O que levou os Estados Unidos a um declínio tão dramático

Paulo Nogueira 27 de abril de 2013 40

Uma sociedade movida pela busca de status é insustentável, diz o acadêmico Morris Berman.

Os americanos estão muito mais para isso que para Bill Gates

 

Morris Berman, 67 anos, é um acadêmico americano que vale a pena conhecer.

Acabo de ler “Por Que os Estados Unidos Fracassaram”, dele. A primeira coisa que me ocorre é: tomara que alguma editora brasileira se interesse por este pequeno – 196 páginas — grande livro.

A questão do título é respondida amplamente. Você fecha o livro com uma compreensão clara sobre o que levou os americanos a um declínio tão dramático.

O argumento inicial de Berman diz tudo. Uma sociedade em que os fundamentos são a busca de status e a aquisição de objetos não pode funcionar.

Berman cita um episódio que viu na televisão. Uma mulher desabou com o rosto no chão em um hospital em Nova York. Ela ficou tal como caiu por uma hora inteira, sob indiferença geral, até que finalmente alguém se movimentou. A mulher já estava morta.

“O psicoterapeuta Douglas LaBier, de Washington, tem um nome para esse tipo de comportamento, que ele afirma ser comuníssimo nos Estados Unidos: síndrome da falta de solidariedade”, diz Berman. “Basicamente, é um termo elegante para designar quem não dá a mínima para ninguém senão para si próprio. LaBier sustenta que solidariedade é uma emoção natural, mas logo cedo perdida pelos americanos porque nossa sociedade dá foco nas coisas materiais e evita reflexão interior.”

Berman afirma que você sente no ar um “autismo hostil” nas relações entre as pessoas nos Estados Unidos. “Isso se manifesta numa espécie de ausência de alma, algo de que a capital Washington é um exemplo perfeito. Se você quer ter um amigo na cidade, como Harry Truman disse, então compre um cachorro.”

Berman

O americano médio, diz ele, acredita no “mito” da mobilidade social. Berman nota que as estatísticas mostram que a imensa maioria das pessoas nos Estados Unidos morrem na classe em que nasceram. Ainda assim, elas acham que um dia vão ser Bill Gates. Têm essa “alucinação”, em vez de achar um absurdo que alguém possa ter mais de 60 bilhões de dólares, como Bill Gates.

“Estamos assistindo ao suicídio de uma nação”, diz Berman. “Um país cujo propósito é encorajar seus cidadãos a acumular mercadorias no maior volume possível, ou exportar ‘democracia’ à base de bombas, é um navio prestes a afundar. Nossa política externa gerou o 11 de Setembro, obra de pessoas que detestavam o que os Estados Unidos estavam fazendo com os países delas. A nossa política (econômica) interna criou a crise mundial de 2008.”

A soberba americana é sublinhada por Berman  em várias situações. Ele cita, por exemplo, uma declaração de George W Bush de 1988: “Nunca peço desculpas por algo que os Estados Unidos tenham feito. Não me importam os fatos.” Essa fala foi feita pouco depois que um navio de guerra americano derrubou por alegado engano um avião iraniano com 290 pessoas a bordo, 66 delas crianças. Não houve sobreviventes.

Berman evoca também a Guerra do Vietnã. “Como entender que, depois de termos matado 3 milhões de camponeses vietnamitas e torturado dezenas de milhares, o povo americano ficasse mais incomodado com os protestos antiguerra do que com aquilo que nosso exército estava fazendo? É uma ironia que, depois de tudo, os reais selvagens sejamos – nós.”

Você pode perguntar: como alguém que tem uma visão tão crítica – e tão justificada – de seu país pode viver nele?

A resposta é que Berman desistiu dos Estados Unidos. Ele vive hoje no México, que segundo ele é visceralmente diferente do paraíso do narcotráfico pintado pela mídia americana — pela qual ele não tem a menor admiração. “Mudei para o México porque acreditava que ainda encontraria lá elementos de uma cultura tradicional, e acertei”, diz ele. “Só lamento não ter feito isso há vinte anos. Há uma decência humana no México que não existe nos Estados Unidos.”

Clap, clap, clap.

  • Saulo Londres

    Paulo,é pena se este livro não for publicado aqui.Corremos o sério risco de incorporarmos da forma mais visceral, doida e maligna este estilo de pensar agir.A pedra fundamental da barbárie do mundo globalizado economicamente já foi apresentada a todos.E tem muita gente cristã, nos trópicos, que já adora este este bezerro de ouro.O resto que se dane,principalmente os excluídos.

