
Imagens enviadas ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná (APP-Sindicato) mostram alunos cantando músicas que fazem apologia às execuções policiais, reacendendo o debate sobre militarização escolar no estado. No vídeo, feito em Curitiba, estudantes marcham na quadra enquanto repetem versos que mencionam operações policiais em favelas.
“Homem de preto o que você faz? Eu faço coisa que assusta o Satanás. Homem de preto, qual é sua missão? Entrar na favela e deixar corpo no chão”, diz o trecho que ficou famoso no filme “Tropa de Elite”.
As imagens, registradas sob supervisão de um militar aposentado, foram classificadas pelo sindicato como evidência de doutrinação e violação de direitos. “Absurdos como esse do vídeo não são casos isolados. Desde o início deste programa, temos recebido e denunciado ocorrências semelhantes e até piores”, afirmou a presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto.
Ela diz que a escola pública “está sendo usada para promover uma doutrinação ideológica extremista” e defende que o Judiciário determine o fim do programa criado pela gestão de extrema-direita do governador Ratinho Jr (PSD).
“O Bope tem guerreiros que matam fogueteiros. Com a faca entre os dentes, esfola eles inteiros. Mata, esfola, usando sempre o seu fuzil”, diz outro trecho das canções.
‘Entrar na favela e deixar corpo no chão’:
Um colégio cívico-militar de Curitiba está obrigando alunos a cantar música que faz apologia ao ódio e à violência contra a favela.Essa é a tal ‘escola sem doutrinação’ que a direita defende? pic.twitter.com/Xjm4lwHH8s
— Lázaro Rosa 🇧🇷 (@lazarorosa25) November 29, 2025
Os dados apresentados pela APP-Sindicato foram contextualizados com o relatório Pele Alvo, da Rede de Observatórios da Segurança, que registrou 4.068 mortes decorrentes de intervenção policial em 2024, das quais 3.066 eram pessoas negras.
O levantamento aponta que 86% das vítimas com cor identificada eram negras ou pardas, e que quase 300 mortos eram adolescentes entre 12 e 17 anos.
O programa de colégios cívico-militares no Paraná começou em 2021, após consultas questionadas por comunidades escolares. Embora o governo federal tenha extinto o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares em 2023, o estado manteve 312 unidades militarizadas.
Nessas escolas, policiais militares aposentados atuam como monitores, muitas vezes exercendo funções superiores às dos profissionais da educação. Eles recebem R$ 5,5 mil mensais, valor superior ao piso de R$ 4,9 mil dos professores e ao salário de R$ 4 mil dos Agentes II, responsáveis pelo atendimento direto aos estudantes.
Os relatos de alunos reforçam o clima de insatisfação. Em reportagem da APP-Sindicato, adolescentes afirmaram que passaram a cumprir regras estéticas rígidas consideradas arbitrárias.
Um estudante relatou: “Me sinto péssimo, porque eles estão querendo mudar a personalidade das pessoas. Eles falaram que quem não tirar os piercings e os bonés vai ter que mudar de escola. O ambiente no colégio está péssimo. A gente vai para a escola estudar e aprender, mas chega lá, parece uma prisão”.
O manual das escolas cívico-militares justifica padrões de cabelo e proibição de acessórios como “aspectos educacionais relacionados com a higiene, boa aparência, sociabilidade, postura, dentre outros”. No entanto, estudantes denunciam que essas normas funcionam como instrumento de discriminação, especialmente contra jovens negros e LGBTI+.