‘Dilma e Lula demoraram a reagir a colunistas e jornais que publicam mentiras’: o DCM entrevista Jean Wyllys

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“A gente tem que recorrer ao Judiciário e fortalecer o estado democrático de direito, onde a calúnia, a injúria e a difamação são crimes contra a honra que precisam ser punidos”.

O deputado federal Jean Wyllys, várias vezes premiado como o melhor deputado federal pelo prêmio Congresso em Foco e incluído na lista das 50 personalidades mais importantes do mundo na defesa da diversidade pela revista britânica The Economist, foi eleito pelos leitores do DCM a personalidade do ano de 2015, numa votação acirrada que teve como segundo colocado Chico Buarque. Ambos são alvos do ódio que se propaga nas mídias e que chega às ruas, em ataques que precisam ser evitados. O que fazer para evitá-los e de onde surgem esses monstros foram os temas principais dessa entrevista. Falamos também sobre a atuação da Justiça e da Polícia Federal, a relação da mídia com Lula e Dilma, Movimento Passe Livre, Israel e Palestina, e sobre como conversar com um fascista.

O que é pior, as mentiras que circulam na internet ou as meias verdades contadas pela velha mídia?

Ambas são muito nocivas ao processo democrático e ao jogo político, e a gente parte do pressuposto de que, num mundo ideal, as disputas políticas deveriam ser feitas com honestidade intelectual, quer dizer, que as pessoas fariam a disputa, mas jogando limpo, não inventando calúnias, não mentindo, não distorcendo. Mas isso é um ideal, nunca foi assim.

Eu acho que as coisas melhoraram por um lado e pioraram por outro. As novas tecnologias da comunicação e da informação permitem que a gente faça a disputa narrativa, desmascarando as meias verdades ditas em alguns meios de grande alcance, denunciando sua cobertura seletiva e apontando para a perspectiva, o lugar de fala onde essa mídia se situa. Porque os meios de comunicação de massa hegemônicos sempre conferiram a si mesmos um manto de neutralidade e objetividade que nunca existiu de fato, e que antes não podia ser denunciado ou disputado, e agora a gente faz a disputa. Claro que é uma luta de Davi contra Golias, sobretudo se considerar a quantidade de recursos na forma de anúncios que vão para grande mídia e a quantidade de recursos que vão para veículos, sites e blogs independentes. É uma luta inglória, mas ainda assim essa disputa narrativa hoje é travada. Então por um lado é bom, mas por outro é ruim, porque nem todos esses novos meios agem com honestidade intelectual. Muitos deles também permitem a propagação de mentiras.

Isso acontece no mundo inteiro, mas vou me concentrar no Brasil. No nosso país as pessoas ainda leem muito pouco. Podem ler bastante tuítes, posts, memes, mensagens de WhatsApp, mas leem poucos livros. Há um déficit de educação muito grande e, ainda que na era Lula se tenha ampliado o acesso à escola, o problema da qualidade do ensino não foi resolvido, ainda é muito ruim. Há um declínio do que a gente pode chamar de vida com pensamento, que é a capacidade de você pegar as informações e produzir conhecimento a partir delas. Então, nesse contexto, essas novas mídias também às vezes funcionam de maneira nociva, porque a pessoa vê um boato, sobretudo no WhatsApp, que não permite contestação, e ela passa adiante como se fosse verdade. E assim você vai destruindo reputações, cria consensos sustentados em mentiras e estimula o ódio. É uma situação complicada e eu não saberia dizer o que é pior: se as meias verdades, as manipulações e distorções produzidas por alguns veículos tradicionais, ou as mentiras deliberadas e as calúnias espalhadas nas mídias sociais, na medida em que estas permitem fazer disputa narrativa com a mídia hegemônica, mas ao mesmo tempo, se usadas com má fé ou burrice, fortalecem a disseminação da mentira.

