O triunfo de Alberto Dines

Paulo Nogueira 10 de março de 2013 19

Um crítico histórico da “Hípica”

 

O jornalista Alberto Dines tinha uma boa definição sobre o código de conduta da grande imprensa brasileira. Era como se as publicações pertencessem à “Hípica”, um clube fechado no qual, por mais que os sócios se detestassem, ninguém falava publicamente nada de reprovável de ninguém.

Era bom para eles próprios, mas não, necessariamente, para o interesse público.

Dines foi, ele próprio, uma exceção de breve mas luminosa duração ao fazer, nos anos 1970, o ‘Jornal dos Jornais’ na Folha, uma crítica domenical da mídia.

Não é exagero afirmar que a carreira profissional de Dines nas grandes corporações foi praticamente liquidada por causa do inovador ‘Jornal dos Jornais’, uma das experiências mais fascinantes da história do jornalismo nacional. Dines teve que esperar a internet para, nela, construir o Observatório da Imprensa, uma espécie de versão digital do ‘Jornal dos Jornais’.

Quando diretor da Editora Globo, propus certa vez a João Roberto Marinho uma reportagem na Época sobre denúncias na internet contra a grande imprensa. Num email a JRM, que é na prática o editor das Organizações Globo, lembrei a frase de Dines sobre a Hípica. Bem, para encurtar a história, a recomendação – ordem, usemos a palavra certa – foi para não dar o texto. Também fui impedido  por JRM de reagir a uma agressão desonesta de Diego Mainardi, um pseudojornalista e pseudoescritor que fez um enorme mal ao jornalismo brasileiro.

Pois a Hípica foi invadida.

Na televisão e no mundo do papel, a Record e a Carta Capital estão publicando coisas que jamais seriam levadas ao público antes – excetuado o da internet.

Há interesses claros por trás da Record e da Carta, e o público deve levá-los em consideração. A Record quer derrubar a Globo, e tem um problema específico com a Abril, que publica a Veja. A Carta, fora a simpatia por Lula, é dirigida por Mino Carta. Mino jamais superou o trauma de sua saída da Veja, no final dos anos 1970. A cada dia, parece detestar mais Roberto Civita, ao qual atribui sua saída. Se pudesse, Mino marcaria um encontro com Civita numa próxima vida para um acerto de contas.

Do ponto de vista jornalístico, e estilístico, o material da Carta é superior ao da Record. Basicamente, porque Mino tem um talento extraordinário. E, ideologicamente, sua simpatia pelos chamados “99%” – semelhante à social democracia europeia, representada no presidente francês François Hollande – está muito acima da exploração da fé feita pela igreja que controla a Record.

Fique, ainda uma vez, claro: há, claro, viés no conteúdo da Record e da Carta sobre o que Dines chamou de “Hípica”. Não existe nele o que os idealistas chamam de objetividade e imparcialidade.

Mas, mesmo com essa ressalva, o público lucra com o novo quadro. Sobre isso não é dúvida. Da troca de tiros vai nascer, na marra, um debate indispensável sobre quais são os limites éticos e legais do jornalismo – até que ponto jornalistas podem ir na busca de informações.

Uma descarga de transparência na mídia – nos nomes que estão aí e nos que porventura chegarem com a nova era digital – pode não ser do interesse da “Hípica” de que falava Dines, mas é de absoluto interesse público.

  • http://blogln.ning.com/profile/PaulodeFreitasDiasFilho Paulo Dias Filho

    Paulo,

    Gosto muito do seu blog, mas não digeri muito bem aquela sua defesa do Bob Civita, atribuindo o antipetismo da Abril antes a uma escolha editorial do que mau jornalismo.

    É muito mais sério. Na verdade, a oposição exercida pela Veja serve apenas de anteparo à defesa de interesses diversos; muitos deles, inconfessáveis.

    A Veja virou caso de polícia.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Paulo, o Roberto Civita é um homem de princípios, pode ter certeza. Ele realmente acredita que as ideias propagadas pela Veja servem melhor ao país. Podemos discordar disso, e eu pessoalmente discordo, mas não da honestidade das intenções.
      Agora: há um limite legal e ético que o jornalismo tem que respeitar. Na Inglaterra, a escuta telefônica de um tablóide gerou um debate rico em torno da ética da mídia. Se é verdade que um jornalista pediu que alguém fosse grampeado, aí então é imperioso que, como aconteceu na Inglaterra, também no Brasil seja discutido em fórum amplo — e isento, independente, longe da pressão tanto do governo qto das corporações de mídia — o que é aceitável e o que não é. (Aqui até o primeiro ministro foi sabatinado no inquérito sobre a conduta da imprensa.)

