Por que os debates agressivos são bons para a sociedade

Pancadas úteis
Pancadas úteis

Vi que alguns blogueiros progressistas ficaram chocados com o que seria o baixo nível do debate de ontem.

“Se Aécio e Dilma tiverem bom senso, estão com vergonha deste debate”, escreveu Leonardo Sakamoto.

“Todos perderam em um circo de horrores”, disse Nassif.

“Quem escreve agora não é o blogueiro, é o cidadão. Estou cansado de ver brigas entre Dilma e Aécio. Quero propostas”, afirmou Eduardo Guimarães.

Discordo inteiramente. Discordo 100%. Melhor: discordo 200, 300%.

A importância de um debate está em permitir ao leitor que conheça os candidatos. A alma dos candidatos, quero dizer.

Pope disse que não existe nada tão relevante, na história da humanidade, do que o estudo da essência do homem em si.

E nisso os debates, particularmente o de ontem, têm sido extraordinariamente ricos.

Conheça o homem, ou a mulher, e você terá plenas condições de votar com consciência.

Acho até engraçado esperar que se formulem propostas para um país em dois minutos para o adversário rebatê-las em um minuto, sob o cerco implacável dos moderadores.

Você não discute sequer o seu casamento, ou namoro, em um minuto, que dirá os caminhos da educação ou da saúde, os remédios para a economia ou para o meio ambiente, e por aí vai.

Mas em instantes, em fragmentos de instantes, você capta a alma do candidato, e isso acontece em geral em situações de tensão e confronto, quando a guarda está mais baixa e o nhenhenhém diplomático se esvai.

Vou falar de mim, pessoalmente.

Paulista, não conhecia Aécio. Ou conhecia superficialmente. Era, para mim, essencialmente, apenas um playboy, mais presente no Rio do que em Minas.

Os debates me mostraram que ele é muito mais que um playboy.

É um clássico demagogo: fala com desenvoltura e aparente segurança, mas não tem o menor pudor em mentir, simular indignação e tergiversar.

Se você espremê-lo, não vai sair uma gota de sinceridade.

Junte, por exemplo, todas as explicações que ele deu sobre o aeroporto de Cláudio. Não sobra uma linha que convença alguém de que aquilo não foi uso de dinheiro público para fins privados.

Repita o procedimento para o caso do nepotismo serial, algo particularmente grave para quem deu para falar compulsivamente em meritocracia.

Outra vez, não há nada de substantivo em suas perorações sobre o assunto.

Ardilosamente, ele quis no debate do SBT confundir os eleitores ao comparar sua irmã com o irmão de Dilma.

Não poderia haver duas situações mais diferentes. Mas Aécio não se constrange em misturar coisas para enganar os eleitores mais ingênuos.

Estes podem pensar, como disse Aécio numa frase certamente estudada, que Andrea Neves trabalha sem ganhar e Igor Rousseff ganha sem trabalhar.

Mas é uma falácia – e ele sabe que é. Mas isso não o detém.

Procure também uma justificativa decente sobre o dinheiro público posto em seu governo em rádios da família.

Você não vai encontrar. Sequer vai saber qual o montante, e isto partindo de um candidato que se diz um campeão da honradez e da transparência.

Vamos ser diretos: é abjeto político ser dono de concessão pública como rádio. É um palanque que funciona todos os dias, e todas as horas.

A questão do bafômetro, posta ontem, mereceu uma resposta que, no Twitter, alguém classificou como “a frase do debate”.

Aécio afirmou que não se submeteu ao bafômetro “inadvertidamente”. É uma das desculpas mais fajutas que alguém já apresentou na história da República.

Passemos a Dilma.

Ela está longe de ser uma campeã de oratória, uma réplica de Cícero, Demóstenes.

Mas, por não ser demagoga como Aécio, transmite muito mais sinceridade, ainda que tropece, aqui e ali, em algumas frases e cite demasiadamente números, um recurso enfadonho para o espectador.

Com seu jeito simples, nada afetado, Dilma consegue mostrar que seu projeto de governo dá foco aos desvalidos, aos excluídos, aos miseráveis.

Com sua fala de demagogo, Aécio tenta esconder – sem conseguir — que seu compromisso é com a plutocracia que fez o Brasil ser o que é, um campeão mundial da desigualdade.

Não teríamos um quadro tão claro quanto este não fossem os debates acirrados – daí meu elogio entusiasmado a eles.