Sara Winter e a carência disfarçada de ideologia. Por Nathali Macedo

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Nos últimos tempos, Sara Winter tem conseguido uma porcentagem ínfima da atenção que sempre buscou.

Após declarar-se abertamente ex-feminista, tem ganhado alguns confetes por parte da mídia direitista e outras poucas problematizações em fóruns e blogs feministas. Talvez o sonho dela tenha passado a se desenhar diante de seus olhos, mas ainda assim ela é digna de piedade.

Ao que tudo indica, Sara foi nazista. Sarah Winter, a socialite inglesa que inspirou o nome artístico da “ex-feminista” brasileira, era membro da União Britânica de Fascistas.

Fiel ao personagem que criara, a Sara Winter brasileira criticava a Marcha das Vadias e dizia que mulheres não deveriam sair de casa com roupas de puta e que as feministas brasileiras só queriam notoriedade.

Um ano depois, sem êxito nas suas tentativas sucessivas de tornar-se referência no que quer que fosse, Sarah tentou outra vez: criou o Femen Brasil, uma cópia mal feita do Femen Ucrânia — que é um grupo que sequer se assume como feminista e que, segundo o que se descobriu depois, foi criado por um homem — e passou a fazer protestos nas ruas.

Sobre o Femen Brasil convém que façamos um parêntese necessário: trata-se de um grupo que jamais foi aceito pelas feministas (nem as brasileiras, nem as ucranianas, nem as de nenhum outro canto do mundo) por não contemplar ideias libertários, por procurar exaustivamente chamar a atenção da grande mídia e principalmente por compactuar com uma ideologia fascista e sexista. Por isso, e também pela história do Femen Ucrânia, já conhecida pelas feministas brasileiras, nem o Femen Brasil e nem a sua criadora foram aceitos no país.

O grupo continuou a fazer protestos em nome do feminismo, mas, curiosamente, sem o apoio das feministas. Suas bandeiras não nos contemplavam.

Sara viu-se perdida no limbo terrível entre sua decisão de abandonar o nazismo e a não-aceitação da sua pseudo-ideologia pelos grupos feministas brasileiros. Toda a sua imensa vontade de ser vista como defensora de algum ideal, qualquer que fosse, estava condenada à frustração.

E quanto a esta não-aceitação de Sara Winter — ex-nazista e agora ex-feminista — nos grupos feministas, convém que façamos outro parêntese: o feminismo não rechaça mulheres. Sara Winter não foi limada, foi a sua pseudo-ideologia do espetáculo, que não contempla o verdadeiro feminismo.

Sara precisava de um pouco de atenção, mas jamais a conseguiu nos grupos nos quais tentou se infiltrar. O fato é que Sara Winter nunca teve uma causa: nem a nazista, nem a feminista. O que sempre a moveu foi o desejo de liderar algo, de propagar algo, de preencher-se com qualquer coisa que a tornasse admirável ou, no mínimo, notável. Com o nazismo não deu. Com o feminismo também não. Como disse Lola, do Escreva, Lola, escreva, feministas não ganham confetes, ganham ameaças.

Sara percebeu isso, e sua grande ideia para chamar a atenção do país inteiro de uma vez por todas foi tornar-se uma “ex-feminista”. Acontece que não se pode sair de um movimento no qual não se tenha entrado, e Sara, assim como o grupo Femen, jamais foi contemplada pelo feminismo brasileiro. Ela jamais nos conheceu porque não era esse o seu interesse: ela estava mais interessada em criar um grupo pseudofeminista com ideias fascistas e chamar a atenção da grande mídia, deturpando o movimento feminista pacífico que se tem construído no Brasil.

Hoje, endossada por ídolos da direita como Bolsonaro, Olavo de Carvalho e Marisa Lobo — psicóloga cristã que pregou a “cura gay” –, ela profere absurdos sobre o movimento do qual jamais fez parte.

Sara Winter é a prova irrefutável de que a carência disfarçada de ideologia não é só patética: ela pode ser também nociva e doentia.