      • Roberto

        Paulo,
        Eu acho nobre a tua lealdade com o Roberto Civita. Acho mesmo.
        Mas não dá para engolir que a Veja faz o que faz, que o Mainardi escreveu as baboseiras que quis durante anos e que o Reinaldo Azevedo destila seu ódio sem o beneplácito interessado de Civita.
        Na minha modesta opinião, os donos da mídia no Brasil (e em qualquer lugar do mundo) têm interesses claros e usam seus veículos para defendê-los. E nem sempre de forma limpa.
        Outro mito que precisa cair é a tal imparcialidade da imprensa. Isso não existe! A Veja, por exemplo, é, em minha opinião, uma revista de direita e reacionária. Assim de simples.
        Abraços.

        • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

          Imparcial, Roberto, nem Deus, que dirá a imprensa …

  • http://facebook.com/ComoEducarSeuFilho André

    Olá, Paulo!

    Eu estou bêbado. Tomei todas neste que é o meu primeiro dia dos pais após minha separação. Preciso falar. E você que, para mim, tem um olhar tão privilegiado sobre o mundo e suas coisas quanto Gay Talese, você que fez minha juventude amorosa mais feliz com as velhas divagações de Fabio Hernandez e você que está fisicamente longe o suficiente para me dar um soco depois de ouvir as heresias que aqui vão, você é o interlocutor ideal ou, melhor, o ouvinte perfeito para o que preciso dizer agora.

    Escrevo a você enquanto ouço a gritaria das vizinhas lamentando pela seleção de vôlei. Parece que o Brasil acaba de perder dos russos. E eu sinto um orgulho escandaloso por não ter perdido um só segundo assistindo às Olimpíadas na TV, torcendo pelos “heróis” brasileiros ou lamentando que o País não investe na formação dos atletas e blá blá blá. 

    Não, não estou “torcendo contra”. Torcer contra é o cúmulo do óbvio, virou faz tempo um clichê tão cretino quanto classificar o Brasil como país do futebol ou do vôlei ou da corrupção na política. É que a minha torcida é outra. 

    Torço para não enlouquecer de ódio da nossa superficialidade histórica. Torço roendo as unhas e gritando sozinho para que um dia percebamos o que realmente passa e paremos de levar tão a sério o nosso desempenho nos eventos esportivos internacionais.

    As vitórias e derrotas do Brasil nas Olimpíadas não valem uma das cervejas que a gente consome num churrasco com pessoas queridas. Porque é isso que faz a vida melhor, não os chiliques e frescuras milionários do Bernardinho! Milito na torcida organizada dos loucos que acordam cedo e dormem tarde para pagar as contas da casa e do bar. Porque a nossa competição mais dura não é contra a Rússia, o México, a China ou os Estados Unidos. É aquela que acontece quando a gente desliga a TV no fim do jogo, quando acaba o churrasco e a cerveja, quando vem a segunda-feira.

    O que faz um país vitorioso é treino, preparo, trabalho e inteligência. E isso transcende as quadras, os campos, as piscinas e quaisquer outras arenas esportivas. Isso é a vida dos dias úteis que sustentam nossos merecidos feriados e finais de semana. É a verdadeira luta, a corrida que vale a medalha nossa de cada dia suado e bem vivido.

    Quem dera o Brasil fosse mesmo o “país do vôlei”, uma terra povoada só por gente bonita, talentosa, guerreira e bem recompensada por seus méritos. Porque não é assim, não.

    A cada dia, em nossa era da superficialidade, que é a “Nova Idade Média”, em que tudo se baliza por pavorosas médias MEDÍOCRES, o Brasil vai se tornando mesmo é a nação do dominó na praça e seus milhões de atletas esquecidos, carcomidos pelas rugas das horas grisalhas, pelo Alzheimer e pelo abandono, com dores nas juntas e mijo nas cuecas, esperando por seu papel de torcedor angustiado e passivo no próximo evento esportivo “importante”.