O governo federal anunciou uma frente jurídica para tentar reagir a isso…

Eu acho que a Dilma e o Lula demoraram a reagir, e quando eu digo reagir não é ao internauta que vai para o Twitter insultá-los. Eu falo de colunistas que estão em jornais, e de jornais mesmo, que publicam mentiras. Eu tinha muito respeito, por exemplo, pela Folha de São Paulo, mas ele tem caído vertiginosamente, na medida em que o jornal tem aberto mão de fazer jornalismo e tem feito política — e da pior qualidade. Quando esse jornal publica uma ficha falsa da presidenta Dilma como se fosse verdade e não se retrata, não é processado e nem é instado a se retratar, tudo fica muito complicado. Essas pessoas precisam ser acionadas na justiça, o poder judiciário existe para isso. A gente tem que recorrer ao Judiciário e fortalecer o estado democrático de direito, onde a calúnia, a injúria e a difamação são crimes contra a honra que precisam ser punidos. Outro exemplo é o jornal O Globo, em que um jornalista estreia com pompa e circunstância com uma notícia mentirosa, que vira manchete. Como é possível o Globo se prestar a fazer jornalismo baseado em boatos, como fez contra o Marcelo Freixo, na época da morte do cinegrafista Santiago…

O estagiário do advogado que disse que o ativista teria afirmado para o primo uma ligação com o Freixo…

Pois é, a mídia tenta destruir a reputação de pessoas honradas a partir de boatos. Você não considera que essa pessoa tem mãe, filhos, família. Que egoísmo é esse que move os diretores de jornais que não respeitam isso? Podem dizer que eu sou ingênuo, mas eu quero um mundo de honestidade intelectual. Eu sei que tem grandes jornalistas trabalhando nesses veículos, e que os jornais têm a cara dos seus donos, não a cara de quem rala por eles. Essa é a verdade, sempre. Tem muitas pessoas ali que eu respeito, mas apesar desses grandes jornalistas, o resultado é ruim, o que é colocado em circulação é ruim para a democracia, para todos nós. A gente, como jornalista, tem que começar a reagir também, dizer que não pode, que tem que ter um mínimo de respeito pela verdade dos fatos. Deixar claro o que são fatos, o que é opinião e o que é linha editorial. Eu até poderia ler um jornal simpático aos tucanos ou ao PT, o que me incomoda é ler um jornal que se finge objetivo e neutro e, na verdade, está tomando partido o tempo inteiro.

O que achou da contratação de Kim Kataguiri para o site da Folha de São Paulo?

Quem?

Kim Kataguiri, um dos líderes do MBL, que defende o impeachment de Dilma nas redes sociais

Não sei quem é… mas o nome é engraçado, soa Kimta Katiguria (risos). Sei o que é o MBL, aquele “movimento” fake feito por meia dúzia de analfabetos políticos que, com o apoio de Eduardo Cunha e facções do PMDB, instalou-se em frente ao Confresso Nacional num acampamento, que era, na verdade, um cenário de barracas vazias para fingir volume e desfilava pelos corredores da Câmara constrangendo parlamentares progressistas e contrários ao impeachment com insultos gravados em celulares. Esse “movimento” é um sintoma do analfabetismo político e da hipocrisia que grassam na extrema direita brasileira. Quanto ao tal colunista a que você se refere, eu nada tenho a dizer além de que a vida é muito curta para eu ler qualquer coisa de alguém que pertença a um “movimento” com compreensão tão rasteira da política e que se alia a gente como Eduardo Cunha.

Você já processou algum jornal ou jornalistas?

Não porque nenhum deles entrou no terreno da calúnia e difamação comigo. Algumas figuras públicas entraram, imbecis, analfabetos políticos, como aquele ator… Como é o nome dele? Aquele ator pornô…

Alexandre Frota?

