que ele disse que jamais faria, vemos que há esse descompasso. E mesmo as melhores intenções foram contaminadas com más execuções.

E nós sabemos que quando temos boas intenções, e buscamos fazê-las corretas, mas fazermos de forma incompetente, a incompetência sabota nossa intenção. É isso que está acontecendo.

DCM – O que você faria de diferente?

RY – Temos duas questões pouco discutidas e que são centrais para uma boa gestão. Uma delas é enfrentar um orçamento quase deficitário, porque o serviço da dívida pública não foi regulamentado.

A cidade não teve o beneficio da decisão do Congresso de diminuição do endividamento de São Paulo e isso acaba estrangulando a capacidade de investimento.

Então é preciso adotar urgente uma revisão do custeio da máquina, com diminuição de gastos acessórios para que haja um aumento da capacidade de investimento. Ela já era pequena, agora com a crise praticamente desapareceu. Portanto, existe uma realidade orçamentária que precisa ser enfrentada, pois não é possível fazer nenhum planejamento sem olhar para isso.

A segunda questão é a própria gestão. Uma característica da gestão pública tradicional, que mata a gestão pública e condena política, é a cooptação do legislativo pelo executivo para garantir maioria, distribuindo cargos no executivo para partidos que fazem parte da base. Esse expediente que eu achei que o prefeito resistiria, ao contrário, não só não resistiu como a própria base do governo começou a comandar a qualidade da gestão.

Ele ao invés de utilizar princípios de diálogo com o legislativo, engajando as lideranças, ou usar expedientes importantes como a descentralização, dando maior poder aos sub-prefeitos para que possam agilizar e tornar a máquina pública mais eficiente, não, pelo contrário.

Constituiu o Conselho da cidade numa ação pseudo-democrática e o Conselho não saiu do lugar. Nada que foi orientado pelo Conselho foi efetivamente incorporado pela gestão.

Os conselhos participativos que deveriam tornar as sub-prefeituras mais representativas, perto da população, foram tomados pelos interesses partidários e pelos vereadores. E as próprias sub-prefeituras continuaram centralizadas, sendo objeto de barganha política.

Então esses dois aspectos, que é o não enfrentamento da realidade orçamentária, e uma gestão antiga e não privada dos vícios políticos tradicionais, tornaram a gestão Haddad hermética, pouco transparente e ineficaz.

DCM – A corrupção é um tema recorrente no país. Qual sua opinião sobre a gestão de Fernando Haddad sob o aspecto da corrupção? 

RY – Eu acho que o prefeito é íntegro e ético. Há evidências de que não é uma pessoa envolvida com esquemas de corrupção. Mas um prefeito não é onipresente e nem tem poderes imperiais, pois é cercado de pessoas do partido e de outros partidos. E esse loteamento de cargos que eu citei, muitas vezes está fora do seu controle.

Quando um partido assume uma secretaria, ela vira o espaço do partido e não uma secretaria sob o comando do prefeito. E muitas vezes a corrupção e as irregularidades ocorrem ali, na relação delas com os fornecedores, com a sociedade e com a população.

O que não ocorreu no governo Haddad foi um sistema de transparência que avançasse na digitalização de processos, porque quando você tira o elemento humano a possibilidade de corrupção é menor. Não houve um processo de modernização da gestão, na forma de tirar as rotinas do pequeno poder, modernizando o sistema e potencializando os funcionários públicos como um todo para melhorar os serviços fins.

Esse esforço não aconteceu e de novo ele, o prefeito, acabou prisioneiro de velhas práticas, inclusive algumas votações aqui na Câmara municipal.

Não digo isso porque me falaram, mas porque eu vi. Resultado direto de barganha entre o executivo com membros do legislativo.

DCM – Qual sua opinião sobre a corrupção no legislativo?

RY – Eu acho que precisa melhorar. Primeiro, o vereador precisa ter respeito e condições de exercer a vigilância, e ao mesmo tempo um nível de prestação de contas que obrigue maior transparência no mandato.

Só são transparentes aqueles mandatos que se dispõem a ser. Os mecanismos formais de prestação de contas avançaram no sentido da transparência mas estão longe do ideal.

Diria que a Câmara ainda está longe de uma realidade de absoluta integridade nos seus atos. No entanto, na convivência com vereadores que estão aqui há mais tempo, há um reconhecimento de que há progresso.

Hoje a transparência é maior. O fato de que as plenárias são transmitidas, as reuniões do colégio de líderes e das comissões são ao vivo. Tudo é reportado, demonstrado.

Tivemos alguns problemas de denúncias de corrupção e rapidamente elas vieram à tona. Com a tecnologia as margens de manobra estão diminuindo.

Agora, ainda está longe de ser uma casa de excelência em relação à ética e transparência.

DCM – O que você faria de diferente nessa relação com o legislativo se fosse prefeito? 

