Por que uma cena de mulheres se estapeando por um homem interessa à Globo. Por Nathali Macedo

A Rede Globo – a emissora mais empoderadora da porra desde que Fernanda Lima começou a convidar feministas pretas e drags para o seu programa de auditório desconstruidão – acaba de provar, mais uma vez, o quanto apoia a paz, a diversidade e a igualdade de gêneros.

Ontem, na cena de uma novela que eu felizmente sequer sei o nome (vi a cena porque a internet não perdoou e ela apareceu na minha timeline), três mulheres se estapeando em um banheiro feminino. O motivo: Um homem branco, rico, bem sucedido e infiel.

Segundo minha apuração novelística – perdoem qualquer tropeço, eu realmente não assisto à Globo – a esposa do disputado garanhão, interpretada por Maria Fernanda Cândido, descobre que sua amiga, interpretada por Débora Falabella, é amante de seu marido, personagem de Dan Stullbach.

O que ela faz diante dessa descoberta?

( ) Dá um pé na bunda do marido infiel, baixa o Tinder e começa a fazer terapia;
( ) Dá um pé na bunda do marido infiel e diz à amiga que ela pode fazer bom proveito porque ninguém precisa de macho desleal pra nada;
( x ) Dá uma surra na amiga, com a ajuda da nora (interpretada pela maravilhosa Ísis Valverde), coloca o marido embaixo do braço e o leva pra casa, porque, afinal, homens são troféus que precisamos disputar a tapas.

Pra mim, essa cena – que não é a primeira: as personagens de Malu Mader e Claudia Abreu já se estapearam na novela “Celebridade” – só serviu para ratificar o que sempre foi óbvio: a globo não se importa com igualdade de gêneros, a globo não convida feministas pretas para seus programas porque gosta de feministas pretas ou mulheres trans porque gosta de mulheres trans: ela faz isso porque isso dá Ibope (e ainda bem que dá Ibope).

Pelo mesmo motivo, ela põe na tela velhinhos sendo atirados do alto de escadarias, mulheres se estapeando e gente se expondo a toda sorte de situações ridículas, na ficção e na realidade (alô, BBB!). Não tem distinção de conteúdo/público: deu audiência? Tá valendo.

Em nome do Ibope, vale tudo: desde estupros emoldurados e romantizados (já aconteceu na telinha da plim plim mais de uma vez) a mulheres se estapeando por homens.

Tudo pela audiência. E pelo deleite masculino, é claro.