Roberto Marinho usava pó de arroz para clarear a pele, atores se pintavam de preto… a cultura racista da Globo vai além de Waack

“Doutor Roberto” passava pó de arroz para atenuar a tez morena, segundo Bial

Meu amigo Manuel Enriquez lembrou, a respeito do imbroglio William Waack, que a Globo tem um passivo racista “complicado” — Enriquez gosta dessa palavra.

Pedro Bial narra em sua biografia autorizada que Roberto Marinho usou pó de arroz até o fim da vida em razão de um “desconforto” com a cor da pele.

O eufemismo esconde que o doutor Roberto não queria parecer mulato.

Para além da fofoca, isso demonstra a maneira como o dono da emissora encarava os negros. A empresa é o dono.

Veja bem: não estamos falando dos anos 20 ou 30. A Globo é de 1965. Martin Luther King e, um pouco mais tarde, o black power já não tinham razão de ser ignorados.

É claro que Bial não se aprofunda na maquiagem, tratada como um fato prosaico. Hoje, provavelmente, o trecho seria devidamente vetado pelos herdeiros ou seus estafetas.

Isto é, Bial mesmo, que é da casa desde que nasceu, trataria de sonegar a informação porque conhece as regras.

Em agosto de 2016, meu irmão Paulo Nogueira escreveu uma resenha de um livro do jornalista americano Alex Cuadros chamado Brazillionaires.

Ali estava, segundo Paulo, o melhor perfil de Roberto Marinho. Diz ele:

A imagem de um país de próspera tranquilidade na ditadura foi, em grande parte, forjada pela Globo. Medici dizia que gostava de ver o Jornal Nacional porque ali não havia nada do mundo em convulsão que existia na realidade no Brasil e fora dele.

Roberto Marinho soube cobrar o preço de seus favores para a ditadura. Daí os bilhões de sua fortuna pessoal, hoje distribuída entre os três filhos.

Um outro aspecto interessante do perfil de Cuadros é a relação da Globo com as questões raciais brasileiras. Ele não deixou escapar de sua análise o infame livro do diretor de telejornalismo da Globo Ali Kamel, Não Somos Racistas.

Cuadros volta atrás e lembra que na novela A Cabana do Pai Tomás a Globo utilizou um ator branco, Sérgio Cardoso, pintado de negro, e com artifícios para inflar suas narinas.

Ele recorda uma fala, também, de um ator que numa novela tinha se apaixonado por uma empregada. “Que importa se ela é negra, se sua alma é branca e pura?”

Waack está sendo usado de bode expiatório para purgar os pecados de quem lhe deu emprego e quer lavar seu passado.

Sérgio Cardoso, branco, era o Pai Tomás na novela
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Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.