RY – Não sou nenhum super-homem, como acho que nenhum candidato a prefeito é. Temos de lidar com a realidade. E alguns elementos da realidade que eu lidaria de imediato passariam por algumas convicções.

A primeira é que nenhum parlamentar pode exercer um cargo no executivo e continuar parlamentar. Ou ele renuncia ao seu cargo, ou ele não participa do executivo. Se nós quisermos manter a integridade do poder legislativo, ele não pode ser cooptado pelo poder executivo. Eu preferiria ter nos secretários pessoas que poderiam até ser indicadas pelo legislativo, mas que jamais exercessem uma função parlamentar.

O segundo aspecto seria um diálogo contínuo e permanente do prefeito com os vereadores, principalmente as lideranças. De forma que, tanto a câmara conhecesse as dificuldades e os desafios do executivo, como o executivo pudesse compartilhar responsabilidades do que fazer ou não fazer com o legislativo.

Vimos uma melhoria da qualidade da gestão da cidade como um todo quando reduzimos as disputas partidárias, as questões que são maiúsculas para a cidade, como a Lei de zoneamento, a estação de transporte.

Há temas que não podem ser passíveis de disputa partidária, pois temos a responsabilidade de resolver. Se vamos resolver de acordo com uma visão de mundo, ou outra, aí se dá a disputa política para se construir a melhor solução. Mas jamais reduzindo o desafio da solução a embates políticos superficiais e primários.

DCM – O PSDB passa por prévias para escolher o seu candidato a prefeito. Está acompanhando a disputa?

RY – Fico chateado porque vejo uma pessoa como o Matarazzo, que teve um mandato bom e conhece a cidade, ter de entrar numa disputa feita com os princípios que o PSDB negou enquanto expedientes eleitorais em 2014.

Você pode dizer que ele é fundador do partido, ou seja, conivente com isso, mas o que eu acho é que o PSDB se auto destrói. Assim como o PT, eles se merecem. São dois partidos de oposição com as mesmas práticas políticas auto destrutivas e deletérias em relação ao conjunto da população.

Tão deletérias que a população de São Paulo e do Brasil hoje não suporta política.

E quais foram os partidos que comandaram os processos nesses últimos 15 anos? Você pode ter tido algumas interrupções, como no caso do Kassab, que depois fundou seu próprio partido, mas o Kassab era vice do Serra. Portanto a própria exceção confirma a regra. Essas práticas partidárias não estão mais a altura dos desafios políticos que são colocados ao Brasil e São Paulo.

DCM – Qual sua opinião sobre João Doria e Andrea Matarazzo? 

RY – Eu acho o João Doria, que eu conheço desde jovem, uma pessoa inadequada para a política. Primeiro, ele é marqueteiro, acredita que política é palco. Pensa que se ganha o eleitor na base do marketing, da enganação, sem nem incorporar os direitos da lei do consumidor no processo por propaganda enganosa.

Ele pode ter sucesso na sua área empresarial, mas não tem a mínima condição. Aliás, é mais um factoide criado pelo governador, que está interessado no Planalto e não em São Paulo. Porque se tivesse interessado na cidade, buscaria alguém com maior competência ou experiência pública.

O Andrea tem experiência, ocupou vários cargos públicos e conhece bem a cidade. Mas é a outra face de uma mesma moeda. É o PSDB que não inova na política, não conversa com a população, não constrói consensos, não reconhece as mudanças nos processos participativos, não pensa em inteligência coletiva e não constrói coletivamente.

Esse é o PSDB. Por isso é visto como um partido de elite e discriminatório. Andrea acaba sendo vítima de tudo isso e acaba tendo práticas dessa cultura.

DCM – Você já conversou com a Marina Silva sobre seu desejo de ser candidato?

RY – Claro que sim.

DCM – E qual é a opinião dela?

RY – A princípio ela me apoia. Já foi feita até uma declaração pública a esse respeito. Mas é claro que nós respeitamos o processo partidário democrático, e outras candidaturas que eventualmente surgirem irão ser consideradas antes de qualquer definição.

Eu e Marina estamos juntos desde o início do Movimento Brasil com S. Estive com ela como candidato ao Senado, em 2014 participei ativamente da campanha. Espero que ela me apoie irrestritamente.

Sua declaração de bens revelou que você é o vereador mais rico da cidade. Como pretende financiar a sua campanha? 

Estou longe de ser o vereador mais rico. A diferença é que eu declaro tudo na pessoa física, e não na jurídica. Enquanto muitos vereadores fazem o contrário e seus bens não aparecem na declaração de imposto de renda.

Não vou dizer que não tenho patrimônio. Vendi minha empresa e isso me garante independência com relação à vida política. Eu acho que esse é um fator importante para autonomia e desenvoltura de um parlamentar.

Quanto à campanha, acho que foi bom acabar com o financiamento privado, pois isso vinha trazendo uma corrida alucinada por campanhas cada vez mais milionárias, corruptas e tirando dos indivíduos a possibilidade de participar.

