Ziraldo e a prova de que a filosofia do “ame-o ou deixe-o” é o triunfo da estupidez

"Não tem de aplaudir!"

“Não tem de aplaudir!”

O escritor Luiz Rufatto prestou um serviço à imagem do Brasil que anos de propaganda oficial não foram capazes de realizar.

Ao fazer um discurso brutal e fora do protocolo na cerimônia de abertura da Feira do Livro de Frankfurt, ele matou a possibilidade de que o oba-oba triunfasse. A cacetada de Rufatto abriu caminho para outros escritores mostrarem um quadro do Brasil que não deveria caber numa feira internacional. Mas a sinceridade acabou se mostrando muito mais efetiva do que se a comitiva estivesse em ritmo de time olímpico da Alemanha Oriental dos anos 70, em que só boas notícias poderiam ser veiculadas.

No encerramento, Paulo Lins, o negro do grupo, afirmou que o Brasil é racista, “como todos os países da Europa”. “A verdade tem que ser dita e encarada para alcançarmos mudanças substanciais na sociedade brasileira tão sofrida, tão marcada pela violência e pelas injustiças sociais. Por isso, deixo sem comentários a palavra do nosso vice-presidente e aviso que a poesia é uma coisa séria. Ela não se dá com qualquer um.”

Daniel Munduruku, o único indígena entre os 70 autores, deu um diagnóstico da situação dos índios. “Se houve muitos avanços no governo Lula, mais aberto ao diálogo, hoje retrocedemos. Nosso interesse é sobretudo em participar das decisões no que diz respeito às barragens hidrelétricas, que já estão acontecendo sem conversa”, disse.

Sem querer, gente como o cartunista Ziraldo ficou 200, 300 anos mais velha. Sua atitude — ele gritava “que se mude do Brasil, então!” para Ruffato — ecoava o “ame-o ou deixe-o” da ditadura. Ziraldo acabou passando mal depois. Fez um cateterismo na Alemanha. Ziraldo, de alguma maneira, é o retrato acabado de um tipo de artista se dá bem em qualquer situação. “Que se mude, então!”, ele gritava.

Marta Suplicy declarou que aquele não era lugar para “sociologia”. A conversa fica muito estúpida se você a reduz a esse tipo de dicotomia. Ao falar do país desta maneira crua num trem da alegria, Rufatto e seus amigos abriram um precedente interessante. O Brasil virou notícia e não pelos motivos de sempre. Um dia, quem sabe, os gringos pensarão que não temos só samba, futebol e cachaça.

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Literatura

Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
  • sofia silva

    mesmo assim não gosto quando falam mal do Brasil.

  • Claudio Almeida

    Concordo que o ufanismo é uma estupidez, mas, democraticamente, gostaria de ressaltar que o homem que deixa pra lavar roupa suja na casa dos outros ou diante de convidados, não merece nem ser chamado de homem. Isso é falta de educação misturado com favelismo mental. Está revoltado ? Vem pra cá que nós ajudamos a” quebrar o pau “. Agora, protagonizar chilique no exterior e depois colher os frutos da fama, pra mim é papel de moleque. Fez pior do que os ufanistas, deu uma de barraqueira de cortiço. ROUPA SUJA SE LAVA EM CASA, já ensinava a vovó. Como alguém pode ignorar um conceito tão simples quanto correto ?

  • betão

    Ame ou deixe-o os milicos falaram de deixaram o brasil ruim…FHC foi eleito como a melhor opção para agradar os conservadores e a elite e maioria dos pobres como um possibilidade razoável….o FHC que vetou o plano nacional de educação aprovado pelo congresso….engraçado tudo que FHC vetava tava vetado Lula e Dilma, nunca na história deste país nunca teve dois presidentes com tantos vetos derrubados…e olha que o vetos destes últimos era contra coisas lesivas a pátria…Eu jamais deixaria o Brasil tenho a obrigação de deixar claro que aqueles que querem perpetuar esse sistema hediondo de desigualdades sociais…jamais irão me cooptar e me fazer mudar de ideia…morrerei batendo na mesma tecla….o povo brasileiro precisa que educação pública com a qualidade da finlandesa…e não aquela abominável falácia do folhetim veja, de que só os “melhores alunos” merecem uma chance… de ganhar uma esmola que é uma bolsa de estudo em um particular de “1º linha” que só se preocupa em formar gabaritadores de vestibular…e que como pessoas são arrogantes e patéticos…

  • Lulu Chan

    o discurso do Ruffato é o mesmo há anos, inclusive na literatura que ele produz. ele, em hipótese alguma, mudou o discurso “para gringo ver”. o que está acontecendo é que ninguém conhecia ele porque existe um desconhecimento geral da literatura nacional. por isso tamanho espanto.

