Bastou a PM não aparecer para o último ato do MPL transcorrer sem problemas. Por Mauro Donato

Atualizado em 20 de janeiro de 2016 às 15:10

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“Que coincidência, não tem polícia não tem violência” é um dos gritos da rua. Mas quando não tem violência, tem notícia? Tem, mas parcial e acanhada.

A grande mídia, sedenta por ridicularizar o MPL e criticar o ‘vandalismo’ paradoxalmente fica órfã quando a manifestação é pacífica e ainda demonstra ser caolha ao ignorar o cenário completo. Na data de ontem, além do ato bifurcado do MPL (prefeitura e palácio do governo como destinos), o MTST também saiu em dois extremos da cidade com mais de 15 mil pessoas em marcha contra o aumento da tarifa dos transportes (5 mil pessoas em Itaquera e mais 10 mil no Capão Redondo).

Com mais de 25 mil pessoas nas ruas, os quatro atos simultâneos foram ‘pacíficos’. E olha que mais uma vez o metrô provocou (depois de longa caminhada desde Pinheiros até o centro da cidade, manifestantes e usuários encontraram a estação República fechada) e ainda assim não ocorreram maiores incidentes.

Os dias anteriores foram marcados pela polêmica a respeito da divulgação prévia do trajeto a ser percorrido (algo não obrigatório, o que a Constituição determina no inciso XVI do artigo 5º é que as autoridades devem ser previamente avisadas sobre a ocorrência do protesto por seus organizadores. Nenhuma linha sobre trajeto) e que logo demonstrou ser firula das autoridades uma vez que à medida que os manifestantes iam caminhando é que as ruas iam sendo interrompidas e fazendo com que os carros ficassem aguardando. Exatamente como sempre foi nas ocasiões em que não se divulgou o percurso. Portanto não há nenhum problema em não anunciar pois a tal ‘preparação das vias’ não ocorre, é balela. O trânsito não foi desviado de maneira que motoristas não ficassem sem saída. Então vamos ao que interessa e falar sobre o aumento.

Uma pauta legítima. Houve o aumento ele é injustificado, indefensável.

O peso foi sentido no bolso e o argumento de ter ficado abaixo da inflação só vale quando se toma por base o último ano. Desde o estopim de 2013 até agora as passagens aumentaram mais de 26% enquanto a inflação no período ficou abaixo disso (22,99% pelo IPCA do IBGE).

Mas além dos fatores financeiros e calculáveis aqui já apresentados anteriormente (relação horas trabalhadas X valor da passagem, etc), existe o aspecto imoral de se cobrar por algo que não se entrega. Certamente o fator mais revoltante.

O metrô está estagnado, com obras suspensas, interrompidas, adiadas a perder de vista. Quer se aplicar um aumento sem entregar todas fatias da pizza?

As empresas de ônibus receberam R$ 300 milhões a mais (17% sobre o repasse anterior) para operarem entre 2014 e 2015 em um sistema que continua envolto em neblina e enriquecendo seus donos enquanto muita gente precisa refazer suas prioridades no orçamento para arcar com o preço da tarifa para ir trabalhar.

“Mas trabalhador tem vale transporte”, certo? Errado. Mais da metade dos trabalhadores brasileiros atua no setor informal e, sem nenhum direito, ganha 56% do valor do rendimento médio de um trabalhador formal (estudo do IBGE divulgado em 2015 com dados do PNAD). Para esses é R$ 3,80 sem choro.

Parece-lhe justo não apresentar nenhuma melhoria na eficiência dos sistemas, ver os trens da CPTM ter a média de uma pane por dia ao longo de 2015 e ainda assim aumentar a passagem?

O pacote de usuários isentos de pagar já é bem razoável (estudantes da rede pública de ensino, idosos e pessoas com deficiência, desempregados também têm passe livre por um prazo máximo de 90 dias) o que entretanto não invalida a insatisfação daqueles que pagam.

O serviço é ruim, a malha é insuficiente e está custando praticamente a mesma coisa que em países onde o transporte é infinitamente melhor. Custar quase um euro ou um dólar é um assalto. É acentuar um sistema excludente que já deixa muita gente de fora enquanto outros continuam ganhando muito com isso.

E o que dizer de desfilar um imenso e milionário aparato militar, recém adquirido por valores obscenos para reprimir as manifestações? Os blindados israelenses custaram um total de R$ 30 milhões. O preço estimado de um ônibus é de R$300 mil, daria para comprar uma centena deles. Sabe a diferença que isso faria na periferia? Ok, o governo Alckmin é responsável pelos trens e metrô e não compra ônibus mas o comparativo ilustra bem o que é prioritário. Quanto custa o espetáculo pirotécnico de lançar uma bomba a cada 7 segundos e disparar milhares de balas de borracha sobre os manifestantes? No meu entender, quando pessoas reivindicam, protestam, deveria haver uma resposta política e não uma militaresca.

Embora autoridades e o chamado PIG andem se esforçando para desmerecer as manifestações e empurrar o aumento goela abaixo, o povo tem demonstrado insatisfacão. O MPL para você não é povo? E o MTST, que tal?