O ticket de entrada numa campanha política só podia ser adquirido por alguém que representa o interesse de um grupo econômico forte e é financiado por esse grupo. Ou então alguém que vem do mundo sindical e é patrocinado pelos sindicatos. Ou alguém que é muito rico, levando ao risco de mantermos aqui uma plutocracia.

A candidatura que seria um direito do cidadão numa sociedade democrática se tornou impossível. Com o fim do financiamento privado haverá uma tendência de barateamento das campanhas, e elas estarão mais próximas da realidade.

Eu particularmente defendo o financiamento nos moldes do crowdfounding, que é aquele coletivo onde cada eleitor deposita para o candidato que defende a quantidade de recursos que achar que deve.

O dia que tivermos esse mecanismo daremos um salto rumo à democracia, à humanização dos processos eleitorais e ao barateamento das campanhas.

DCM – No domingo, 13, você vai pra Paulista protestar e pedir o impeachment da Dilma? 

RY – Não vou pedir impeachment porque isso não cabe ao cidadão. Ele é um recurso legal, previsto na constituição, cujas condições pra que ocorra precisam ser cumpridas pelas instituições.

O que as pessoas podem pedir é Fora Dilma, a renúncia. Mas pedir impeachment, se não seguir os ritos necessários, é uma palavra de ordem golpista.

Eu acho que as evidências de que a presidente Dilma e seu vice estão sujeitos ao impeachment estão sendo produzidas, mas ainda não são conclusivas.

Então pedir por isso, que só ocorre em situações específicas é um erro.

Agora, sair na rua e pedir pela renúncia, já que a população não mais reconhece nela uma liderança capaz de conduzir o país para fora da crise, isso é legítimo. Eu posso ir dia 13, mas não pelo impeachment, e sim pela renúncia da presidente e seu vice.

DCM – Celso Russomano, Marta, Andrea Matarazzo ou João Dória. O que o leva a acreditar que seria a melhor alternativa da oposição para enfrentar o prefeito Fernando Haddad? 

RY – Penso que a população deveria experimentar uma outra concepção do que é fazer política. Todos estes que você listou são representantes de uma prática que o público hoje rejeita, e aquele que poderia ser exceção, que é o João Dória, que nunca foi político, confirma a regra, pois entra para o PSDB para reafirmar as piores práticas do partido.

Se a população quer renovação na política, que comece inovando seu voto.

Se quer novos quadros, alguém que possa servir a cidade sem os vícios tradicionais, escolha pessoas que vêm dessa inspiração e estão em partidos comprometidos com isso.

Uma coisa que admiro na Rede é que ela, antes de nascer, analisou profundamente quais eram os vícios da política tradicional. Não tínhamos certeza se queríamos criar um partido.

O tema da sustentabilidade é transversal por definição. Ninguém vai proporcionar a mudança do país que não em colaboração suprapartidária. No entanto, vimos que a maioria dos partidos tinham se reduzido a cartórios eleitorais.

Penso que a população deve ser radicalmente política com os partidos que ajudaram a construir a situação que nós estamos vivendo, que é o PT, o PSDB e o PMDB. Eles já deram o que tinham de dar.

Vivemos um grande ciclo democrático pós ditadura, onde os movimentos dos anos 60 e 70 contra ela acabaram criando os excludentes que na década de 80, 90 e 2000 ocuparam os espaços públicos.

A hora é de renovar. E renovar não é uma questão apenas de quadros, pessoas ou atrairmos os jovens para a política. É preciso renovar a concepção do que é fazer política no século 21. Em pleno século 21 caímos numa visão cartesiana. É preto no branco. É esquerda ou direita. Situação ou oposição, minoria ou maioria. E os problemas são muito mais complexos que isso.

A situação do país, sob o ponto de vista econômico e político, é grave. E nós não vamos resolver isso usando a máxima de Einstein, usando as mesmas situações que criaram o problema.

Marta ajudou a criar o problema, Haddad aprofunda. Andrea Matarazzo ajudou a criar. Doria pode não ter ajudado a criar, mas piora na medida em que soma a inexperiência com uma visão completamente equivocada da política. O Russomano também é da política tradicional e tem várias vulnerabilidades que estão todos os dias na imprensa. Então, a população tem dessa vez a oportunidade de votar diferente. E dar oportunidade à um novo coletivo, com uma nova visão.

Em outros países estamos vendo isso. Os partidos que surgiram na onda dos protestos da Praça Tahrir em 2010 estão aí disputando o poder, participando.

Alguns melhor, outros pior, mas estão lá. Podemos citar a Espanha, a Alemanha, enfim, vários partidos que nasceram desse processo e estão hoje tendo a responsabilidade de praticar uma política diferente. Sem isso a democracia corre risco.

Portanto, se a população quiser mudar, mude seu voto primeiro e dê uma chance para aqueles que vêm de uma outra cultura, não contaminada.