
Uma declaração recente do presidente da Quaest, Felipe Nunes, ao Estadão escancarou uma contradição difícil de ignorar: até onde o CEO de um instituto de pesquisa pode ir para agradar a mídia, aparecer e faturar. Vale até desmentir seu próprio estudo.
“Quando o governo propõe regulação, jornada de trabalho e carteira assinada como conquistas, está falando para um eleitor que cada vez mais existe em menor proporção — e deixando de falar com uma multidão”, disse ele.
Levantamento da Quaest divulgado em dezembro indica que 72% dos entrevistados são favoráveis ao fim da escala 6×1. A pesquisa também mostra que 81% apoiam a gratuidade no transporte por ônibus e que 55% defendem maior tributação sobre bancos, bilionários e casas de apostas.
O Instituto Real Time Big Data trouxe resultado similar na terça (5): apoio de 71% dos brasileiros. Outros 26% desaprovam a mudança, enquanto 6% das pessoas não sabem responder.
O problema é evidente: se 7 em cada 10 brasileiros apoiam a medida, tratá-la como algo restrito a uma minoria parece brigar com os números. Ou não?
O episódio levanta uma questão recorrente no debate público brasileiro: até que ponto analistas e dirigentes de institutos conseguem separar leitura técnica de dados de posicionamento político ou interpretação pessoal?
Quando essa fronteira se embaralha, o risco é comprometer a credibilidade. Não necessariamente dos dados que vendem, mas da narrativa construída a partir deles.
Institutos como a Quaest ganharam protagonismo nos últimos anos justamente por oferecerem leituras detalhadas do humor do eleitorado. Isso rende manchetes e dinheiro para eles, seus investidores, o chamado mercado e a imprensa que gera cliques.
Falta um código de conduta. Qual o sentido de Nunes aparecer na GloboNews falando das próprias pesquisas, feitas sob encomenda para gerar crises artificiais? Deu um pitaco furadíssimo recentemente a respeito de uma chapa Ratinho-Zema. De acordo com uma newsletter do Globo, Nunes era “um dos maiores entusiastas” da ideia.
A crítica não é apenas a respeito a opinião de um homem que vive da tese da “polarização”, mas sobre a coerência entre o que os dados mostram e o que se afirma publicamente. Em um ambiente já marcado por desconfiança em relação a pesquisas, esse tipo de desalinhamento cobra um preço alto.