Chacina de Campinas: quando a mídia chamará feminicídio de feminicídio? Por Nathalí Macedo

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A primeira notícia que recebi em 2017 foi de que um homem matou doze pessoas em Campinas – SP, encorajado pela misoginia.

Nada diferente de 2016, quando uma adolescente foi estuprada por trinta e três homens. Ou de 2015, quando Verônika Bolina foi espancada numa delegacia. Ou de 2014, quando uma mulher morreu em após comer bombons envenenados pelo namorado. Ou em 2010, quando Eliza Samudio foi morta pelo goleiro Bruno. Ou, indo mais longe, em 2008, quando a menina Eloá, de 15 anos, foi mantida em cárcere privado pelo ex-namorado e acabou morta.

Se fizéssemos uma gigantesca retrospectiva, haveria crimes misóginos em todos os lugares e em todos os anos de nossa existência. Eis, portanto, uma constatação necessária: Crimes misóginos acontecem desde que o mundo é mundo.

Para as feministas – e para todas as pessoas com algum bom-senso- esta é uma constatação óbvia à qual resiste terminantemente a extrema direita brasileira: nem chacinas, nem crimes bárbaros, nem estupros coletivos são capazes de convencê-los de que a cultura do estupro existe e o patriarcado não é invenção das feministas.

A carta de Sidnei Ramis Araújo, o assassino misógino de Campinas, é um verdadeiro documento. Uma espécie de raio-x da misoginia, com todos os seus detalhes.

Nada do que foi escrito pelo assassino faz qualquer sentido. Em vez de ideias, há ódio. E para justificar o ódio cego, há a mesma balela de sempre: Sou um cidadão de bem, contra a corrupção, não sou machista, amo as mulheres de boa índole (e todos os clichês bolsonaristas possíveis).

Sidnei não era um homem perturbado, não era doente, não era louco: era apenas um homem que – como tantos homens que conheço – não conseguiu lidar com a ideia de perder o poder e os privilégios.

Sidnei não matou por amor – um adendo: amor não mata, o que mata é o machismo – matou pelo poder que havia perdido. Matou porque a masculinidade tóxica faz com que homens acreditem que quando uma mulher resolve viver a própria vida e tomar as próprias decisões, isto é uma afronta.

Não sou eu quem digo, é a cirúrgica e assustadora carta do assassino. A repetição do termo “vadia” certamente não é por acidente: é para que fique ainda mais claro, se é que é isto possível, que as doze pessoas mortas em Campinas não são vítimas de Sidnei: são vítimas de um sistema assassino, de uma cultura misógina, de uma mídia que insiste em classificar crimes misóginos como “crimes passionais”, de um judiciário que parece não enxergar que machismo mata.

A ex-companheira do assassino e uma das vítimas da chacina denunciou-o aos órgãos competentes durante dez anos e absolutamente nada aconteceu, porque, por mais que nos doa admitir, ninguém se importa.

Mulheres morrem todos os dias de todos os anos de todos os tempos, mas a mídia não se importa, o judiciário não se importa, e a sociedade – com sua pontual e seletiva indignação – tampouco se importa – a não ser quando um crime bárbaro é noticiado, mas o pequeno mal-estar causado pela gritante misoginia se dissipa como éter em frente a um ventilador.

A mídia violenta quando noticia um feminicídio como um “crime passional”. Ninguém comete crimes por amor: um feminicídio é um feminicídio. Ponto.

O judiciário violenta quando relativiza os crimes sexuais. Quando culpabiliza a vítima. Quando, provincianamente, parece agarrar-se o quanto é possível à máxima “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”.

O moralismo – especialmente da extrema direita brasileira – violenta quando determina que um homem pode fazer qualquer coisa pela sua honra e pelo seu poder – pode até mesmo matar doze pessoas, inclusive o próprio filho.

Enquanto a mídia, o Judiciário e a incompreensível moralidade da extrema direita brasileira continuarem a endossar o machismo e a misoginia, mulheres continuarão morrendo. Nós não somos violentadas por homens, sujeitos autônomos, somos violentadas por um sistema que parece estar inteiro contra nós.

O assassino de Campinas matou doze, mas teria matado quantas mulheres conseguisse. O ódio que ele transpôs para a ex-companheira e para o próprio filho é o ódio que sente, na verdade, por todas. Todas as vadias. Todas as mulheres que ousam serem mais do que marionetes.

Como temos dito – e não é de hoje – discutir masculinidades tóxicas é urgente. Combater a cultura do estupro e a misoginia é urgente. Lutar por uma educação que encoraje a isonomia de gêneros é urgente. Resta-nos saber quantas chacinas e estupros coletivos serão necessários para que se compreenda isso.