  • Lulu Chan

    sim, ale, ele tem o mesmo discurso há anos. inclusive sempre dá opinião parecida em qualquer mesa de debates. o mesmo tom e contorno do discurso está tb em sua literatura. se as pessoas conhecessem e entendessem o que ele falou, com quem ele dialogou e sobre o que exatamente ele falou não estariam fazendo estes comentários infantis e sem pé nem cabeça.

    • Claudio Almeida

      Respeito sua opinião,mas, sinceramente, também achei o seu comentário absurdamente infantil, sem pé nem cabeça. Eu não comentei o conteúdo das palavras dele, apenas o chamei de SEM EDUCAÇÃO, nada mais. Baixa a bola Lulu, baixa. Um abraço.

      • Lulu Chan

        o que é mais infantil do que achar que um discurso feito na abertura de uma feira de livros, onde o público era formado por intelectuais, jornalistas, professores e pessoas ligadas à literatura, deveria ser ufanista e escrito em tinta cor-de-rosa? sem educação seria se ele mostrasse ignorar as mazelas do país e ainda jogasse a sua produção no lixo, mostrando uma desfaçatez absurda pela função que lhe fora dada. por que você acha que ele foi escolhido? nada foi a esmo.
        desculpe, mas não vou mudar o tom das minhas críticas para agradar a você. não vou “baixar bola” nenhuma para ser aceita. sorry!
        P.S. se vc achou meu comentário sem pé nem cabeça é porque não entendeu, eu posso explicar, é só pedir.

        • http://marciosarge.blogspot.com.br/ Marcio Sarge

          O ponto alto foi o que disse Lulu sobre a “função que lhe foi concedida”. Isso não só no aspecto da escolha como orador mas da função mesmo de escritor que é agente do saber e como tal tem função, ainda que muitos não entendam, de descortinar aquilos que muitos não veem, seja isso bom ou ruim.
          Um escritor não pode se prestar ao papel de animador de palco tem que fazer aquilo pra que nasceu, encantar e incomodar.

          • Lulu Chan

            com certeza, as pessoas não entendem que ele é muito conhecido na Europa. já recebeu prêmios na Alemanha, na França, tem livros publicados em diversas línguas, tinha acabado de voltar da mesmíssima Alemanha onde tinha ido dar aula como convidado em um uni. ou seja, ele é tem uma obra conhecida.
            sem contar que ele sempre foi extremamente crítico em qualquer entrevista, debate, seminário que apareceu. sobre o discurso, há uma falta de compreensão mesmo, profunda. confundem como ele começa, não entendem que ele dialoga com outros autores, que aproveita para responder às críticas sobre a escolha dos participantes e, inclusive cutucar os europeus falando da alteridade.
            acho engraçado que tem um monte de gente que não entende de literatura, do mercado editorial – deste eu tb não entendo – do que está em jogo e fica dando palpites como se entendesse ou como se estivesse falando de um jogo de futebol.
            primeiro falavam da escolha dos autores sem conhece-los, e sem entender que toda lista é excludente.
            depois o alvo da vez foi o discurso do Ruffato sem entender, como vc mesmo disse, que existe uma questão de enunciado e enunciação séria. e, acima de tudo, como você mesmo apomtou, a função maior do escritor é reproduzir, interpretar e/ou recriar o mundo a fim de que tenhamos uma compreensão melhor dele. Márcio, cansei. já tinha decidido sair desse debate, mas me irrita ver o nome do Ruffato ser associado a oportunismo e outros adjetivos que não cabem na personalidade dele. abs

  • Claudio Almeida

    Respeito sua opinião, apesar de achá-la confinada entre o 8 ou 80. Entretanto, respeito a minha também e não altero uma vírgula : “Roupa suja se lava em casa ” e ponto final. Qualquer coisa fora disso é inegociável. Não entro no mérito do conteúdo. Se ele está certo ou errado, já é outro assunto. Mesmo porque o que ele disse é apenas sua opinião pessoal, assim como a minha e a sua. Ou será que agora quem sabe de tudo mesmo é Luiz Ruffato ? De repente, ele pode ter razão, mas não tem educação. De qualquer forma, deve estar comemorando a repercussão até agora. Era o que queria, o Brasil foi apenas a ferramenta. Um abraço. E não esqueça : se viajou na mordomia, com o dinheiro do Brasil ( o que eu não tenho certeza ), aí é palhaçada.

  • Pedro Mello

    Dá prá perceber que o “ame-o ou deixe-o ” não é exclusivo da ditadura militar.
    E justiça seja feita, esse lema a nossa direita não usa.

  • Marcelo Samsa

    Belo texto, Kiko. Não é à toa que o brado de insatisfação veio de pessoas como Ruffato, Lins e Munduruku. São homens que vieram de famílias excluídas e que hoje tem ampla consciência do quanto seus direitos lhes são negados. Os delicados que ficaram ofendidos com a lavada de roupa suja em casa alheia, esqueçam por um momento a falta de etiqueta e prestem atenção nas palavras dos excluídos, porque elas estão dizendo, me desculpem a grosseria, que o saco encheu.