    • Paulo Nogueira

      Minha percepção é que o Brasil está em outra direção, Saulo. Desde FHC e sobretudo com Lula, a desigualdade social tem sido — graças a Deus — tratada com seriedade. Gostei de ter ouvido a Dilma dizer logo no início do mandato que enquanto houver tanta miséria no Brasil não seremos potência. Cheers!

      • Saulo Londres

        Torço para que voce esteja certo,embora tema que com os sinais de retração econômica que parecem surgir no horizonte,as forças que achincalham esses avanços, venham a ocupar os espaços perdidos.O Brasil ainda é extremamente conservador,principalmente nas áreas formadoras de opinião.Veja o que falam do bolsa família e o que sentem ao ver em espaços até há pouco tão exclusivos,como aeroportos, frequentados pela nova classe média.Cheers!

        • Paulo Nogueira

          Saulão, qdo respondi a vc, tinha esquecido a força dos PIBs … vc tem razão. Cheers!

  • Leonardo

    Cada vez mais os EUA se parecem com a sua figura mostrada no filme Fuga de Los Angeles. Só falta eleger um político teocrático. Opa! Mas ele já está concorrendo: Mitt "Deus criou os EUA para governar o mundo" Romney. Os Founding Fathers estão se revirando de horror nas tumbas…

  • Cezar

    Paulo, parabéns pelas dicas e comentários .
    Acredito que o brasileiro introjetou esses valores "mórbidos" da sociedade norte americana.
    Há realmente um clima de individualismo e muita violência no ar. Em todas as classes sociais.
    Há inegavelmente ,uma inclusão social e uma a maior distribuição de renda patrocinada majoritariamente pelo Estado .E isso deu força a nossa economia ( o mercado interno de Lula).
    Mas, o viés economicista é um parasita das almas ecom o tempo mostra sua dura face.

    • Paulo Nogueira

      infelizmente herdamos muitas coisas ruins dos americanos, Cezar. vc tem razão.

  • Zapper

    Paulo, não sei se vc, que é um sino-entusiasta, chegou a tomar conhecimento da notícia abaixo. Parece que não é só nos EEUU. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/10/
    P.S. Congrats pelo çaite repaginado.

    • Paulo Nogueira

      Zapper, não soube disso, não. Que horror. Pelo menos as imagens provocaram choque e indignação. Sou um grande admirador da confucionismo que dirige a China há 2 500 anos, mas cada vez me inclino mais a achar que a melhor fórmula social é a da Escandinávia — regida, como escrevi já algumas vezes, pela Janteloven, as leis igualitárias de um cidade de ficção chamada Jante …

  • Claudia Fazenda

    Paulo, parabéns pela matéria;
    Quanto ao comentário do Cesar, me preocupa este fenômeno de consumismo da classe “D”, ou seja, nossos brasileiros que estão podendo comprar geladeiras, novas,TVs, celulares caríssimos e pagarem em 24X… O efeito sobre o ego, o envolvimento dos jovens no narcotráfico em troca do poder de consumo, o abandono das escolas; o efeito cumulativo destas dívidas empurrando as pessoas para os braços das financiadoras que brotam em cada esquina como solução para tudo! Não existe falência para pessoa física no Brasil… O que esperar???

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  • Roberto Locatelli

    Grato pela dica. Não vou esperar chegar ao Brasil. Vou usar meu inglês meia-boca e ler no original.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      boa, Roberto!

  • http://www.janosbiro.com.br Janos Biro

    Confira: http://umanovacultura.blogspot.com.br/2012/09/a-maneira-como-vivemos-hoje.html
    Esta é a tradução de uma palestra proferida pelo historiador americano Morris Berman a respeito do seu novo livro, Why America Failed (Por que a América falhou), lançado em 2011.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Grato pela contribuição, Janos.

  • Emília

    Clap, clap, clap, como tu diz, Paulo. Que belo texto. Apesar da nossa mídia fazer de tudo pra impor o estilo americano de viver, ainda não conseguiu acabar com a nossa cultura, principalmente no norte e nordeste e, espero que não consiga. Sou como Berman, tradicionalista e não materialista.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Os americanos já elvis, Emília …

  • Geovani F. dos Santos

    Fora alguns atropelos, no quesito solidariedade e calor
    humano o Brasil tem muito a oferecer. Pelo que se percebe, altruísmo e misericórdia são duas palavras distantes dos americanos. Junte também a elas o vocábulo
    alteridade, e se perceberá que a ausência ou o indiferentismo a estas virtudes produz uma geração de seres desumanizados e insensíveis às desgraças alheias.

