Por que Stairway To Heaven do Led Zeppelin não é plágio de Taurus do Spirit. Por Emir Ruivo

Não é plágio. Mas a gente ainda vai chegar lá.

E o fato de não ser plágio não significa que a família de Randy California, autor de “Taurus”, não mereça um bom dinheiro pela contribuição na música. Mas a gente, também nesse assunto, ainda vai chegar lá.

Comecemos pelo começo: vários veículos de comunicação têm repercutido a informação do Los Angeles Times de que o advogado da família de Randy, guitarrista da banda Spirit, vai processar o Led Zeppelin por plágio.

O que se tem dito é que “Stairway To Heaven” teria sido plageada da música “Taurus”. O advogado da família California não diz exatamente isso. Quer a inclusão de Randy como co-autor. E essa inclusão pode se dar por uma razão muito mais aplicável neste caso: “Taurus” é uma música incidental em “Stairway To Heaven”.

Ladrão sacana ou humilde aprendiz?
Ladrão sacana ou humilde aprendiz?

Música incidental pode soar como algo que aconteceu por incidente. Serve também para citações, desde que não sejam temas centrais.

Por exemplo, é música incidental se eu fizer um “choobida chooba”, “uh la la” ou “tcha tcha tcha” de coro em alguma música. Não é porque alguém fez antes que ninguém mais pode fazer. Um exemplo bem claro de música incidental é “2345 Meia 78” do Gabriel O Pensador. É exatamente o mesmo tema de baixo de “Good Times” da Chic.

O baixista Bernard Edward foi creditado na música do Chic porque é de fato autor da música. Mas há casos diferentes. George Harrison é criador de inúmeros riffs dos Beatles. “Day Tripper”, “Paperback Writer” ou “And I Love Her”, entre dezenas de outras músicas, têm riffs e solos de Harrison e são totalmente creditadas a John Lennon e Paul McCartney.

O que acontece é George está lá simplesmente fazendo seu trabalho. O riff de guitarra, teoricamente, não é parte da criação, mas do arranjo. Se fossemos falar em cinema, o diretor pode dar vida ao filme, o ator pode dar vida ao personagem, o diretor de arte pode dar vida ao cenário. Mas o autor é o roteirista.

Um caso claro de plágio é a música “Da Ya Think I’m Sexy” de Rod Stewart. Aí sim, é um plágio de “Taj Mahal” de Jorge Ben, admitido por Rod Stewart inclusive.

Aí Rod Stewart se utilizou da mesma melodia, no mesmo ritmo e mais que isso, um tema absolutamente central da música. É o refrão, o gancho, o money maker.

Mas no “acessório” da música, se não há alguma liberdade de semelhança, você limita muito as criações. Não haveria “Satisfaction”, por exemplo, que de acordo com Keith Richards foi um riff criado em cima de um tema de blues.

Se isso é só de quem fez primeiro, não tem mais música. São só 12 notas, afinal, distribuídas numa quantidade limitada de combinações.

Isto posto, voltemos ao Led Zeppelin. Lembremos que a banda tem antecedentes de acusações de plágio.

Seria esta uma banda que rouba ideias? Ou uma banda que se inspira em artistas que admiram?

Sim, os temas de “Stairway To Heaven” e “Taurus” são muito semelhantes. Não idênticos, mas parecidos o suficiente para que a gente considere que sim, a música inspirou a criação do Led Zeppelin. Não parece ter sido um “incidente”. Mas isso não impede que seja classificada como música incidental.

O mais difícil neste caso é determinar: o tema é um acessório, como os riffs de Harrison? Ou é determinante? Tenho para mim que, quisesse, Jimmy Page seria perfeitamente capaz de fazer um riff diferente que poderia funcionar igualmente bem para introduzir a música espetacular que viria posteriormente.

Mas o fato é que esse é o tema que se ouve em toda maldita loja de guitarra da Rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, e não há de ser à tôa. É um tema muito forte.

Bem, se eu fosse o juiz, determinaria que é música incidental. Mas sendo o Led Zeppelin uma banda tão rica e a família California tão pobre, apesar dos lampejos de sucesso de Randy, eu determinaria uma boa quantia de indenização aos filhos do autor de Taurus.

Não por “roubo” de ideia, que é o plágio. Mas por ter inspirado o monumento que é “Stairway To Heaven” e assim, contribuído com a criação da música.

Algo desta magnitude não pode passar despercebido. Me entristece saber que a própria banda não tomou a iniciativa de oferecer uma boa quantia pela “ajuda”.

Apesar dos pesares, me parece que justiça será feita – de forma espontânea ou não.