A parcialidade é o menor dos problemas da mídia golpista. Por Léo Mendes

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Escrevo outra vez ao querido amigo ignorante político, que vibrou essa semana com a capa da Istoé como há tempos não vibrava, talvez desde que a Veja guinou à esquerda, como afirma o colunista demitido Rodrigo Constantino.

Escrevo porque me parece uma ótima oportunidade de esclarecer um ponto que sei que o amigo tem muita dificuldade em compreender: que a parcialidade é o menor dos problemas da mídia golpista.

Sei que me acusas de ser parcial, de ser bancado pelo governo, por pão e mortadela, e que acreditas que essa parcialidade que encontras nos “blogs sujos” seja uma espécie de salvo conduto para coisas como a capa da Istoé dessa semana, como se os “blogs sujos” fossem uma espécie de outro lado da moeda.

“Coisa” porque me faltam palavras para descrever aquela capa, e só de pensar em descrevê-la sinto por empatia o ódio profundo que a pariu. Prefiro evitar.

Mas veja então que o problema não é nem nunca foi a parcialidade, e sim o monopólio da informação e a sordidez nos argumentos. Observe nas bancas de jornais, nas emissoras de TV, nas rádios…

Veja, Istoé, Época, qual exatamente é a diferença entre elas? E entre O Globo, Folha de São Paulo, Estadão… Todos defendem editorialmente as mesmas coisas. Talvez a diferença seja o quão baixo cada veículo é capaz de ir.

Istoé parece ter estabelecido um nível nunca antes alcançado e não é por acaso. Entre suas concorrentes, deve ser a primeira a quebrar caso o golpe não dê certo e, por conseguinte, o livre acesso aos cofres públicos de um governo amigo.

Ser a porta-voz da extrema-direita mais hidrófoba, misógina e fascista é para a Istoé uma estratégia de negócios. Ela precisa se diferenciar um pouco das concorrentes, ir mais longe do que elas, arriscar mais para garantir uma sobrevida em um mercado que definha em praça pública.

É difícil imaginar um mercado menos promissor do que o das revistas de papel. A Istoé sabe disso, a Abril também sabe, todos sabem, inclusive os anunciantes.

Também sabem que antes da internet, a esquerda não tinha como disputar a narrativa dos fatos com essas revistas, jornalões, rádios, TVs… O dinheiro jorrava para todos os lados da direita, de modo a simular uma pluralidade fictícia.

Então que se foda a imparcialidade, trata-se de um mito que nunca cultuei e aprecio apenas em juízes. É a velha mídia que gosta de se dizer imparcial para enganar trouxa. Também não me venhas dizer que eu faço parte do outro lado, quando um lado ainda recebe bilhões e o outro migalhas.

Se acreditas que eu sou contra o golpe por receber dinheiro do governo, hás de convir que eu receberia muito mais se escrevesse para o outro lado. Poderia trocar o pão com mortadela por filé mignon, ainda mais tendo em vista a baixa qualidade da concorrência.

Podes então dizer que o que eu faço é um investimento, e nisso tens razão. Podes ter em vista, por exemplo, o próprio Rodrigo Constantino, que há dois anos zombava da audiência dos “blogs sujos”e hoje tem um blog que não chega a metade de leitores de vários blogs progressistas.

Parece que o jogo virou, não é mesmo?

Insisto assim em não ter que me vender aos ideais da Casa Grande para exercer a profissão de jornalista. E acredito num futuro em que todos sentirão vergonha e desgosto da Istoé. Um futuro em que tu deixes de ser misógino ou fascista sem perceber.

Hoje és burro, muito ignorante, cheio de ódio, e também não sabes disso. A Istoé sabe e é feita para ti.