    • kikonogueira

      Brigado, Marcelo. Abraço.

  • Lila

    Não adianta, quanto mais a pessoa se pretende vanguardista, mais parecida ao seu tempo ela é.

    Ziraldo é mais um dos que admiro como artista, mas que tenho reservas enquanto pessoa.

    • Marcelo Samsa

      Também acho a transcendência um mito.

    • Pedro Mello

      Complementando , Lila, como disse o Jô Soares, não dá para ficar cobrando coerência de um artista.

  • http://marciosarge.blogspot.com.br/ Marcio Sarge

    Não vejo assim. O fato de ele ter usado os holofotes de um evento internacional repercutiu aqui dentro de tal forma que acredito que foi mais eficiente, se tivesse usando uma coluna de jornal, revista ou mesmo dado um entrevista pra algum jornalista o efeito não teria sido o mesmo, teria sido lido e esquecido e as verdades brutais que ele jogou na mesa não teria sido digeridas.
    Falar mal do Brasil? Também discordo. Quem fala mal do Brasil são políticos de direita que ao invés de vender nosso mercado prefere fazer politica e degrada-lo de olho em uma eleição. O que ele fez foi discutir problemas que nos fazemos surdos ou já nos acostumamos

    • andrekenji

      O problema começa aí. Frankfurt não é um evento internacional em si, é uma feira comercial para editores no qual os brasileiros dão atenção excessiva. Inclusive porque nos tempos do e-book acordos com editoras são bem enos relevantes que no passado.

      • http://marciosarge.blogspot.com.br/ Marcio Sarge

        Se os brasileiros dão atenção excessiva então foi mais que acertado o discurso.

        • andrekenji

          Não, o problema não é o discurso. O problema são as multidões virtuais que acham que um discurso feito numa feira comercial voltada para editores na Alemanha é um exame profundo e exato da alma brasileira. Feira comercial que é justamente voltada para o oba-oba.

  • Gilson Garcia

    Interessante. Pessoas com uma visão crítica da situação nacional não tem meios de expressar suas idéias. Precisaram aproveitar uma feira internacional pra serem ouvidos.
    Falem, falem muito Ruffato, Lins, Munduruku, e todos que apontam o caminho. Precisamos de suas vozes. Tragam esse debate para o grande público para crescermos como sociedade e como país.
    Fica o alerta para Ziraldos, Suplicys e para a própria Dilma.
    Que se ouça a voz das pessoas que apontam o caminho da direção onde deve haver os avanços.

  • andrekenji

    Exatamente.

  • Lulu Chan

    eu não me lembro de ter respondido à você e sim ao Ale. quem, a rigor, se meteu no meu comentário foi você. portanto…

  • kikonogueira

    Valeu, Bozo. Abraço!

  • Claudio Almeida

    Parceiro, você foi educado e democrático pra discordar. Você contestou, mas foi cordial. Então, pela última vez vou te responder. Fico perplexo com o fato de você não entender que continuo sem relevar o conteúdo do que foi falado. Não entrei nesse mérito,mesmo porque, sinceramente, não considero a opinião dele tão fundamental assim pra que nós e mundo conheçamos as mazelas brasileiras. Condeno a grosseria e o oportunismo. Pela enésima vez : ele pode até estar certo, mas fez papel feio. Lamento que você não reconheça isso. Mas valeu, pela discordância respeitosa e não arrogante.

  • Luis Fraga

    Ora Kiko vá te catar, ou vá catar coquinhos
    Conheço o Ziraldo desde 1974, quando comecei a ler o Pasquim. Tempos difíceis, porém Ziraldo e toda a turma do Pasquim estava lá, formando consciência crítica em garotos como eu que mal sabia que vivíamos em uma ditadura militar rídicula e criminosa.
    Sem contar toda sua obra artística que é genuinamente brasileira e nos enche de orgulho. Gosto muito do DCM, mas até o começo deste ano nunca tinha ouvido falar em Kiko Nogueira.
    Você vai enveredar agora por este caminho fácil de sentar-se detrás da mesa e “bater’ num velhinho por discordar de sua opinião?

    “retrato acabado de um tipo de artista se dá bem em qualquer situação” é no mínimo um desrespeito ao Ziraldo e ao que ele representa.
    E, cá pra nós, por mais que seja importante trazer `a uma discussão mais ampla os problemas brasileiros, que aliás são muitos, não falta espaço pra essa crítica ser feita “aqui em casa”. O resto é de um oportunismo barato.
    Já deu esse costume de aproveitar holofotes internacionais pra “analisar as agruras nacionais”.

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