O que quer a Folha com o perfil desonesto do dono do Emiliano, amigo de Teori. Por Joaquim de Carvalho

Filgueiras
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O perfil de Carlos Alberto Fernandes Filgueiras publicado na Folha de S.Paulo deste domingo, dia 12, recebeu crítica de um leitor do jornal porque a autora, Eliane Trindade, escreve laser em vez de lazer.

“A Folha não tem mais edição”, lamentou em post no Facebook.

Se o problema do texto fosse unicamente a agressão ao idioma,  o leitor da Folha poderia descansar aliviado. O perfil laudatório de Filgueiras não atende ao interesse público nem ao interesse do público e o artigo confunde quem busca resposta para a pergunta essencial no acidente de avião no mar em Paraty:

Afinal, o que fazia o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki no avião de Filgueiras?

Com 33 adjetivos, num texto de 1485 palavras, Eliane Trindade define Filgueiras como bon vivant, aventureiro, visionário, hospitaleiro, simples, sofisticado, homem com talento de construtor, apreciador das boas coisas da vida, empreendedor, self-made man, uma-referência-no-ramo-de-hotelaria-de-luxo-no-Brasil e “homem capaz de receber igualmente VIPs e plebeus”.

A média é de quase um adjetivo por parágrafo.

Para fazer o artigo, Trindade entrevistou os filhos de Filgueiras, o fornecedor de móveis do hotel Emiliano e o advogado dele. Com essas fontes, não poderia se esperar nada diferente do que foi publicado.

A jornalista poderia ter entrevistado o advogado Carlos Miguel Aidar, que defende uma família que mora em Campinas, vítima de um golpe imobiliário aplicado por duas empresas de Filgueiras.

As empresas assinaram contrato de incorporação para construir um condomínio num grande terreno em Moema que pertencia a um casal idoso.

As empresas de Filgueiras venderam os apartamentos e não entregaram a parte que caberia aos donos da área.

O casal morreu lutando na justiça para reaver o prejuízo, sem conseguir levar adiante a penhora do hotel Emiliano, decidida depois que se comprovou a fraude. O Superior Tribunal de Justiça, onde Teori foi ministro por dez anos, cancelou a penhora, e o processo foi para o arquivo do Tribunal de Justiça de São Paulo.

A jornalista Eliane Trindade talvez não conseguisse entrevistar os herdeiros, que não falam sobre o assunto por medo de morrer, mas o advogado Aidar não se calou.

“A decisão do STJ foi absurda”, disse ele em entrevista ao DCM. A dívida das empresas de Emiliano com a família já passa de R$ 100 milhões e a chance da família receber, depois da decisão do STJ, é mínima.

O golpe aplicado pelas empresas de Filgueiras na família que tinha como único bem relevante o terreno em Moema é do tipo comum no Brasil: empresas quebradas, empresários milionários.

A Folha poderia também tentar entrevistar o cantor Roberto Carlos, que foi parceiro em outro empreendimento de Filgueiras, o prédio onde hoje está instalado o Hotel Emiliano.

Roberto Carlos não fala, mas o seu silêncio é que é eloquente num caso desse tipo. Quem conhece o mercado imobiliário em São Paulo sabe que Roberto Carlos também se viu prejudicado na sociedade com Filgueiras.

Com um pouco mais de empenho, a Folha chegaria ao caso da indenização milionária paga pela DERSA, com dinheiro público, ao médico Radi Macruz: 22 vezes o valor da área – quase 190 milhões por um terreno na rodovia dos Imigrantes que vale, no máximo, 1,5 milhão.

Os amigos de Filgueiras certamente diriam que ele não tem nada a ver com isso.

Quem contou que o dono do Emiliano era o cérebro por trás da operação que obrigou a DERSA a pagar a indenização é um lobista e se poderia argumentar que a fonte carece de credibilidade.

Como declaração é ponto de partida no jornalismo, pesquisas ajudam a iluminar zonas sombrias: o cardiologista Macruz aparece na Junta Comercial como dono da empresa Multicenter Centro Com. E Empreendimentos Imobiliários, aberta em sociedade com a Empresa Brasileira de Desenvolvimento Imobiliário, com sede num endereço de Filgueiras: a rua Barão de Capanema, 457, nos Jardins.

Macruz, um homem já idoso, de 92 anos, chegou a entrar na Justiça, quatro anos atrás, quando ainda tinha lucidez, para reclamar que o advogado não lhe teria entregue quase nada da indenização de 190 milhões paga pela DERSA.

Se o dinheiro não foi para ele, foi para quem?

Relevante no caso é que a indenização 22 vezes superior ao valor do terreno só foi paga porque teve decisão favorável do Superior Tribunal de Justiça – nesse caso, com voto de Teori Zavascki.

No STJ, Teori também votou a favor de Filgueiras em 2006, desta vez como relator, num processo que evitou a execução de bens de empresas dele, numa ação cobrança de uma dívida milionária de IPTU.

Se quisesse entrar no perfil pessoal de Filgueiras, a Folha poderia informar que “o homem que trata igualmente VIPs e plebeus” fez acordo na Justiça do Trabalho em uma ação em que era acusado de assédio moral e assédio sexual por uma ex-funcionária com mais de dez anos de carteira assinada no Hotel Emiliano.

Poderia informar ainda que ele processou a ex-funcionária por injúria e difamação, mas perdeu. A história do crime ambiental em Paraty é um capítulo à parte, mas que também merece ser contada num perfil minimamente jornalístico de Filgueiras. Mas não se vê nada nesse sentido no texto da Folha.

A morte é uma tragédia que faz sofrer a todos, e a dor dos parentes, sobretudo dos filhos, deve ser respeitada. É óbvio.

Mas, ao circunscrever Filgueiras no homem empreendedor, visionário, aventureiro, sofisticado, generoso com os amigos, a Folha desrespeita o leitor. Às vezes, é melhor calar.

Na história de Filgueiras, que só veio à torna por conta da tragédia no mar, há indícios de um escandaloso lobby no Judiciário que gritam por esclarecimentos, mas o jornal de maior tiragem no Brasil preferiu publicar uma lenda.

Jabuti não sobe em árvore, para usar uma expressão popular. Se ele está lá é porque alguém o colocou.

Por que a Folha publicou esse perfil, se não atende ao interesse público nem ao interesse DO público?

 

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