“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância”. Por Camila Nogueira

"O ideal do amor e da verdadeira generosidade é dar tudo de si, mas sempre sentir como se isso não houvesse lhe custado nada."
“O ideal do amor e da verdadeira generosidade é dar tudo de si, mas sempre sentir como se isso não houvesse lhe custado nada.”

A “entrevista” abaixo faz parte de nossa série “Conversas com Escritores Mortos”. A entrevistada é a escritora francesa Simone de Beauvoir (1908 – 1986).

Em seus livros, Madame de Beauvoir, a senhora defendeu os direitos das mulheres. O mundo em que vivemos lhe parece excessivamente machista?

Vivemos em um mundo patriarcal, e nenhuma das razões que me foram apresentadas para tanto parecem-me adequadas. A única maneira que nós mulheres temos de lidar com essa pretensa inferioridade feminina é a partir da destruição da superioridade masculina. Antes de mais nada, é necessário que saibamos que nós não nascemos mulheres – nós nos tornamos mulheres.

Hmmm…

Uma mulher deve ser livre para fazer o que bem entender de sua vida. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.

Entendo.

Alguns definem os homens como seres humanos e as mulheres como fêmeas; e toda vez que uma mulher age como um ser humano é acusada de estar tentando imitar os homens. Dizem que é um mal da época em que vivemos, e que esse tipo de coisa se resolverá no futuro. Mas eu não quero esperar para ver. Mude sua vida hoje, esse é meu lema. Não aposte no futuro, aja agora, sem atraso. O fato de que todos somos seres humanos é muito mais importante do que todas as peculiaridades que diferenciam uma pessoa da outra.

E quanto à sua personalidade? Apesar de suas fortes convicções, a senhora foi uma pessoa fácil de lidar?

Na verdade, sou terrivelmente gananciosa – quero tudo da vida. Quero ser uma mulher e um homem, ter muitos amigos e ter momentos de solidão, trabalhar muito e escrever bons livros, viajar e me divertir, ser egoísta e altruísta… Seria difícil conseguir tudo o que quero. E quando não sou capaz de fazer tudo isso, fico louca de ódio.

A senhora foi uma escritora excepcionalmente talentosa. Queria escrever desde pequena?

Quando eu era criança e mesmo quando eu já era adolescente, os romances me salvaram do desespero; e isso serviu para convencer-me de que a cultura é o maior dos valores.

Hmmm…

No papel, você diz exatamente o que está sentindo. Como é fácil quebrar objetos no papel! Você odeia, você grita, você mata, você comete suicídio – você leva as coisas até o fim. E é por isso que é uma farsa. Mas é uma farsa muito satisfatória. Na vida, você está constantemente negando a si mesma, e os outros estão sempre te contradizendo. É por isso que considero escrever livros uma tarefa encantadora. No papel, faço com que o tempo pare e imponho minhas convicções para todo o mundo. Elas se tornam a única realidade.

Suponho que sim. Mudando de assunto, a senhora acredita que para uma mulher se emancipar ela deve recusar a ideia do amor e do casamento?

Estou mais disposta a negar a existência do espaço e do tempo do que admitir que o amor pode não ser eterno.

A senhora teve uma vida amorosa conturbada – um relacionamento longo com Jean-Paul Sartre e um número considerável de amantes de ambos os sexos. Perdoe-me a indiscrição, mas a senhora se importaria em nos contar o motivo pelo qual jamais se casou?

Porque sou inteligente, exigente e hábil demais para que qualquer pessoa tome conta de mim. Ninguém me conhece nem me ama completamente. Tenho apenas a mim mesma. Há poucos crimes que recebem um castigo pior do que este erro magnânimo: Colocar-se totalmente nas mãos do outro e, por isso, ficar à mercê dele.

E quanto às mulheres? A senhora considera a homossexualidade menos limitada do que a heterossexualidade?

Em si, a homossexualidade é tão limitada quanto a heterossexualidade – o ideal é ser capaz de amar um homem ou uma mulher sem sentir medo, repressão ou obrigação. O ideal do amor e da verdadeira generosidade é dar tudo de si, mas sempre sentir como se isso não houvesse lhe custado nada.

Mme. de Beauvoir? Clap clap clap!