O “Tudo Sobre Todos” é um monstro que nós criamos?

 

Leandro Karnal: "corrupção é aquilo que fazem contra mim..."
Leandro Karnal: “nós tendemos a achar que corrupção é só aquilo que não nos beneficia”

 

Há pouco menos de dois anos, eu e minha família encaramos uma escolha duríssima. Meu avô estava em seus últimos dias e nós teríamos que escolher entre o aumento do tempo de vida ou a manutenção da qualidade de vida.

Eu, que sempre procurei ser um cara moderado (nem sempre com sucesso), tive dificuldade em entender por que um ou outro. Não dava para ser um pouco de cada, perguntei ao médico. “Não”. Era um caminho ou outro. Não vou explicar a razão, afinal não vem ao caso, mas ele estava certo. Era um ou outro mesmo e nossa opção foi pela qualidade de vida.

O meio termo nas coisas às vezes é possível. A filosofia budista fala muito do “caminho do meio”. Mas às vezes não há caminho do meio, e os dois caminhos disponíveis não são perto o suficiente para andar com um pé de cada lado.

Às vezes você tem que escolher um caminho.

O caminho da internet foi moldado por milhões de internautas ao longo de uma ou duas décadas. É um ambiente livre, com o que isso tem de melhor e de pior. Você dá voz a gente brilhante que teria dificuldade antes. Ao mesmo tempo, como disse o escritor Umberto Eco, dá relevância ao “idiota da aldeia”.

Não são apenas essas as vantagens e desvantagens que a internet trouxe às nossas vidas. Há dezenas, que sempre funcionam como um karma mundano, uma lei de Newton virtual. Para cada vantagem que a internet traz, há uma desvantagem.

Os primeiros libertários da rede sempre se animaram com iniciativas como o Napster, o Pirate Bay, o Popcorn Time. Eu também sou libertário, mas para cada Napster que aparecia eu achava que poderia estar havendo um erro de prioridade. Pensava mais ou menos como Cristóvam Buarque no famoso discurso nos EUA sobre a internacionalização da Amazônia. A grosso modo, ele disse algo como “ótimo, vamos internacionalizar a Amazônia, mas também vamos internacionalizar as armas nucleares americanas, o petróleo, o dinheiro e as crianças”. Na minha versão sobre a livre pirataria virtual, “ótimo, vamos liberar a música, mas vamos também liberar a comida, os serviços médicos, os medicamentos, todos os serviços e produtos de primeira necessidade”.

 

Cristóvam Buarque: "Vamos internacionalizar a Amazônia, mas junto com as armas americanas"
Cristóvam Buarque: “Vamos internacionalizar a Amazônia, mas junto com as armas americanas”

 

De 10 anos para cá, a indústria da música foi varrida. Não dou a mínima, para falar a verdade. Alguém sempre irá tocar uma canção, com indústria ou sem. Mas é importante que a gente lembre que com isso, foi criada uma cultura de que na internet tudo pode.

Ou como disse o médico que cuidou do meu avô, “não”. Não dá para ter Popcorn Time e querer controlar o Tudo Sobre Todos.

O Tudo Sobre Todos é um site que contém… tudo sobre todos. Escrevi meu nome lá. Apareceu um mapa que dá na minha casa, que fica na Vila Sônia, e o nome de alguns vizinhos.

Ainda não dá para saber minha posição sexual preferida ou qual das minas bolas não funciona, mas algum dia vai dar. Para adiantar a informação, é a direita, vítima de uma clamídia contraída em Londres. Chegou a ficar maior do que um punho. Mas isso não vem ao caso.

O Tudo Sobre Todos usa do mesmo subterfúgio do Popcorn Time: um domínio “.se”. Esse tipo de domínio é incontrolável, e foi só pela existência desse tipo de coisa que o Pirate Bay conseguiu funcionar até outro dia. Em geral, esses domínios são de países pequenos, que se beneficiam desse tipo de conteúdo. São como paraísos fiscais dos domínios.

Além dos domínios, os servidores ficam em lugares onde, digamos, a “polícia ocidental” não tem acesso.

Tudo bem. Eu não ligo. Não tenho nenhuma grande coisa para esconder. O que de alguma forma me incomoda é ver gente que até ontem comemorava o Popcorn Time e toda a liberdade agora reclamar do Tudo Sobre Todos.

Ora, mas é pra ser livre ou não?

Como disse o historiador Leandro Karnal na já célebre entrevista à TV Cultura, corrupção é vista pelo senso comum como o que nos atrapalha, ou alguma sacanagem à qual nós não fomos convidados a participar. O que nos beneficia é ok. Enquanto os caras usam essa malandragem do “.se” (estou dizendo “malandragem”, mas não estou seguro se é isso mesmo) para que eu veja uns filmes de graça, é bacana. Quando fazem isso para expor o meu endereço, aí é feio.

O que falta é coerência e senso de responsabilidade. Há 15 anos, dava para ter trabalhado de forma diferente esse cultura virtual. Prevaleceu a gula e a pressa. Agora, não dá mais. Não tem controle. Tem que deixar as laranjas caírem até o final da ladeira para depois repensar se vale a pena tentar trazê-las de volta ao caminhão.

Eu não vejo um caminho certo. Gosto da liberdade, sou anarquista, mas não acho que estamos prontos, dadas as disparidades educacionais em diversas sociedades, para a anarquia. Mas qualquer caminho que seja escolhido, tem que ser por inteiro. Neste caso, não tem caminho do meio e não dá para ficar com uma perna de cada lado.