O casamento do Dr Kalil é um retrato perfeito do Brasil. Por Paulo Nogueira

Noivos e padrinhos
Noivos e padrinhos

Será que Lula e Dilma têm noção do desgaste de imagem que é comparecer a um casamento com tamanha ostentação como foi o do cardiologista Roberto Kalil Filho?

Presumo que sim.

E acho também que eles não faziam ideia de que o casamento atrairia tanta atenção. Era para ter uma cobertura limitada à Caras, não fosse um grupo de paneleiros que irrompeu, para alegria da imprensa.

O noivo é evidentemente alguém apaixonado pelo poder. Em seu primeiro casamento, nos anos 1980, os padrinhos foram o general Figueiredo, o último da ditadura, e Maluf, em quem se via então um bom potencial para chegar ao Planalto.

Agora, os padrinhos foram Lula, Dilma e Serra.

Caso haja um terceiro casamento, bastará ver quem estará na presidência.

Minha reflexão número 1, ao ver este tipo de coisa, é: que falta faz um Mujica no Brasil.

Simplicidade, simplicidade e ainda simplicidade. O exato oposto do que se viu ontem no casamento.

E hipocrisia em doses colossais.

O jornalista Ricardo Noblat, presente, postou uma foto em que sua mulher sorri, triunfalmente, ao lado de Dilma, as duas em cintilantes vestidos de noite.

Como tantos articulistas da Globo, Noblat vive de bater em Dilma e em Lula. Foi ele que, pouco tempo atrás, escreveu que Dilma tinha tido uma guerra de cabides com uma empregada.

Noblat escreveu na ocasião: “Uma pessoa que não ama seus semelhantes, ou que não sabe expressar seu amor por eles, não pode ser amada.”

Mas, pelo visto, pode ser bajulada, ou se deixar bajular.

Dilma com Rebeca Noblat
Dilma com Rebeca, mulher de Noblat

Dilma não teria como fugir de uma foto tão embaraçosa, tirada pelo articulista dos cabides? Existe, é claro, a possibilidade de que ela não soubesse de quem se tratava.

Fora disso, é incompreensível e, para mim, inaceitável.

Na noitada paulistana, genuínos mesmo em sua estupidez e ignorância desumanas, apenas os paneleiros que foram gritar as bobagens de sempre que lêem na mídia que os imbeciliza e os manipula.

O casamento de Kalil é um retrato da promiscuidade política que tanto atrapalha o avanço social do Brasil.

É muita confraternização e pouco atrito. E sem atrito, sem confronto, você não remove privilégios e mamatas que fizeram do Brasil uma das eternas capitais mundiais da desigualdade.

Jamais entendi o seguinte.

Roberto Marinho foi um dos patronos do golpe, e um dos responsáveis pelos mais de vinte anos de duração de uma ditadura cheia de mortes, torturas e perseguições.

Depois, manipulou um debate que custou a Lula uma eleição.

E o mesmo Lula, ao chegar enfim ao poder, não apenas comparece ao enterro de Marinho e faz um elogio fúnebre inteiramente dissociado da realidade como decreta luto oficial de três dias.

Enquanto isso, no mundo das coisas concretas, o governo do PT continuou, ano após ano, a colocar meio bilhão de reais em publicidade na Globo – um dinheiro que financiaria o exército de Mervais, Jabores, Kamels, Wacks et caterva.

Você entende?

Eu não.

Ah, sim. Faltaram os irmãos Marinhos no casamento de Kalil.

Mas eles estavam representados por Noblat e sua mulher, aquela da foto festiva com Dilma.

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