Aécio Neves e as drogas

Por Ramiro Furquim/Sul21
Em Porto Alegre: “Submundo”

 

Em 2006, durante um encontro com a Sociedade Americana de Editores de Revistas dos EUA, Obama foi questionado sobre o uso de drogas.

“Para começar, eu traguei”, disse ele, numa referência à famosa fanfarronice de Bill Clinton, ecoada por FHC (“fumei, mas não traguei”). “Foi reflexo dos conflitos e da confusão de um adolescente”, continuou. “Adolescentes são frequentemente confusos”.

Ele já havia relatado em sua autobiografia, publicada em 1995, que fumou maconha, cheirou cocaína e não experimentou heroína porque não ia com a cara do traficante que tentava vendê-la.

O tema voltaria à baila mais algumas vezes. Dois anos depois daquela coletiva, Obama seria eleito.

Em Porto Alegre, a repórter Letícia Duarte, do Zero Hora, perguntou a Aécio Neves sobre os boatos na internet de que ele seria usuário de cocaína.

“Você sabe que existe hoje um submundo da política, nas redes. Anonimamente fazem qualquer tipo de acusação sobre seus adversários, esperando que alguém, talvez desavisadamente, com um pouco mais de credibilidade, possa trazer esse tema ao jornalismo sério. O que nós assistimos é uma guerrilha da internet”, falou.

“Eu me especializei em derrotar o PT. Há 15 anos eu ganho do PT no meu Estado no primeiro turno. Como não tem sobre a minha vida absolutamente nada (…). Eu fico feliz em ver que num momento desse o PT não consegue vir para o debate sobre o Brasil, o debate sério”.

Sua reação diante do assunto é destemperada — ou, no extremo oposto, demasiado calculada. Quando afirma que esse tema não é “jornalismo sério”, está intimidando ou tentando passar um recado para quem ousa falar nisso. Quis bloquear, na Justiça, as buscas no Google envolvendo seu nome. Segundo os advogados do Google, ele “parece ‘sensível’ demais às críticas sobre sua atuação”.

Em 2010, Aécio foi capa da revista Alfa (que eu dirigia). Depois de dias o acompanhando, bastou o repórter tocar no assunto para o tempo fechar. Aécio declarou, então: “Todo mundo teve 18 anos… Ah, experimentou um baseado com 18 anos? Sim. E ponto-final”. A entrevista acabaria ali.

Para o programa “Poder e Política”, da Folha, recentemente, ele trocou apenas alguns termos: “Quando tinha 18 anos, experimentei maconha e ficou por aí. E não recomendo que ninguém faça”.

Um estudante da PUC foi expulso de uma palestra com Aécio, em abril, depois de gritar uma questão sobre a “cocaína no helicóptero” (dos Perrellas, aliados de AN em Minas). Ficou na saudade.

Na saída, Marcelo Ximenes expôs uma dúvida talvez pueril, mas 300 vezes legítima: “Que democracia é essa que não se pode fazer uma pergunta?”

É a democracia de Aécio.

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Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.