Com mostra do MBL, a UFSC do reitor Cancellier vira cobaia de modelo de agitação de direita. Por Celso Vicenzi

Os kataguiris na UFSC

POR CELSO VICENZI, de Santa Catarina.

Um reitor submetido a uma prisão abusiva, humilhante e que se suicida. Uma vice-reitora que assume interinamente, recebe pressões e se afasta por 60 dias por licença de saúde. Um corregedor-geral, pivô do caso que resultou em suicídio do reitor, também se afasta por 61 dias por licença de saúde. Um chefe de gabinete da Reitoria que pede desligamento do cargo. Afinal, o que está acontecendo na Universidade Federal de Santa Catarina, uma das cinco brasileiras mais bem avaliadas em ranking das melhores instituições de ensino superior da América Latina?

Em março de 2014, sob o pretexto de combater o uso de drogas no campus, policiais federais tentaram prender estudantes em um bosque da UFSC. Houve reação e confronto. Professores apoiaram os estudantes e tentaram negociar com os policiais, sem sucesso. O episódio, que ficou conhecido como “Levante do Bosque”, terminou com o indiciamento de 34 pessoas, inclusive professores, e do diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Paulo Pinheiro Machado.

Esta semana, pessoas estranhas à UFSC colocaram a universidade no centro de um insólito episódio, que pode ser o embrião de um novo modelo de provocações. Com o apoio do Movimento Brasil Livre (MBL), “plantaram” na universidade uma “Semana Vítimas do Comunismo: a maior tragédia do século XX”, de 6 a 10 de novembro, com aparente viés pedagógico, mas sem rigor científico, honestidade intelectual e que serviu até mesmo para um dos palestrantes refutar teorias consolidadas no meio acadêmico, como a questão de gênero.

Não se trata, portanto, de impedir o debate sobre um dos mais importantes e controversos fatos da história, mas do pretexto de defender causas humanitárias para contrabandear ideias reacionárias. Ou seja, um cavalo de Troia. E setores da esquerda, ao tentar retirá-lo do campus, aumentaram a repercussão, principalmente na mídia. Não parece distante, portanto, o dia em que será requisitado espaço na universidade para debater ideias criacionistas e defender que a Terra é plana. No Brasil do golpe, tudo se tornou possível.

Uma das palestras, anunciada para o auditório do Centro Socioeconômico (CSE) da UFSC, chegou a ser cancelada. A reação foi liderada por um movimento denominado Coletivo Floripa Contra o Estado de Exceção, que já vinha recolhendo assinaturas para denunciar os constantes ataques à autonomia da universidade e que pedia uma rigorosa investigação no processo que resultou na morte do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Para lembrar as palavras do ex-senador Nelson Wedekin (PMDB), o reitor foi “empurrado das alturas para a morte” por “mãos visíveis e invisíveis”.

Cancelado na última hora, o debate no CSE foi transferido para o auditório Teixeirão, do curso de Engenharia Elétrica, no Centro Tecnológico, tradicional reduto mais à direita no espectro político da universidade.

Mas os organizadores do evento conseguiram, por intermédio de advogados, um mandado de segurança da Terceira Vara Federal de Florianópolis, que obrigou a UFSC a ceder o espaço anteriormente reservado, no CSE. Segundo a decisão judicial, a universidade “deve significar para a comunidade em que se encontra, local de plural manifestação democrática, que respeita a diversidade de ideias e opiniões”.

Todos parecem mandar na UFSC, menos as autoridades eleitas pela comunidade universitária (Reitoria e Conselho Universitário, por exemplo, que até o momento não se manifestaram oficialmente sobre o episódio). A Constituição de 1988 garantiu autonomia às universidades, ou seja, “capacidade de autodeterminação e de autonormação dentro dos limites fixados pelo poder que a institui”. Salvo engano, isso significa que não precisa de decisões judiciais para resolver questões administrativas que se refiram ao que deve ou não ser realizado em seu espaço de produção de saberes.

Não parece o caso. A UFSC virou uma espécie de Casa da Mãe Joana e o Judiciário, mais uma vez, arvora-se no poder que a todos se sobrepõe e decide desde a exibição de uma peça de teatro ou um show até quem pode ou não ser candidato à presidência da República. Em outro extremo, omite-se quando deveria defender a Constituição, como no caso da destituição de uma presidenta eleita, tirada do cargo por uma gangue de notórios corruptos que hoje reina soberana sobre a nação, vendendo o patrimônio do povo brasileiro e destruindo direitos sociais e trabalhistas como nunca antes se viu no país (nem mesmo na ditadura militar de 64). Os exemplos de uma atuação do Judiciário que pode ser classificada como política e ideológica, se multiplicam pelo país.

