Governo e oposição no Uruguai se unem para superar tensão com militares

Publicado em 17 março, 2019 9:16 am
Tabaré Vásquez e um comandante militar

Do El País

O esclarecimento de um caso de desaparecimento forçado durante a ditadura uruguaia (1973-1985) e um plano de reforma do Exército estão lançando novos elementos em uma inesperada crise provocada pela destituição do comandante da instituição, Guido Manini Ríos, pelo presidente Tabaré Vázquez. Em pleno ano eleitoral, o caso serve também para revelar alguns detalhes complexos da relação entre civis e militares na democracia e, particularmente, durante os Governos da esquerdista Frente Ampla (FA).

“Conseguiu-se entrar nos arquivos do Centro de Fuzileiros Navais [uruguaios] e, comparando documentos, foi possível reconstituir o percurso dos desaparecidos desde sua detenção no Uruguai até sua transferência para o Paraguai, onde foram mortos”, explica Felipe Michelini, integrante do Grupo para a Verdade e Justiça. “Assim, pudemos demonstrar a existência do Plano Condor”, que serviu para coordenar os Exércitos dos países latino-americanos com ditadura nos anos setenta e oitenta.

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A Frente Ampla se prepara agora para intensificar o trabalho de busca da verdade sobre as violações dos direitos humanos e, ao mesmo tempo, para promover uma profunda reestruturação do Exército, a fim de mudar sua doutrina. A proposta faz parte do debate interno que a complexa coalizão de esquerda está fazendo sobre seu programa para disputar as eleições presidenciais de outubro. Em dois plebiscitos, a esquerda e a FA fracassaram em sua tentativa de eliminar as leis que protegiam os militares da ditadura, o que não impediu que vários casos chegassem à Justiça (e terminassem em pesadas penas), mas falta esclarecer os 196 ou 200 casos de desaparecidos (a quantidade varia conforme as fontes).

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Apesar do clima eleitoral, todos os líderes de oposição apoiaram a decisão do presidente Tabaré Vázquez de destituir o chefe do Exército. Manini Ríos tinha criticado a Justiça, acusando-a de parcialidade na condenação de vários repressores. O pré-candidato da principal sigla da oposição, o Partido Nacional (centro-direita), Luis Lacalle Pou, assinalou que “a destituição do comandante em chefe é uma atribuição institucional do presidente”, sem fazer mais comentários.

Jorge Larrañaga, também pré-candidato do Partido Nacional, declarou que “Manini Ríos cruzou uma linha que não devia”, embora tenha criticado o Governo pela forma como lidou com suas divergências com o militar. O ex-presidente Julio María Sanguinetti, pré-candidato do Partido Colorado, assinalou: “O comandante Manini anunciou que levaria certas colocações ao presidente. Evidentemente, eles não se entenderam e o presidente, no exercício de suas capacidades, substituiu-o. O caso é esse, sem mais nem menos. É de interesse que sejam conhecidos os termos de sua discrepância”.

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PS: Os militares brasileiros que organizaram o plano que levou Bolsonaro à presidência, chamado de “Nova Democracia”, contou, em entrevista a um jornalista argentino, que estavam estimulando generais uruguaios a tentarem algo equivalente em seu país. Não falam em golpe por armas, mas em participação na política para chegar ao governo.

Para saber mais, leia reportagem sobre a “Nova Democracia”.