Sobre Negrini, Susan Sarandon e o direito feminino de ser sexy em qualquer idade. Por Nathalí Macedo

Susan Sarandon em Rocky Horror Show: sempre sexy
Susan Sarandon em Rocky Horror Show: sempre sexy

Alessandra Negrini chegou muito bem aos 45. Maravilhosa, inegavelmente. Nenhum problema em admirar a forma física perfeita e as pernas torneadas, mas, entre um elogio e outro, é saudável que nos perguntemos:

Sem o corpo magro e a aparência jovial, ela poderia usar uma fantasia de noiva sexy sem ser julgada pela aparência?

Receio que a resposta seja não. Às mulheres não se permite envelhecer com dignidade.

Susan Sarandon, por exemplo, foi alvo de críticas no Twitter após exibir um decote – não tão generoso, aliás – durante a premiação do sindicato dos atores (SAG).

Além de outros tuítes dignos de vergonha alheia, Karen Salkin escreveu:

“Ninguém quer ver seu decote de velha! Cubra isso!”

A protagonista do icônico Thelma e Louise (1991), em resposta, limitou-se ao pedido: “Por favor, parem de discutir se eu envelheci bem.”

Toda essa ditadura da juventude é de uma futilidade estúpida.

Primeiro porque parte, mais uma vez, do princípio de que mulheres funcionam como objetos de decoração, bibelôs sempre prontos para agradar aos olhos de quem quer que seja.

E o desejo que cada uma de nós tem – ou não – de cultuar a sensualidade em qualquer idade e em qualquer forma física? E o direito que uma atriz de meia idade tem de ir à praia, usar biquíni, decotes ou fantasias de noivinha sexy, estando ou não em “boa forma”? (Boa pra quem, aliás?)

Para os homens, envelhecer é inegavelmente mais fácil: Primeiro, o jovem Dom Juan; Depois, o galã charmoso e grisalho – quem criticaria Richard Gere por ser clicado em traje de banho, por exemplo?

Por outro lado, a ideia de que a beleza passa tão somente pelo corpo é rude, insensível, arcaica.

A beleza que Susan representa jamais pode ser substituída por um corpo fabricado numa academia. É a beleza de quem cuida de si mesma, despreza futilidades e mantém um caso de amor com a vida – a julgar pela elegância que lhe escapa pelos poros.

O fato é que a beleza – seja de Susan, de Negrini, a minha ou de quem quer que seja – não está limitada a um corpo-padrão ou a um rosto que pareça jovem. Enxergar numa mulher tão somente um par de peitos sob um decote ou coxas torneadas numa fantasia sexy é lamentável.

A beleza mora nos detalhes, no cuidado consigo mesma, na elegância, no que não se pode necessariamente determinar.

Afora isso, não nos cabe “determinar” a beleza de quem quer que seja. Decotes ou corpos femininos não foram feitos para o nosso deleite. A beleza é muito sobre a liberdade pra ser exatamente quem se é – essa liberdade pertence a Negrini, a Susan e a todas nós.

Parem de colocar o corpo feminino sob holofotes – seja ele jovem, velho, magro, gordo, torneado ou caído – para que Negrinis e Sarandons sejam tão sexy quanto qualquer mulher pode ser.