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Um cinema marcado para morrer: por que o Estação Botafogo não pode fechar

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Postado em 12 Mar 2014
por : Marcos Nunes
Comments: 7

 

estação botafogo

 

Sou apenas um dos frequentadores do Estação Botafogo. Desde que o velho cinema “poeira”, que ficava no fim da galeria onde partilhava espaço com lojinhas que trocavam de donos e ocupações, desde que o bar da entrada ainda era uma pizzaria furreca onde o Gimenez, hoje funcionário do Estação, atendia todo mundo com aquele jeito simpático e aturdido dele, enfim, desde que o velho cinema foi adquirido (arrendado, talvez?) por um bando de loucos não corintianos resolveram que ali cabia um cinema de arte, isso em 1985, mais um daqueles anos que não deixaram nenhuma saudade.

Como eram ruins as instalações! O som, as cadeiras duras, o cheiro de mofo, a entrada tosca! E quanto maior era o entusiasmo da turma, com aquele espírito cineclubista, sempre criando mostras malucas com filmes esquisitos, carregados naquelas latas velhas cheias de etiquetas coladas, tudo tão empoeirado que dava para ficar com pena do projecionista, fosse lá quem tivesse tal função naquele lugar que não parecia mais destinado a ser uma sala de cinema, mas um estacionamento…

Não me lembro agora com que nome o negócio foi tocado nos primeiros tempos. Nem se havia algum patrocínio, oficial ou oficioso – por algum tempo, o extinto Banco Nacional deu nome à sala e a uma primeira mostra de cinema, mas isso durou pouco.

Sei que frequentávamos o lugar, víamos aqueles filmes europeus aos montes, saímos para encher a cara de cerveja barata com pizza ruim no boteco da esquina, e discutíamos os filmes, paquerávamos, esperávamos o tempo passar, a tarde cair, a noite virar madrugada, quando, aliás haviam mostras malucas de filmes nunca adivinhados.

Até que um dia, sei lá quando, a coisa se profissionalizou. As lojinhas da galeria (nem me lembro o que havia ali; talvez oficinas de costura, sapateiros…) em breve se transformaram em mais duas salinhas de cinema, veio o nome Estação, o patrocínio do Unibanco, que depois migrou com uma cisão… bem, não vamos falar da cisão.

Vieram os festivais com maior cobertura, os filmes do Oriente Médio, alguns mexicanos, outros da logo extinta e assim denominada Cortina de Ferro. E o cinema mais adiante se transformando em mais três salas da rede.

Quantas pessoas conhecemos nesses cinemas, e que ainda hoje circulam pelas salas, sempre atentos às novidades, sempre carentes de clássicos, e críticos das últimas grandes coisas que logo se revelam grandes sim, mas geralmente grandes fiascos.

Quantos filmes não vi a partir da inauguração do Vídeo Clube, ao qual logo me associei, podendo acrescentar às possibilidades das mostras clássicos sem disponibilidade em celuloide…

Sabia que, há anos, havia problemas financeiros. Que, desde a primeira cisão, as coisas claudicavam, ainda mais com a transferência do patrocinador máster, como hoje se diz na gíria futebolística, migrou de um do Estação para o atual Arteplex, na Praia de Botafogo. Para piorar, em 2007, o Festival do Rio, que contava entre seus patrocinadores a Prefeitura do Rio, desistiu do evento a 20 dias de seu início. Um prejuízo de 3 milhões.

A partir daí as coisas degringolaram. Vi algumas coisas mixarem, como a livraria, depois, recentemente, o Vídeo Estação. Em seguida, o cinema no Paço Imperial, o Paissandu… Era o caminho de volta.

Vejo, hoje, a dificuldade com a manutenção dos equipamentos, com destaque ao ar condicionado, que se transformou um suplício em todas as salas, ora com quebras em uma, noutra, em mais de uma, e em quase todas elas funcionando a baixa potência.

Acabo de ler, então, a notícia de que o Estação periga fechar. Periga muito.

É como ver minha juventude, e os longos anos que passei até a maturidade naquelas salas, sendo lacrada numa cova, comprimida por toneladas de dívidas, transformada em um cadáver zumbi a vagar pelos shoppings centers da vida em busca de algum filme decente para ver… sem encontrar nada!

Antevejo o dia em que, saindo do metrô, procurarei pelas salas acima e abaixo da Voluntários,  mas enxergarei somente tapumes lacrando os prédios, ausentes os cartazes e os letreiros anunciando as atrações das salas 1, 2 e 3, ou a mentira contumaz que anuncia que os cinemas estão “Fechados Para Obras”, o que bem pode anunciar a ocupação dos locais pelas igrejas evangélicas.

Não vai adiantar a inspiração divina, logo fazer romarias em frente aos cinemas e pedir pela salvação deles ao grande deus dinheiro, ó única entidade capaz de mitigar todas as dores e enviar todos os sinais, em reais, mas quem sabe em dólares ou euros, ou mesmo yuans, capazes de reverter as más decisões administrativas e levar as judiciais a cumprir as promessas de eternidade, sem as quais, ao que parece, ninguém vive os poucos dias que são possíveis a cada um de nós.

Só podemos aguardar, assim, que um capitalista, eivado do mais puro espírito artístico, converta sua fortuna em milagre financeiro, e impeça a entrada daqueles que, sem solução, aparecerão com seus mandados judiciais para lacrar os estabelecimentos, transformando milhares de criaturas vivas em fantasmas de saudade e vencidos da vida, seguidores contemporâneos, mas sem o talento, de Eça de Queiroz.

Fica, no entanto, a sugestão de, ao menos, promover uma orgia cinematográfica final, última tentativa de demonstrar vigor e tentar, assim, cativar essas imaginações aficionadas apenas pelo dinheiro. Uma grande festa cinematográfica, com a união de cineastas nacionais e estrangeiros, chamando a atenção do mundo para Botafogo, que tem a ver não só com o destino do bairro, da cidade ou do país, mas da arte enquanto capaz de, através da criação, multiplicar o entendimento e, nele, a vida.

Bem, esse último parágrafo, piegas, merece um desconto. Pago meia.

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Sobre o Autor
Marcos Nunes é romancista, poeta e ensaísta, carioca de nascimento, porém de dupla nacionalidade (sua pretensão é voltar, no fim da vida, à Vila Nova de Gaia).
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