O que significa o inconformismo de alguns diante do bom desempenho das feministas no ENEM. Por Nathali Macedo

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O caos criado quando do anúncio do tema da redação do Enem voltou a instalar-se nas redes sociais – desta vez em razão da divulgação das notas no portal do MEC.

Assisti, radiante, muitas das minhas amigas feministas felizes com suas notas altas. Em contrapartida, muitos homens reclamaram do sistema de avaliação. Ouviu-se de tudo: a redação é corrigida por sorteio (???), as mulheres foram privilegiadas pelos corretores (??????), feministas tiraram notas baixas porque – acostumadas com os ‘textões’ do facebook, não foram capazes de produzir uma redação nos moldes exigidos pelo exame, notadamente diferentes – em forma e em linguagem – dos textos publicados e compartilhados nas redes sociais.

A despeito dos argumentos tão isentos de sentido que sequer são dignos de menção, vamos aos fatos: Ninguém se prepara para o Enem – ou pra qualquer concurso que seja – no facebook. O sistema avaliativo – ainda ineficaz, é verdade – aplicado pelo MEC exige do examinado uma preparação convencional – geralmente promovida nas escolas ou nos cursos preparatórios. Ossos do ofício.

A politização e a formação social, entretanto, podem, sim, surgir e se perpetuar nas redes sociais – que são, atualmente, o principal meio de comunicação entre os jovens brasileiros.

No facebook, por exemplo, encontra-se de tudo: de notícias feministas a artigos científicos – cada conteúdo com muito a acrescentar (para que não sejamos pegos pela armadilha do academicismo).

Afirmar que o levante feminista – especialmente nas redes sociais – e a escolha do tema da redação não se relacionam é de uma ignorância inacreditável.
Esta é a década – talvez o século, agora sendo otimista – do empoderamento feminino. As mulheres contra Cunha são a maior prova disto. É claro que a escolha do tema, portanto, não foi um fato isolado.

Assim como as denúncias através do 180 (violência contra a mulher) aumentaram após as campanhas feministas de conscientização nas redes sociais, estas mesmas campanhas – e a popularização do movimento nas redes sociais – foram de suma importância para o bom desempenho de mulheres feministas no exame.

Criticar o sistema tradicional de avaliação é válido, mas desmerecer o tema ou tentar diminuir as feministas que obtiveram um bom desempenho me parece a mais patética e inútil dor de cotovelo. Vai ter muita feminista na academia. Vai ter muita pesquisa feminista sendo desenvolvida nos próximos anos.

E aos despolitizados e grandes críticos dos “textões feministas” no facebook, apenas uma dica: Em vez de reclamarem da nota, politizem-se e aguardem uma próxima vez. Porque agora é que são elas.