Quem é o misterioso investidor chinês que está agitando o futebol brasileiro

Lee, ao centro, levou o técnico Cuca ao Shandong

Lee, ao centro, levou o técnico Cuca ao time do Shandong

 

O futebol é pródigo em promover figuras obscuras, personagens que articulam negócios nos bastidores e passam despercebidas até que algo, geralmente errado, chame a atenção. Uma delas é o indonésio, naturalizado chinês, Lee Yue Hung Joseph.

Também conhecido como Joseph Lee aqui no Brasil, ele foi o intermediário da recente compra do Centro de Treinamento do Desportivo Brasil, academia de futebol de propriedade da Traffic, sediada em Porto Feliz e que será sede da seleção de Honduras durante a Copa.

Assim como o próprio Joseph Lee, o negócio também é pouco transparente. Não se sabe quem são os compradores (“investidores chineses”) nem com quais objetivos foi feito a compra — e muito menos o valor envolvido. O que se sabe é que a Traffic fechou o negócio imediatamente com a justificativa de que o valor é o triplo do se esperava.

Essa não é a única grande transação de Lee no futebol brasileiro. No último ano, cerca de 130 milhões de reais vindos de fontes chinesas entraram no nosso mercado, compostos principalmente de contratos com jogadores do futebol brasileiro. Montillo, o argentino atacante do Santos, transferiu-se recentemente para a China graças à intervenção de Lee. Assim como o técnico Cuca, que passou a ganhar salário de 1,5 milhão de reais no Shandong Luneng.

Sob a pessoa jurídica de Kirin Soccer, sediada num confortável escritório da Avenida Paulista, Lee intermediou negociações de vários atletas com o futebol chinês, incluindo Paulão (Grêmio), Renato Cajá (Botafogo), Conca (Fluminense), Lucas Barrios (Borussia) e Elkeson (Botafogo). E até mesmo com o treinador Marcello Lippi campeão mundial pela Seleção Italiana, que foi para o Guangzhou Evergrande, da China.

Ele é “dono” de jogadores como Hernanes, do Lazio e Seleção Brasileira, e Casemiro, atualmente no Real Madrid — e mais duas dezenas de atletas brasileiros. Além disso, gosta de investir nas categorias de base e hoje tem pelo menos nove jogadores da base do São Paulo sob contrato. Transformou-se repentinamente no grande parceiro de Juvenal Juvêncio, o presidente são paulino, com quem vem encetando negociações — a ponto de JJ aparecer num vídeo, com legendas em chinês, agradecendo “aos amigos do futebol da China”.

Joseph Lee é agente certificado pela Fifa, o que na verdade não quer dizer nada, apenas que ele faz negócios com a anuência da entidade. É um parceiro, digamos.  Está no Brasil já há muito tempo e não foram poucas vezes em que se envolveu em negócios “estranhos” — foi, inclusive, convocado para depor pela CPI do Futebol. Negociou com Dualib, o ex-presidente do Corinthians que se enroscou com o dinheiro esquisito da MSI, e sofreu alguns processos.

Mas mantem-se na sombra. Há poucos registros de fotos ou de qualquer manifestação pública da sua parte. Sabe-se, no entanto, que investe em hotéis e edifícios de luxo, em ouro e, claro, no futebol — é dono do time chinês Guangzhou. Negócios que o colocaram na posição 200 entre os mais ricos do mundo. Na imprensa brasileira e internacional, é descrito como um homem de aproximadamente 50 anos, de poucos sorrisos e palavras — e com muitas articulações internacionais que passam, obviamente, por empresas “offshores”.

Mas, acima de tudo, Lee tem a confiança de investidores chineses, interessadíssimos em desenvolver o futebol do país com a mesma estratégia empregada pelo Japão e Coréia do Sul: às custas da experiência brasileira. A compra do centro de treinamento da Traffic deve ser apenas o primeiro dos grandes negócios da China que ocorrerão por aqui. E, à frente deles, com certeza, estará Joseph Lee.

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Esporte

Jornalista, escritor, cineasta e advogado.

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