Alexandre Frota, e também aquele lutador, Wanderlei não sei das quantas. Dois analfabetos políticos que decidiram usar as redes sociais para espalhar mentiras e calúnias, para me insultar. Figuras públicas como essas eu acionei na justiça, colunistas nenhum porque nenhum escorregou para a calúnia; são sempre “análises” políticas, embora às vezes sejam desqualificações e insultos pessoais disfarçados. Na internet é bem mais complicado. Há uma rede subterrânea de caluniadores, perfis fakes, robôs… A rede difamatória opera dessa maneira: o perfil fake ou hackeado é a origem da difamação, depois vem uma série de perfis verdadeiros de “autoridades” políticas e religiosas que compartilham. Antes era só a quadrilha Bolsonaro que fazia isso, depois entraram Marco Feliciano, Silas Malafaia, e por fim o deputado Peninha, o delegado Eder Mauro, o Fernando Francischini e outros. Vou dar um exemplo: o delegado Eder Mauro pegou um vídeo de um discurso meu em que eu falava da forma em que os policiais são educados para acharem que um negro é mais potencialmente perigoso que um branco, e ele editou o vídeo, de modo que eu apareço falando: “Um negro é mais potencialmente perigoso que um branco”. E ele espalhou esse vídeo toscamente editado pelas redes, usando também alguns veículos de imprensa do Pará ligados a ele. Eu denunciei o caso na Câmara dos Deputados, outros parlamentares se solidarizaram comigo e ele reagiu ameaçando-os, dizendo que faria o mesmo com eles. Tem toda uma rede de parlamentares ligados à bancada evangélica fundamentalista e à bancada da bala que se juntaram numa agenda comum e decidiram me transformar em inimigo público, por meio da calúnia e da difamação mais descarada e deslavada. Num país que tivesse um estado democrático de direito de fato, eles já teriam sido destituídos de suas funções. Mas os processos estão em andamento, tenho que esperar os tempos da Justiça. Acionamos a Polícia Federal e demos elementos suficientes para a PF entender essa rede, com robôs e perfis fakes que derrubam páginas, lotam as caixas de mensagens com aqueles comentários medonhos, pavorosos. Você vai olhar é sempre o mesmo comentário com uma ou outra variação. É uma rede criminosa de difamação, então a gente deu todos os elementos para que a polícia vá adiante. A justiça pode ser lenta, a PF pode não ter um empenho em investigar, mas a provocação a ambos os órgãos sempre é feita, nunca deixo essas ações criminosas contra mim sem resposta.

Há também mentiras surreais circulando nas redes, como você ter apresentado um projeto de lei para modificar a Bíblia…

Sim, é muito absurdo! Eu tive que criar uma seção no meu site, “Verdades e mentiras”, que é fundamental, porque no meu caso a mentira cola por causa da natureza do meu trabalho: a agenda legislativa que eu toco, de direitos humanos e, especialmente, direitos das minorias. Esse trabalho me faz ir contra o senso comum e enfrentar preconceitos profundamente arraigados. Pelo contrário, quem reforça o senso comum e os preconceitos acaba tendo vantagem.

Eu tenho, por exemplo, um projeto para legalizar e regulamentar o consumo e comércio de maconha no Brasil, que prevê uma espécie de anistia para pessoas que estão presas apenas por vender maconha, mas não foram acusadas de qualquer crime violento. Muitas dessas pessoas são, na verdade, usuários que foram enquadrados como traficantes ou jovens, na maioria negros e pobres, que vendem pequenas quantidades de maconha, sem praticar a violência. O projeto explica tudo isso. Mas a difamação construída por meio de memes diz que eu quero anistiar traficantes como Fernandinho Beira Mar. É uma mentira deliberada, absurda. Eu também tenho um projeto de lei sobre identidade de gênero, que busca garantir direitos e dignidade humana a transexuais, garantindo documentação, garantindo o processo de adequação de sexo no SUS, acompanhado por equipe multidisciplinar. Ele estabelece critérios para o caso das pessoas trans com menos de 18 anos, que prevê o que pode ser feito ou não em diferentes fases de sua maturação, com a autorização dos pais ou do juiz, levando em consideração o que diz a legislação comparada, a convenção sobre os direitos das crianças e o ECA. É uma proposta muito bem fundamentada. Mas o que as calúnias espalhadas na internet dizem é que eu quero “obrigar” as crianças – e os memes falam em “crianças” e mostram imagens de meninos em idade escolar – a fazer cirurgia de mudança de sexo. Isso é um absurdo, só um completo imbecil pode acreditar.

