A surra moral de Monica Iozzi em Gilmar Mendes. Por Nathalí Macedo

 

A atriz e apresentadora Monica Iozzi – tida como esquerdopata comuna pela direita conservadora, só pra contextualizar – foi processada pelo ministro Gilmar Mendes ao tentar exercer sua liberdade de expressão (liberdade de expressão é minha lenda urbana preferida).

Ela foi condenada ao pagamento de uma indenização de aproximadamente 30 mil reais por postar no Facebook sua indignação diante do habeas corpus concedido por Gilmar ao médico Roger Abdelmassih, acusado de mais de 200 estupros e abusos em seu consultório a pacientes dopadas que buscavam tratamento para esterilidade.

Se você é mulher e consegue não se indignar com isso, há algo de errado com seu senso de empatia. O HC, inclusive – desgraça pouca é bobagem – foi na mesma época do estupro coletivo no Rio de Janeiro, tornando ainda mais compreensível a indignação de Mônica como mulher brasileira.

Aparentemente, mulheres que ousam se indignar no Brasil são sempre punidas de alguma maneira. Só o nosso silêncio é permitido.

Ao ser questionada sobre o ocorrido no Programa Conversa com Bial, ela ri da própria desgraça – ai de quem não sabe rir de si mesma – e diz que só pode falar sobre Gilmar Mendes se a plateia ajudar com um dinheirinho para a indenização.

Plenitude tem nome e um sobrenome curtinho, né?

O tom irritantemente sugestivo de Bial, entretanto – apresentadores globais, como lidar? – tratava de refazer o gelo que Mônica, cheia de bom humor, quebrava.

Ela falou, com algum peso, sobre sua indignação:  “Eu, como mulher, aquilo me indignou de uma tal maneira…” “Aí você não se conteve?”, ele perguntou, em um inconfundível tom de condenação.

Eu sei porque é o mesmo tom que alguns dos meus “amigos” homens começaram a usar comigo quando comecei a expressar minhas opiniões, me indignar contra a opressão e usar a minha boca pra mudar as coisas, em vez de usá-la apenas para fazer com que eles rissem.

Toda mulher escuta um “então você não se conteve?” em um tom de condenação quando decide se comportar como um ser humano com princípios e convicções.

Então, não, Bial, a gente não se contem e é isso aí mesmo. Lide.

Em mais um tapa com luvas de veludo, a atriz contou que não fez e não faria nenhum acordo com Gilmar: “Eu vendo meu apartamento mas não faço acordo com esse homem, porque não é justo, eu não falei nada de errado!”

Mesmo perdendo, Iozzi ganhou, quando manteve sua dignidade e, de quebra, continuou a alimentar a repercussão negativa do ocorrido – que continue a alimentar por quanto tempo for possível, porque é isso, no mínimo, que o Ministro merece.

O acordo proposto por Gilmar, aliás, envolvia uma retratação pública de Monica – ah, o delírio masculino! – e o pagamento de quinze mil reais em cestas básicas.

A fundamentação da sentença condenatória estava embasada na suposta necessidade de Mônica, como pessoa pública, usar a liberdade de expressão com responsabilidade.

Meus ovários.

“A palavra liberdade já não deixa claro o suficiente que você é LIVRE pra dizer o que você quer?”, perguntou, no programa, perplexa. Pra mim deixa claro como água, querida.

Monica excluiu suas contas nas redes sociais porque a maldade internética, disse ela, a estava atingindo de um jeito não saudável.

E algo me diz que a maldade internética tem atingido a todos nós de um jeito não saudável. Estamos juntas, Monica.