Comitês em defesa de democracia revivem os melhores momentos da nossa história. Por Joaquim de Carvalho

Comitê em Santa Fé, no Ceará

Em Defesa da Democracia e do Direito de Lula ser candidato.

Onze palavras, 60 letras, duas ações, uma única ideia: defender a democracia e defender o direito de Lula ser candidato significam, neste contexto da história do Brasil, a mesma coisa: a soberania popular.

Lula foi condenado sem provas num processo conduzido por um juiz parcial, que interferiu na luta política e, como já declarou, não se arrepende. Sua mulher, a diretora do cartório de sua jurisdição, o melhor amigo, a família do melhor amigo, todos ativistas de um movimento para tirar o PT do poder.

Sendo juiz de primeira instância, ele poderia ter sido contido ao mostrar suas intenções lá atrás, quando ainda não tinha havido o golpe parlamentar.

Mas a campanha movida pelos grandes veículos de comunicação, na onda que se seguiu ao inconformismo com a derrota eleitoral de Aécio, não permitiu.

Os magistrados das cortes superiores se acovardaram ou aderiram pelas mesmas razões ideológicas de Moro e seus amigos: o ódio ao PT.

O Brasil mergulhou em um período de trevas, de regressão, que tem data para mudar: dia 24 de janeiro, quando o recurso de Lula será julgado pelo Tribunal Regional Federal da 4a. Região.

Ou nos aprofundamos nas trevas, ou começamos a trilhar o caminho de volta à normalidade democrática e institucional.

Por isso, a frase “Em Defesa da Democracia e do Direito de Lula ser candidato’ é uma dessas expressões que nascem com força para ficar na história, assim como “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita” e “Diretas Já”, nos estertores da ditadura militar.

Digite-se hoje a frase “Em Defesa da Democracia e do Direito de Lula ser candidato” na rede social e aparecem mitas postagens, com vídeos e fotos, de todas as partes do Brasil.

É que, como parte da programação de eventos que antecedem o julgamento do recurso de Lula, foram inaugurados comitês populares em todo o País.

Até o PSOL, que nasceu de uma dissidência do PT, aderiu à ideia, não com um comitê, mas com a divulgação de uma nota de sua Executiva Nacional.

O filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp, aderiu a um abaixo-assinado que defende a mesma coisa.

Não é uma adesão qualquer.

São inúmeros os artigos que Roberto Romano escreveu nos últimos quinze anos — e a velha imprensa publicou, certamente com muito gosto — com críticas duríssimas a Lula e a Dilma, quando presidentes.

Um dos motivos que o levaram a assinar o manifesto foi o papel da Lava Jato na crise política.

“Emprega métodos de investigação conhecidíssimos no Brasil: os métodos autoritários”, disse em entrevista ao site Brasil 247. Na opinião dele, a Lava Jato ignora a presunção da inocência dos acusados, transferindo para eles a “coleta de provas. Isso é próprio de regimes ditatoriais”. 

Roberto Romano não tem, por certo, relação com Lula nem com outros líderes petistas e, por isso, sua adesão ganha maior importância. Lembra os momentos em que Sobral Pinto, um advogado conservador, participou de comícios pelas diretas, na década de 80, para lembrar o princípio constitucional de que todo poder emana do povo e, em seu nome, é exercido.

Ou como o senador Teotônio Vilela, que havia sido filiado ao partido de sustentação da ditadura, a Arena, mas não conseguiu se calar diante do arbítrio contínuo. Passou à história como o Menestrel das Alagoas.

Ou até como Tancredo Neves, cuja memória Aécio, seu neto, tornou opaca.

Há momentos em que aqueles que conservam um mínimo de dignidade não se calam, ainda que conservem as diferenças no campo pessoal.

Os Comitês Populares em Defesa da Democracia e do Direito de Lula ser candidato se espalham pelo Brasil, na reedição dos grandes momentos da história.

Neste dia 13, uma das imagens mais marcantes não foi o da Câmara Municipal de Maringá lotada, no ato mais simbólico da campanha — Maringá é a cidade de Moro.

Não foi o do Diretório de São Paulo, o maior do PT, nem o de Belo Horizonte, que tem uma militância aguerrida.

Foi a da casa da Dona Zezinho, em Santa Fé, no Ceará — achei a imagem na internet.

Ela se encarregou de estender um banner do comitê em frente à sua casa. E anunciar a toda vizinhança: Eu defendo Lula porque, ao defendê-lo, defendo a democracia e, por conseguinte, o meu País.

Campanhas que têm o apoio de mulheres como Dona Zezinho se tornam invencíveis.

Como em 1984, democratas deixam as diferenças de lado e se concentram no que importa: a soberania popular

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Joaquim de Carvalho
Jornalista, com passagem pela Veja, Jornal Nacional, entre outros. joaquimgilfilho@gmail.com