O que o turista alemão baleado na Rocinha estava fazendo lá?

Pobres não são bichos exóticos e favelas não são cenários do Projac.

Linda vista
Linda vista, my dear

Um turista alemão, Frank Daniel Baijaim, de 25 anos, foi baleado na Rocinha, na Zona Sul do Rio. Está em estado grave. Um amigo dele contou à polícia que, na sexta, os dois foram conhecer o Cristo Redentor e, em seguida, resolveram dar um pulo na favela. Um homem armado os teria visto num beco. Os dois se assustaram, saíram correndo e, na fuga, Baijaim tomou o tiro que entrou pelo braço e provocou lesões no tórax e no fígado.

O que aconteceu com Baijaim é um horror. Mas cabe a pergunta: o que diabos a dupla foi fazer na Rocinha?

Ali está instalada a maior UPP do Rio: são, oficialmente, 700 policiais e cem câmeras de monitoramento. Os casebres espetados no morro são uma visão impressionante. Volta e meia, alguém diz que ela é urbanizada, seja lá o que isso quer dizer. Ainda há traficantes, bandidos (e – obviamente – milhares de cidadãos honestos).

O que turistas acham que vão encontrar na Rocinha? Ainda que eles tivessem saído ilesos: qual a possível atração que pode existir na pobreza?

Existem dezenas de agências de turismo especializadas em fazer tours por “comunidades carentes” do Rio. As pessoas se aboletam num jipe e fazem seu safari. Ao invés de elefantes e girafas, fotografam gente subindo e descendo as vielas, os bares, ouvem uma batucada, tomam uma cachaça etc. Descem do jipe com um guia que, em tese, garante sua segurança. Para que o esquema dê certo, é preciso fazer um acerto com quem manda na região.

É tudo para inglês ver. Ao voltar para casa, o sujeito tem uma história para contar sobre como sobreviveu num dos lugares mais perigosos do mundo. Ou acha que, sei lá, fez antropologia e conheceu o “Brasil real”. Mas outra coisa é ir por conta própria, como os alemães.

Essa exploração não é exclusividade do Brasil. Nosso colunista Jota Pinto Fernandes contou sobre sua viagem a Cartagena, a espetacular cidade colonial que serviu de cenário para O amor nos tempos do cólera, de Garcia Márquez. No passeio para as vizinhas Islas del Rosario, no Caribe, os barqueiros param próximos a um píer, de onde meninos magros dos barracos saltam. Eles nadam até perto da embarcação e gritam: “Amigo, amigo! Dinheiro, amigo! Money!” Os turistas, rindo, arremessam moedas e notas na água. Quando os garotos não conseguem apanhá-las, eles, bons mergulhadores, um tanto desesperados, vão em busca delas no fundo. A África do Sul tem tours para as favelas do Soweto, em Johannesburgo, que tiveram um papel fundamental na luta contra o apartheid.

A miséria não tem glamour. As pessoas não estão ali porque gostam e acham bonito. A imensa maioria preferiria estar no conforto de uma casa como a sua. A Globo tenta transformar favelas e pobres num cenário do Projac, mas você precisa ser muito ingênuo ou burro para achar que aquilo é verdade. Gente como Regina Casé presta um imenso desserviço ao mistificar o morro em seu programa Esquenta.

É bom saber que os dois alemães estão vivos. Mas favelados não são bichos exóticos e favelas não são pontos turísticos. Os turistas estarão mais felizes quando elas não existirem mais – além, obviamente, das milhares de pessoas que vivem lá.

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Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.