5 anos sem Moacyr Scliar. Por Luísa Gadelha

Moacyr Scliar (1937 - 2011)
Moacyr Scliar (1937 – 2011)

Se o ano já começou triste com a perda do grande Umberto Eco, hoje, 27 de fevereiro, é dia de relembrar o escritor e médico sanitarista brasileiro Moacyr Scliar, que partiu há exatos cinco anos.

Scliar viveu 73 anos e nesse ínterim publicou mais de setenta livros, desde contos e romances a crônicas e ensaios, além de livros infanto-juvenis, tratando de temas como o judaísmo, o socialismo e a medicina.

Foi membro da Academia Brasileira de Letras e ganhou três prêmios Jabuti, sendo um deles em 2000 pelo livro A mulher que escreveu a Bíblia. Nesse divertidíssimo e criativo romance, uma mulher, com a ajuda de um terapeuta de vidas passadas, descobre que, no século X a.C., foi uma das centenas de esposas do Rei Salomão. Contudo, era tremendamente feia e, por isso mesmo, desprezada pelo poderoso esposo. Porém, a tal moça era inteligentíssima e a única do harém que sabia ler e escrever, tendo sido encarregada de escrever a história do povo judeu.

Outro romance conhecido de Scliar é Max e os felinos, sobre o qual o autor se envolveu numa polêmica com o escritor canadense Yann Martel, que escreveu As Aventuras de Pi. Devido à grande semelhança entre os dois romances, Martel foi acusado de plagiar Scliar. Moacyr Scliar reconheceu a correlação entre os dois romances, mas, à época, declarou não se sentir inclinado a processar Yann Martel – o escritor canadense, por sua vez, disse apenas ter se inspirado na obra de Scliar. As Aventuras de Pi virou filme em 2012, dirigido por Ang Lee, tendo, inclusive, ganhado 4 oscars.

Entre suas obras políticas, destacamos O Exército de um Homem Só, que conta a história de Ginzburg, um imigrante russo judeu, recém chegado ao Brasil, com o sonho de construir uma nova sociedade, socialista, em Porto Alegre. Ginzburg seria o Dom Quixote brasileiro. O livro aponta reflexões sobre o judaísmo e o lugar dos judeus no mundo, a revolução russa e a temática socialismo versus capitalismo.

Já sobre a medicina, Scliar escreveu O Olhar Médico e A Face Oculta, com crônicas sobre o cotidiano médico, também acessível aos leigos. Publicou também Saturno nos Trópicos, uma longa reflexão e pesquisa histórica sobre a melancolia, desde a Antiguidade à contemporaneidade e como o Brasil a herdou dos europeus.

Aventurou-se pela filosofia, com o livro Enigmas da Culpa, em que tece considerações sobre a culpa: de onde ela vem?, por que a sentimos?, quais são as consequências que provêm desse sentimento?, o que é a culpa para a psicanálise?

Escreveu ainda uma releitura do conto O Alienista, de Machado de Assis, destinado ao público infanto-juvenil, sob o título de O Mistério da Casa Verde.

Como podemos observar, é bem difícil resumir a obra de Scliar, ou reduzi-lo a um determinado tema. Com interesse em tantas áreas distintas, o escritor agradou um público variado, apesar de, ainda assim, não ser tão conhecido nem disseminado em nosso país. Certamente foi uma grande perda, cuja obra merece ser relembrada.