    Paulo, desculpe falar tanto. É que estou bêbado, sozinho. E com saudade do meu filho.

    Um grande abraço, meu querido.

    Deste seu admirador entusiasmado,

    André de Jesus Gomes

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      André, vc escreveu uma mensagem poderosa, no conteúdo e na embalagem. Basicamente, concordo com quase tudo que vc colocou. Torço para que vc se recupere o mais rápido possível do trauma pós-separação. Passei por isso e sei quanto é duro. Mas vc vai ver que, no final, ficará ainda mais perto do seu filho, ainda que não na mesma casa. Foi o que aconteceu comigo, e é o que acontece com todos os pais que amam seus filhos … Abraço afetuoso. Paulo

      • http://www.facebook.com/ComoEducarSeuFilho André J. Gomes

        Ó, Paulo! Que privilégio trocar essas ideias contigo sobre as nossas crianças! Muito obrigado, mestre! E, viu, quando tiver um tempinho, por favor, passe os olhos no diário que o meu filho João e eu estamos fazendo. É uma espécie de manual para pais politicamente incorretos às voltas com a empreitada insana de educar seus rebentos em um mundo tão complexo. A cada dia, publicamos uma lição sobre temas essenciais à formação de um garoto de cinco anos – sexo, drogas, rock and roll e essas coisas. Veja lá em http://www.facebook.com/ComoEducarSeuFilho

        Um grande e emocionado abraço!

        André

        • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

          Vou ler seu diário, André. Abraço!

  • http://trashetc.blogspot.com Fábio Peres (@fps3000)

    E viva a nova imprensa!

  • Bruno

    Passada a festa, e realmente esperei os jogos olímpicos acabarem, sugiro que escreva um pouco sobre o que a “voz rouca das ruas inglesa” fala sobre os benefícios e custos da organização dos Jogos. Afinal, estaremos na mesma situação em 4 anos…

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      bom ponto, Bruno. vou depois estender minha ideia, mas essencialmente considero que a única coisa que se ganha mesmo é medalha numa Olimpíada — além, claro, do dinheiro trazido pelos patrocinadores …

  • Saulo Londres

    Considerando as particularidades de posições dos que fazem a grande imprensa no Brasil , as quais voce tão bem conhece,percebe-se no texto , um prognóstico otimista no horizonte.Estamos famintos desta esperança , porque partirá dela maior e melhor massa crítica e com ela a possibilidade de um país mais ético e justo.A maturidade de uma nação, é função da qualidade de suas fontes de informação.Avante.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      avante, Saulão London!

  • Leonardo M. G.

    O problema da mídia brasileira não é ser parcial. É ser parcial e posar de imparcial, de que não deve “escolher um lado” publicamente. Por isso a Carta ganha meu respeito. Começam as eleições, ela põe as Cartas (lol trocadilho) na mesa e anuncia seu apoio. Um que tentou fazer isso foi o Estadão, que na minha ótica ainda parece melhor que FSP e Globo, menos hipócrita. Não sei se vai continuar assim, mas pelo menos tenta.

  • http://www.miamihoje.com Cesar Barroso

    Paulo,
    Você poderia ter ligado as duas pontas: a segunda casa dos Marinho é a Hípica.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Bingo, Cesar!

  • Richard

    Civita boss é realmente um homem de princípios! Quais? As relações de um de seus repórteres como um tal de Cachoeira, e a repercussão dos interesses deste, na Veja é um daqueles escândalos que aí em Londres, certamente levaria o boss ao banco dos réus, no mínimo.

  • Marco Antônio dos Santos Silva

    Paulo,

    Há muito tempo no Brasil os jornalistas deram lugar e voz a dois tipos criados pela nossa mídia nativa: o “Historialista”, que literalmente reescreve a História a partir da ótica de seus patrões (e não faz História nem Jornalismo); e o “Opinialista”, que manda ás favas os fatos e apenas dá voz à opinião dos barões da mídia (ou seus “colegas”, como diz o Mino). Não é de se espantar que a mídia tradicional tenha perdido tanta credibilidade e audiência…

  • Filipe

    Ponto, parágrafo. Jornal dos jornais? O grande problema da mídia em geral é quando começa a se preocupar em fazer jornalismo para jornalistas consumirem.