“Como em 64, os incautos e os que gostam de ser enganados estão adorando”, diz o artista Ênio Squeff. Por José Cássio

A história se repete
A história se repete

 

O jargão “o Brasil é uma festa” definitivamente não se encaixa no cenário atual. Pelo contrário: o clima é de um país conflagrado, na iminência de uma convulsão social.

Grupos se dividem em atos pró e contra a presidente Dilma.

A intolerância tomou as ruas.

Já há quem faça comparações com março de 1964, quando um golpe militar mergulhou o país numa ditadura que durou mais de duas décadas.

O artista plástico Ênio Squeff, que viveu aquele período e é uma referência nos debates sobre o assunto, é uma dessas pessoas.

Ênio foi impedido de dar aulas numa universidade federal e acabou vindo para São Paulo onde integrou a primeira equipe de Veja, sob o comando de Mino Carta.

“O juiz Sérgio Moro é um agente provocador. Não tenho dúvida de que ele está empenhado em ensangüentar o país”.

Se em março de 1964, o perigo vestia verde oliva, hoje enverga a amarelinha da CBF.

“A intolerância e o ódio tomaram conta das pessoas que protestam contra o governo”, diz ele. “Os pró Dilma são mais tranqüilos, mas até quando?”

DCM – O que diferencia os movimentos pró-impeachment da avenida Paulista da Marcha com Deus pela família?

Ênio Squeff – Na Marcha com Deus, houve a mobilização de setores da Igreja, além do aliciamento de políticos e da imprensa – a mesma mídia que aí está. E havia uma resoluta lavagem cerebral principalmente nos quartéis brasileiros, formados por militares que haviam se mobilizado para lutar contra o comunismo, representado pela existência da União Soviética.

Hoje não existe, – pelo menos aparentemente, nada disso. Mas há esse engodo da “Moralização do País” comandada por Sergio Moro, um juiz de primeira instância – na verdade um Torquemada Mirim – que está fazendo de tudo, a começar pelas torturas públicas das prisões ilegais de Curitiba.

Os incautos e os que gostam de ser enganados estão adorando. Mas é só. No mais, a mesma mídia  golpista com setores da oposição. No Brasil as chamadas elites nunca aceitaram quaisquer governos populares. O resultado é esse que estamos vendo.

DCM – Você sofreu repressão durante a ditadura?

ES – Sofri sim. Fui impedido de assumir um cargo de professor assistente na cadeira de cultura brasileira no curso de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, justamente por minhas posições políticas na época. Minha vinda para São Paulo, para a turma que fundou a Veja, na época dirigida pelo Mino Carta, deu-se por este motivo. Isso desde que se desconsidere a morte de amigos, a falta de liberdade, o medo da polícia, essas coisas, como não repressivas.

DCM – Em 64 havia motivo para a deposição do presidente João Goulart?

ES – Claro que não. Inventaram-se os mais variados motivos para a quartelada que, afinal, aconteceu. Para se ter uma ideia, em 64, um dos motivos alegados para o golpe foi a dívida externa brasileira, algo em torno de três bilhões de dólares. Quando da saída dos militares do poder, mais de vinte anos depois, o Brasil devia mais de 300 bilhões.

Ademais, nos idos de 64, aventou-se a possibilidade de o governo Goulart transformar o Brasil num Estado socialista nos moldes soviéticos, uma mentira forjada pelo Departamento de Estado Americano, na época, em franca guerra chamada eufemisticamente de “fria”, contra a  URSS. O resto foi o que se viu – expurgos das maiores inteligências das universidades (Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Mário Schenberg, Oscar Niemeyer e daí por diante); e então a boçalidade tomou conta de tudo.

 DCM – Acha que há motivo para o impeachment da presidente Dilma?

ES – A resposta está nas recentes revelações da vilã escolhida pela Lava Jato, a Odebrecht. Em nenhuma delas constam o que os coxinhas mais esperavam, ou seja, que nelas estivessem os nomes da presidente e do ex presidente Lula. Uma patuscada da qual participam justamente os maiores incentivadores do impeachment, não por casualidade, justamente os mais citados pela Odebrech. Aliás, qual o crime da presidenta Dilma, qual? Qual o crime de José Dirceu, o do Mensalão, que foi quando tudo começou?

DCM – Como analisa o juiz Sérgio Moro e especialmente as diligências da PF às seis da manhã na casa dos envolvidos na Lava Jato?

ES – Um jogo de cena de um magistrado que, como disse, está se comportando como um justiceiro, e não como um juiz. Um Torquemada Mirim, repito, esse me parece o apelido exato; ou se quiserem, um justiceiro quase adolescente. Ou será possível explicar a prisão de pessoas sem qualquer prova de culpa? O STF por enquanto tem agido com absoluta condescendência em relação a esse juiz. Quase um escárnio. Salva-se a medida do ministro Teori Zavaski – mas até quando?

DCM – Num dos grampos vazados para a Imprensa, o ex-presidente Lula diz que a Suprema Corte está desmoralizada e que ele, Lula, está com medo da República de Curitiba. Existe repressão atualmente no Brasil atual?

ES – Sem dúvida. E assino embaixo a declaração do ex-presidente. Como disse, acho que o Fernando Brito, se um juiz procede com um presidente da República da forma com que o Moro se comportou, o que sobrará para nós, pobres mortais?

Ênio Squeff (foto Javam)
Ênio Squeff (foto Javam)

 

DCM – Qual a sua avaliação da Polícia Militar de São Paulo na condução dos protestos pró-governo Dilma, como o realizado na PUC?

ES – A PM de São Paulo agiu contra os estudantes da mesma forma como age diuturnamente com o povo da periferia, principalmente a juventude negra. A violência está entranhada na polícia desde os tempos da ditadura. E isso não mudou.

DCM – Qual análise faz da conjuntura do país?

ES – Sinceramente, como artista plástico e ex-jornalista não tenho qualquer instrumental para prever a barafunda em que estamos metidos. Conversei há algum tempo com um amigo e jornalista em Brasília e a resposta que ele me deu, parece-me irrefutável: quem pretende explicar o momento brasileiro, está no mínimo mal informado.

DCM – Há grupos que pedem a volta do regime militar. O que pensa disso?

ES – Bem, há gente que gosta de matar e de torturar. Desses não se pode estranhar nada. Mas há os imbecis, a massa de manobra: sobre esses há que se assacar a palavra de um famoso vigarista norte-americano que explicava a sua ação dizendo que a cada cinco minutos nascia um idiota nos Estados Unidos. Isso foi há mais de 50 anos. Se ampliarmos essa consideração para o Brasil, muito provavelmente diminuiremos esse tempo de nascimento de idiotas para alguns segundos, se muito.

No mais, há o problema cultural. E aí a coisa se torna dramática, mas não só para os brasileiros. Todos lamentam as mortes por obra do terrorismo na Europa e não há mesmo senão o que lamentar. Mas não vejo ninguém pedindo que se cesse a mortandade na Síria, uma das grandes causas do terrorismo do tal de Exército Islâmico. ‘E uma guerra movida pelos Estados Unidos e por boa parte dos países europeus. Um absurdo. E isso, francamente, não contribui muito para relevarmos a inteligência de uma Europa que até bem pouco julgávamos a região mais culta do mundo.