Polícia desde criancinha. Por Mauro Donato

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Tudo comecou quando a Polícia Militar paulista postou em sua página oficial a imagem de uma criança fardada, ostentanto algemas e tonfa (espécie de cassetete). A reação foi grande e a mãe da menina alegou não ter autorizado a utilização da fotografia.

A bem da verdade, a PM não ficou procurando uma foto daquelas por muito tempo nem deveria estar nos planos do departamento de comunicação fazer a publicação para ‘causar’. O corporação estava apenas fazendo eco para algo que detectou como ‘tendência’. Afinal já estava no ar há algum tempo a comunidade “Eu nasci pra ser polícia” nas redes sociais, na qual centenas de crianças posam fardadas para seus pais, mães ou qualquer outro parente que faça as vezes de fotógrafo. Foi lá que a imagem surgiu e, segundo a PM, foi enviada pela própria mãe da menina.

Há fotos de crianças simulando dirigir viaturas, meninos com cara de mau em posição de combate, meninas batendo continência, inocentes enfiados em uniformes como o da ROTA, uma das tropas mais violentas do mundo.

Polêmica lançada, a repercussão negativa do caso gerou um contra ofensiva. Sentido-se ofendidos com as críticas veiculadas na imprensa, pais e mães passaram a despejar fotos e mais fotos e criaram o movimento ‘Vai ter criança fardada sim’. Indignados, postaram mensagens como:

“Na realidade o preconceito é com a polícia, se fosse uma criança vestida em qualquer outra coisa, até numa roupa de um travesti, o povo iria adorar, porque o futuro do Brasil é o personistismo, a prostituição, a safadeza, e isso o tal advogado que reclamou da menina vestida na farda da PM não viu, talvez ele não viu ou tenha querido aparecer, já que o ramo do direito tá muito concorrido e ele precisava de uns segundos de fama”.

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Ou então:

“Essa é a sociedade em que vivemos. Criticam uma foto de uma criança fardada e exaltam a figura de uma criança sensualmente vestida ou vergonhosamente trajada com uma roupa que não condiz com seu sexo. Essa inversão é extremamente irritante”.

Não apenas ignoram que a atitude pode ferir o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ao “submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento” (artigo 232) como permanecem com a postagem de fotos e com os comentários que mesclam a idolatria à corporação com o entusiasmo de festa de buffet infantil.

Inacreditavelmente, a demanda pelas fardas tamanho mini disparou e confecções especializadas nesse nicho não estão dando conta do recado. Um sinal evidente da falta de bom senso e do espírito bélico que move essas pessoas. Não aceitam críticas nem quando praticam chacinas, iriam concordar com reprovação ao comportamento?

A PM retirou a foto da bebê mas emitiu uma nota na qual declara incentivar o que chamou de ‘costume’ e diz entender que “a farda é, para aquelas crianças, o símbolo do heroísmo que cada pai e mãe representa”.

Quando este colunista era criança, brincar de polícia e ladrão era apenas e tão somente uma variante do pega-pega. Uma brincadeira inocente com a finalidade de correr.

Já o ultrarealismo dos uniformes não pode acarretar em algo psicologicamente mais profundo em crianças? Em julho de 2012, James Holmes invadiu um cinema no Colorado (EUA). Estava caracterizado como o vilão dos filmes do Batman. Ele sentia-se o verdadeiro Coringa e abriu fogo contra a platéia.

Esses trajes associados aos estímulos paternos vão precipitar na mentalidade imatura o culto à repressão cujo lema ‘bandido bom é bandido morto’ é um dos principais problemas nacionais. Alguém que já cresce sob este manto não estará mais propenso a cometer abusos de autoridade em uma sociedade maniqueísta? Afinal de contas, ele acredita estar do ‘lado do bem’ desde pequeno. Não é de se admirar que, depois de adulto, acredite estar acima da lei.