Magazine Luiza fará programa de trainee para negros e Havan para gado. Por Nathalí 

Programa de trainee da Magazine Luiza

Vivi pra ver progressistas defenderem publicamente – e com total razão – uma grande empresa, precisamente a Magazine Luiza, que tem sido assunto depois de anunciar um programa trainee voltado para pessoas negras, com objetivo de consolidar a diversidade na Organização, sobretudo nos cargos de liderança.

A empresa publicou na última semana que o processo seletivo aceitará somente candidatos negros em 2021, decisão elogiada por intelectuais e artistas progressistas, e duramente criticada pela turma do “não ao racismo reverso!” (leia-se: bolsonaristas e fãs do Véio da Havan).

Todo esse alarde em defesa de uma grande empresa capitalista pode ser considerado uma contradição pelos esquerdistas mais ortodoxos, mas é, na verdade, não apenas legítima como fundamental: a luta antirracista deve estar tão visível quanto as desigualdades raciais (que gritam).

Os publicitários da Magalu sabem que essa “polêmica” é muito oportuna e uma óbvia jogada de marketing? É claro que sabem.

As grandes empresas (e também as pequenas, já é possível dizer), há tempos perceberam que os dissidentes (mulheres, pretos, LGBTQ+ etc.) também consomem: quem lacra lucra sim, e muito – a Natura que o diga.

Entretanto, quando uma empresa capitalista dá um passo tão largo em direção ao rompimento com a branquitude, é preciso, sim, que o mundo saiba. É preciso que grandes iniciativas sejam amplamente divulgadas, inspirando outras grandes iniciativas, até que isso se torne de fato uma cultura antirracista (nota: é assim que se constroem as culturas).

Se uma empresa como a Magalu, comandada pela mulher mais rica do Brasil, decide empregar apenas pretos, em reconhecimento à sua dívida histórica em um país colonizado, capitalista e ferozmente desigual, por quê isso deve ser feito na surdina?

A desigualdade racial não está oculta ou enturvada: ao contrário, é gritante. a diferença na taxa de desemprego entre brancos e negros é de 71,2%; brancos recebem, em média, 56,6% a mais que a população negra; dentre profissionais contratados para cargos de liderança em São Paulo no ano de 2019, apenas 3,69% eram pretos ou pardos; mulheres negras são apenas 0,5 % do quadro executivo das 500 maiores empresas brasileiras (fonte: UOL).

Isso significa que os critérios de escolha das grandes organizações são, escancaradamente e sem nenhum constrangimento, racializados (e isso é novidade pra quem?)

Quando uma grande empresa rompe com esse pacto de branquitude, é fundamental que isso caia como uma bomba no neste capitalismo tão… branco.

E caiu. Desde o anúncio do programa, a empresa tem sido acusada de “racismo reverso”, e é muito curioso, para dizer o mínimo, conceber que esse conceito tão vazio de sentido seja facilmente aceito e defendido por tanta gente (os ignorantes vencerão porque são muitos, não é o que dizem?)

Racismo reverso não existe e não pode existir porque o racismo inventou a raça.

A própria ideia de raça, de dividir as pessoas em grupos determinados pelo seu fenótipo/origem, existe como parte do projeto de dominação da branquitude, e não sou eu quem digo isso, são os principais autores e estudiosos da raça no mundo, como Angela Davis, Conceição Evaristo e Silvio Almeida.

É só ler, gente.

Não dói.

Quando esses autores falam em racismo estrutural, o que eles estão dizendo é que nossa sociedade foi construída sobre alicerces racistas, nosso inconsciente foi historicamente e propositalmente moldado em uma lógica racista, e nós, pessoas não-negras, continuamos a nos beneficiar desta desigualdade, mesmo quando não a promovemos diretamente.

Em uma sociedade estruturalmente racista, em uma perspectiva de divisão de raças como ferramenta de dominação, a postura da Magazine Luiza não pode e nunca poderá ser definida como “racismo reverso”: é reparação histórica, e não é mais do que a nossa obrigação.

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