A lógica da opção da mídia pela percepção e não pela realidade. Por Paulo Nogueira

A campanha histórica da Rolling Stone
A campanha histórica da Rolling Stone

Uma campanha de marketing histórica da revista americana Rolling Stone confrontava percepção e realidade.

A campanha virou um caso de estudo.

Era assim. A percepção das pessoas era que a RS era lida por hippies, ou neo-hippies, pessoas avessas a qualquer tipo de consumo.

A realidade era que os leitores da RS consumiam como todos os leitores de revista.

Indigente em publicidade, a revista se tornou um sucesso publicitário.

Essa campanha me ocorreu ao ler o levantamento da Folha deste domingo sobre os 13 anos de PT no poder.

Escrevi já um artigo, mas não citei a RS e sua clássica diferenciação entre percepção e realidade.

Involuntariamente, a Folha mostrou a percepção e a realidade. A percepção é que o país não melhorou. Foi o que disseram, segundo a Folha, 68% dos ouvidos.

A realidade, no entanto, é que todos ganharam nestes 13 anos. Os 10% mais ricos tiveram 30% de aumento na renda em termos reais, descontada a inflação.

Para os 10% mais pobres, o aumento foi de 129%, o que significou uma redução no real câncer nacional: a desigualdade social.

A Folha usa uma expressão parecida com uma que marcou os anos Lula. Esse tipo de coisa nunca acontecera antes na história medida pelo IBGE.

Pois bem.

Você tem aí percepção versus realidade. A percepção: não melhoramos. A realidade: melhoramos sim.

E qual a opção que a Folha escolhe para dar na manchete? A percepção. Desnecessário dizer, o resto da mídia acompanhou-a nesse passo maldado.

A Folha teve uma grande chance de mostrar a realidade. Mas escolheu a percepção, pela qual, aliás, ela é um dos responsáveis.

Você pode ver o poder da percepção nos depoimentos dos manifestantes deste domingo na Paulista.

Todos descreviam o apocalipse, desgarrados dos fatos em si. O país acabou. Estamos destruídos. Não há mais esperança fora de um golpe.

Você tem, nisso, uma prova do serviço horroroso que a mídia presta para a sociedade. Jornais e revistas desinformam, manipulam, escamoteiam.

Eles criam uma realidade paralela, uma distopia absoluta que mostra um país em processo de desintegração.

O motivo é sabotar um governo popular. É uma rotina. Aconteceu o mesmo em 1954 com Vargas e em 1964 com Jango.

Se Dilma for derrubada, a imprensa engavetará imediatamente a distopia. Um clima de otimismo estridente se espalhará pelo país por jornais, revistas, rádios, telejornais e sites das grandes empresas jornalísticas.

A corrupção deixará as manchetes, não por ter sido debelada, mas por não ser mais útil para desestabilizar os inimigos.

Aécio poderá continuar, tranquilamente, fazendo coisas como um aeroporto particular com dinheiro do povo. Eduardos Cunhas continuarão a tramar no Congresso para aprovar medidas favoráveis à plutocracia.

Seremos felizes. Mas de mentirinha. Como nos tempos da ditadura, durante os quais Medici, numa frase célebre, disse que era ótimo ver o Jornal Nacional. Num mundo convulso, o Brasil era um oásis de próspera tranquilidade segundo o JN.

Os únicos que terão reais motivos para gargalhar são os plutocratas. A desigualdade avançará e, em consequência, os ricos ficarão ainda mais ricos.

A utopia será uma percepção. A realidade será cruel.