O diretor do Centro Socioeconômico, Irineu Manoel de Souza que suspendera o evento naquele local, justificou a medida alegando que a iniciativa era “completamente alheia às atividades de sala de aula, às linhas de pesquisa sobre o pensamento liberal ou mesmo às atividades de extensão da comunidade acadêmica” e que atendia somente “a interesses político-partidários externos”. Também a Agência de Comunicação da UFSC, que chegou a divulgar o evento, retirou a notícia, posteriormente, de sua página. O mais famoso colunista político do Estado classificou o cancelamento como “atitude fascista”, ao mesmo tempo em que uma decisão legítima do reitor interino ganhou manchete de capa no mesmo jornal como tendo sido uma “manobra”.

“Semana Vítimas do Comunismo”

O evento virou pretexto para reportagens, comentários e programas de debates na mídia, que colocaram a universidade na defensiva. Ao tentar impedir, foi acusada de “censura”, porque à mídia não interessa analisar atores abertamente partidários de ideias fascistas, excludentes, contrárias aos direitos humanos e às causas humanitárias que simulam defender. Um truque hábil, em que o algoz se faz passar por vítima.

Como se vê, o suicídio do reitor pode não ter sido um ato isolado, pois os ataques à universidade prosseguem. E as motivações, aparentemente, são maiores do que aquelas a que as notícias se referem, afinal, em todo o país, as instituições públicas estão sendo sucateadas, denunciadas e vendidas ao setor privado. Quem acompanha o meticuloso xadrez do golpe sabe que nenhum lance é ingênuo e boa parte da mídia tem exercido o papel de esconder e supervalorizar fatos, e também legitimar atos induzidos como se produzidos espontaneamente.

A realização da Semana Vítimas do Comunismo parece mesmo ter motivações estranhas à comunidade universitária. Como indica o cartaz que o promove, é uma realização do vereador Bruno Souza (PSB), da Victims of Communism – Memorial Foundation e Mises Brasil. Até o cônsul da Ucrânia (onde o nazismo ressurge com força) no Brasil, Valerii Hryhorash foi convidado para ser um dos palestrantes, juntamente com Cristofer Correia, coordenador do Governo da Vontade Popular da Venezuela e Daniel Arturo Lezama, coordenador do Student for Liberty (SFL-Venezuela). Na lista, entre outros, Hélio Beltrão, presidente do Instituto Mises-Brasil; Raphael Lima, do Canal Ideias Radicais e Anselmo Heidrich, autor de “Não culpe o capitalismo.

Segundo informam os organizadores, a Victims of Communism Memorial Foundation “foi instituída em 1994 por aprovação unânime do Congresso Americano, e se dedica desde então a divulgar a história e o legado dos regimes comunistas. O Instituto Ludwig Von Mises – Brasil é uma associação voltada à produção e disseminação de estudos econômicos e de ciências sociais que promovam os princípios de livre mercado e de uma sociedade livre e próspera”.

Além de palestras previstas para vários locais da capital catarinense, os organizadores montaram exposições de fotografias das vítimas do comunismo na Assembleia Legislativa de Santa Catarina e na Câmara de Vereadores. Na Assembleia, por triste ironia, realizada no hall do Plenarinho Paulo Stuart Wright, deputado catarinense assassinado por anticomunistas.

O vereador Bruno Souza, membro do Partido Socialista Brasileiro (quanta ironia!), um dos organizadores da “Semana Vítimas do Comunismo” é um parlamentar que não costuma se destacar por defender os direitos humanos e causas que favoreçam a população mais pobre.  E, claro, sente-se muito à vontade ao lado de ídolos como Kim Kataguiri, que aterrissou na Ilha especialmente para prestigiar o evento e denunciar o que considera censura e truculência da esquerda no país. Em pleno golpe da direita mais reacionária e corrupta, ora vejam!

Na mesma semana em que o MBL e parceiros destacam as vítimas do comunismo, realizou-se o VII Congresso Catarinense de Direito Administrativo, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Durante o Congresso, o manifesto do Coletivo Floripa Contra o Estado de Exceção foi mencionado pelo professor Luiz Henrique Cadermatori, secretário de Aperfeiçoamento Institucional da UFSC, que discursou em homenagem ao reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo. O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay), ministrou palestra sobre “Abuso de Autoridade”.

Um tema que a Universidade Federal de Santa Catarina vem experimentando como amarga rotina.