A encomenda de Raimundo Pereira. Por Moisés Mendes

Atualizado em 3 de maio de 2026 às 20:14
Raimundo Pereira. Imagem: reprodução

Raimundo Pereira fez o que ninguém mais poderá fazer no jornalismo, por equivalência ou semelhança. Trabalhou na Realidade, na Veja, na Folha, no Opinião, no Movimento e criou a revista-enciclopédia Retrato do Brasil, que em algum momento também foi jornal. Morreu nesse sábado aos 85 anos.

Na metade dos anos 80, Raimundo apareceu no Rio Grande do Sul atrás do que seria sua nova obsessão: entender a gênese e os dilemas do cooperativismo gaúcho e em especial a crise da Centralsul, a central de cooperativas do Estado.

Foi quando o encontrei pela primeira vez em Ijuí. Raimundo conversava com todo mundo. Queria saber como as cooperativas estavam quebrando e se encantava com a história de organizações que se fortaleceram, a partir dos anos 60, em meio a articulações que envolviam os comunistas.

Raimundo não estava atrás de teorias, mas de História. Foi quando ouvi dele o seguinte. Havia muita coisa contada do cooperativismo pela voz de pesquisadores (e havia mesmo muito), mas pouca coisa saída da pena do jornalismo.

Raimundo me encomendou: escreva uma breve história desse cooperativismo, mas não caia na armadilha de contar com a linguagem dos cientistas. Eu lhe pago.

Eu era repórter do Cotrijornal, editado pela Cotrijuí, e conhecia mais ou menos aquela realidade que levou à agricultura intensiva e ao cooperativismo empresarial. Raimundo conversava com dirigentes de cooperativas, líderes sindicais, estudiosos da área. E com a equipe do jornal, a editora Christina Brentano, Dária Lucchese e eu.

Depois de muitas conversas no Estado (ele andou por toda parte) e em especial com Jarbas Pires Machado, presidente da Fecotrigo, dedicou-se a uma empreitada com repercussão nacional: denunciar que as cooperativas estavam sendo saqueadas pelo Bank of America, o Bofa, pagando dívidas que já haviam sido pagas.

Parte das dívidas foi depois anulada por decisão da Justiça, após batalha histórica levada adiante pelos advogados Roberto Davis e Fábio Gomes.

Foi nesse ambiente que fiz a minha parte atendendo a encomenda de Raimundo, de quem me lembro do sotaque pernambucano forte, da voz baixa e de uma figura frágil que era a síntese de uma cabeça urbana brilhante, mas num corpo que parecia rural, quase agreste.

Num verão de 1984 ou 85, enviei a ele o texto, escrito com a ajuda de pesquisas da professora Elza Falkembach, da Universidade de Ijuí, que ainda se chamava Fidene, e recebi a seguinte informação: será pago em fevereiro.

Tirei férias, fui com a família para Capão da Canoa, certo de que iria receber um extra por conta de um frila para aquele que era um dos maiores jornalistas brasileiros.

No meio das férias, liguei para São Paulo, de onde sairia o dinheiro, e fui informado: há uma ordem de pagamento para você em tal banco (que não lembro qual era). Saí de Capão de ônibus, vim a Porto Alegre e fui informado no balcão da agência, na Uruguai, de que havia um problema. A ordem era para Ijuí, não para Porto Alegre.

Quando estava desistindo, o funcionário voltou e me disse: um gerente autorizou a liberação do dinheiro. Não sei como e não perguntei. E aí descobri o seguinte: Raimundo havia me prometido algo como o equivalente a uns R$ 8 mil hoje. E pagou quase o dobro.

Peguei dinheiro vivo, que o caixa enfiou num envelopão e enfiei o pacote numa bolsa de couro. Voltei para Capão de ônibus, com o dinheiro no colo. Foram as férias da fartura.

Voltamos a nos ver depois em Porto Alegre, no final dos anos 80, quando ele ia e vinha em contatos com Centralsul e Fecotrigo. Em 1986, publicou o livro ‘Cooperativismo e as Lutas Sociais’.

Eu posso dizer: eu fiz um frila para Raimundo Pereira, que com 40 anos já havia tido 10 vidas combatendo a ditadura nas mais importantes e nas mais bravas redações do país.

Mas não sei até hoje onde ele publicou meu texto. Pode ter sido nesse livro, que nunca vi.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/