    Paulo, um feliz ano novo cheio de saúde, paz e realizações

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  • Cláudio

    Os despeitados e invejosos de todo o mundo nunca chegarão aos pés do nível intelectual e cultural deste povo, ou voces já viram Nobel Brasileiro? NÃO VÃO VER NUNCA! Eles vão sair de mais esta crise com a cabeça erguida e provocando a ira de terroristas invejosos e incompetentes espalhados pelo mundo afora, pois se eu não posso ter ou ser melhor que voce, então vou te destruir.

    • anac

      Estão no caminho…

      Roma dizia o mesmo dos bárbaros: é inveja.

  • Caio Bezerra Ferraz

    Curioso. Os cristãos, antidarwinistas e cheios da graça divina – sequer desenvolvem solidariedade, respeito e benevolência pra com o próximo. O mais curioso é alguém ainda achar que eles são um modelo de civilização a ser seguido. Herdaram costumes muito mais viáveis ao empreendedorismo e à administração (ao contrário de nossa desgraçada herança ibérica), são ricos, mas também deseducados, grosseiros, ignorantes e violentos. Esta crise por que vêm passando está servindo pra que eles percebam que não são melhores que ninguém pura e simplesmente por serem americanos.

  • Morus

    Respiro fundo antes de escrever qualquer coisa. Já havia lido esse artigo em outro site, mas reli aqui.
    Não me surpreende, uma vez que é assim que percebo a sociedade norteamericana. Digo percebo porque não conheço “in loco”, nunca estive nos EUA.
    O que me surpreende é que esse seja o modelo da elite brasileira, que é martelado dioturnamente pela grande mídia tentando convencer as massas de que isso é bom para o Brasil.

  • Antonio Carlos – Brasilia

    É realmente a coisa por lá não tá boa. Eles estão começando a colheita.
    Tomara que este livro saia por aqui. E me lembrei de uma noticia, vejam o link:

    http://www.implicante.org/noticias/manual-da-caixa-recomenda-que-brasileiros-mantenham-suas-roupas-limpas-quando-forem-aos-eua/

    Isto é prova dos argumentos do autor deste livro de como os americanos são solidários.
    Abraços.

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  • diego

    Valeu pela dica de leitura, Paulo! Sua resenha atiçou minha vontade de ler o livro. Há algum tempo vinha buscando alguma obra de qualidade que abordasse esse tema.

  • Aurelio Dubois

    Paulo

    Leia a declaração abaixo extraída do seu texto:
    Uma declaração de George W Bush de 1988: “Nunca peço desculpas por algo que os Estados Unidos tenham feito. Não me importam os fatos.” Essa fala foi feita pouco depois que um navio de guerra americano derrubou por alegado ENGANO um avião iraniano com 290 pessoas a bordo, 66 delas crianças. Não houve sobreviventes.
    No vídeo Collateral Murder” que conhecemos graças a Bradley Manning, Julian Assange eo Wikileaks também foi alegado que as mortes foram provocadas por ENGANO.
    O Tio Sam não comete crimes de guerra, apenas ENGANOS.
    Respeitosamente.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Império do Mal, AD …

  • rudi

    Encontro pessoas que juram não tornar a visitar o irmão do norte. Resultado de uma neura crescente. Excesso de controles, arrogância e prepotência dos funcionários. A conta está chegando. Internamente uma população estressada e assustada que perdeu a certeza de que compunham o país do bem. O pais que levava a democracia e os direitos humanos a todos rincões do mundo.

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  • Edivaldo Silva

    “Um país cujo propósito é encorajar seus cidadãos a acumular mercadorias no maior volume possível, ou exportar ‘democracia’ à base de bombas, é um navio prestes a afundar. Nossa política externa gerou o 11 de Setembro, obra de pessoas que detestavam o que os Estados Unidos estavam fazendo com os países delas. A nossa política (econômica) interna criou a crise mundial de 2008.”

    No ritmo que vai, em breve eles terão Democracia só para exportação.

  • Mauricio Andreoli
    • http://www.dcm.com.br/ Paulo Nogueira

      Sim, MA.
      O Krugman tem escrito coisas mto boas.

      • Mauricio Andreoli

        Alguém dentro do império precisa tentar dar um direcionamento diferente à sociedade americana e Krugman tem se posicionado assim. Infelizmente o americano comum parece não ter interesse a esse tipo de leitura.

  • anac

    USA, nunca fui, nunca irei.
    O diabo é termos aqui traidores conspirando contra o Brasil em favor de satanás(USA) para que o retornemos a condição de quintal. O império decadente morre atirando e o atual tem muita bala na agulha e disposição para atirar e matar.

  • http://www.dcm.com.br/ Paulo Nogueira

    Sim, nos sites de ingressos, só que mais caros.