O Quênia não fica nos Alpes

QUENIA

 

No dia de ontem (02/04) a facção islâmica Al Shabaab invadiu uma universidade no Quênia e produziu o número de 147 mortos. Eram estudantes critãos.

No dia 24 de março, Andreas Lubitz, co-piloto de um avião da Germanwings, mergulhou a aeronave nos Alpes franceses matando outras 149 pessoas além de si próprio.

Lá se vão 11 dias e desde então o assunto não sai das manchetes, com análises sobre depressão, uso ou não de um machado, obrigatoriedade de se manter duas pessoas no cockpit a partir de agora, buscas incessantes por explicações, boatos a respeito da existência de vídeos.

Quanto tempo a tragédia na universidade queniana sobreviverá no noticiário? Meu palpite é o de que amanhã já terá sido esquecida, se é que alguém sabe dela hoje mesmo. Com apenas três mortos a menos de diferença (mas com um adicional de 79 feridos), uma tragédia terá tratamento diferente da outra. Por que é assim?

Tudo aquilo que não é contra nossos vizinhos de classe não é notícia.

Por “classe” entenda-se o leitor/espectador alvo da mídia. Não aquele que efetivamente é consumidor da informação mas aquele que é potencial consumidor dos anunciantes daquele meio. As chances de sensibilizar alguém com uma notícia sobre a Somália, a Nigéria e periferias mundiais são infinitamente menores e de menor audiência do que um acidente esporádico com um meio de transporte que faz parte do universo de um estilo de vida sonhado e prometido na publicidade.

O leitor/espectador cobiçado pelos jornais e anunciantes já esteve nos Alpes franceses, ou conhece alguém que já esteve, ou anseia estar nas próximas férias. Se são ótimos para o esqui portanto deve ser chique morrer ali também. Mesmo ocorrendo do outro lado do Atlântico é quase familiar, é quase no nosso quintal. Já as favelas do Rio, São Paulo e Recife ficam em outra galáxia, não é mesmo?

Com realidades terroristas tão preocupantes como a tal Al Shabaab, o Estado Islâmico, o Boko Haram e ameaças tão escandalosamente reais como os crescentes grupos fascistas desenvolvendo-se em vários países e proporcionando prognósticos nada animadores para o futuro, o caso excepcional, individual (do ponto de vista motivador) e restrito em si mesmo ganha de goleada na atenção dada pelos meios de comunicação.

A Al Shabaab é a mesma facção que invadiu um shopping center em Nairóbi em 2013 e matou 67 pessoas proporcionando vídeos horripilantes. De lá para cá já matou outros 204 civis inocentes mas quem está ligando uma ocorrência a outra e fazendo uma pausa reflexiva? Já os nomes Germanwings, Andreas e Alpes estão hoje na ponta da língua de toda audiência medíocre.

Casos como o suicídio/homicídio do co-piloto alemão são eventos que causam curiosidade mas estanques em sua própria ocorrência. E de tão reprisados resultarão, no máximo, em algum conhecimento superficial acerca de reversor, pitots, fresagem da pista.

Podem inclusive resultar na prisão do dono do bordel mais próximo e demais efeitos colaterais (quem garante que a dificuldade do piloto da Germanwings em abrir a porta da cabine pelo lado de fora não seja fruto das medidas pós 11 de setembro de 2001?). Já ataques sistemáticos e cruéis como o de grupos terroristas são tratados como simples notas de pouco ou nenhum esclarecimento, que não conscientizam e ainda formam uma visão preconceituosa contra determinadas religiões.

Mesmo sendo apenas “noticioso” o jornalismo pode ser tendencioso. É preciso ficar atento.