A mentira sozinha não é crime, mas a mentira deliberada com o propósito de difamar alguém sim. Dizer que eu fiz um projeto de lei para alterar a Bíblia é uma mentira descarada – aliás, é algo impossível, além de ridículo – com o propósito de me difamar. E muita gente compartilha sabendo que é mentira, porque não gosta de mim. Por eu ser homossexual assumido, orgulhoso da minha homossexualidade, por eu ocupar uma posição de poder e prestígio num pais homofóbico que sempre buscou alijar os homossexuais de direitos e de espaços de representação. É uma mistura disso tudo, por isso sou alvo de tanto ódio. Então eu criei essa seção no site para que as pessoas saibam o que os projetos realmente dizem, porque eu não vou negar que defendo a legalização da maconha e do aborto, defendo sim, mas tem que falar a verdade sobre o que os projetos dizem. Tem pessoas que me odeiam por defender essas pautas, não conseguem ouvir sequer os argumentos, e é um direito delas me odiar por isso, mas não é direito delas mentir e difamar, então essa seção é a fonte segura para saber o que eu defendo, e não o que você recebeu por WhatsApp ou leu no Facebook.

Nessas redes não tem direito de resposta…

Na prática, não, porque a calúnia circula com uma velocidade muito maior do que a verdade. Quando a gente fica sabendo, a gente avisa que a pessoa deve apagar. A maioria apaga, mas não pede desculpa, nem diz que o que tinha compartilhado era mentira. E tem aqueles que não apagam, mesmo depois de avisadas, deixam lá para que outros passem adiante.

A mentira maldosa, a que destrói, esculacha, tem uma sedução que interpela a nossa metade maldita, que está em todos nós. Para lembrar o poema de John Donne: só mesmo muita luz, muita razão, muita reflexão podem fazer com que a gente pise na nossa sombra como se estivesse no sol do meio dia. Ao meio dia ela é exatamente uma bola sob os nossos pés, então a sua parte maldita está controlada. Quando não tem luz, a sombra do ódio ganha força, e é o que vem acontecendo no Brasil, inclusive porque a maioria das pessoas tem problema em contestar a mentira, porque não querem se indispor com um tio fascista, com uma tia que compartilha calúnias…

A lei que exime religiosos dos crimes de injúria e difamação é o passe livre para os discursos de ódio?

Claro que é. Esse projeto é um escárnio, porque inclusive é uma forma de assumir a culpa: se eles querem um salvo conduto é porque estão reconhecendo que fazem e pretendem continuar a fazer. E não são sacerdotes budistas, rabinos, da umbanda, espiritistas, do Islã… são só alguns padres da direita católica e alguns pastores neopentecostais fundamentalistas com muito dinheiro para comprar horário de TV e eleger deputados. E eles já tem isenção fiscal, imunidade tributária, não pagam impostos, não são fiscalizados, o que permite que muitas igrejas sejam usadas para lavagem de dinheiro de diversas operações criminosas. E é importante que fique claro: não estou me referindo a todas as igrejas, nem a todos os pastores. Eu respeito muito o povo evangélico, eu tenho parentes que são evangélicos, são pessoas respeitosas, comprometidas com a boa fé, com a verdade, com o exercício da sua religiosidade sem afetar o direito alheio. A maioria é dessa maneira, mas tem uma minoria arrebanhada por esses pastores aos quais eu me refiro, muito poderosos, muito ricos, que querem salvo conduto para injuriar e difamar minorias sexuais e outras minorias religiosas.

Há chance de esse projeto ser aprovado?

Eu espero que não, mas considerando o Congresso Nacional que nós temos, tudo é possível. Considerando que Eduardo Cunha, formalmente denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, intimidação, continua presidente da Câmara, tudo é possível.

Você escreveu o prefácio do livro “Como conversar com um fascista”, da filósofa Márcia Tiburi. Como é possível esse diálogo?

Nós temos que insistir no diálogo. A Márcia gosta muito da metáfora do muro: por mais que não seja uma janela ou uma porta, a gente tem que cavoucar o muro, abrir brechas nele; temos que insistir no diálogo com o fascista. Não estou falando de pessoas como Bolsonaro e outros, que são os mentores, os que articulam a difamação fascista, manipulam o ódio das pessoas, lucram e garantem seus privilégios de poder por meio do fascismo. Eu estou falando do fascista médio, a pessoa que vai se contagiando por ser interpelada em seus preconceitos. Com esses nós temos que insistir no diálogo, por mais que seja doloroso. Com os mentores não tem diálogo, porque eles fazem de maneira deliberada. Eles sabem o tanto de privilégio, dinheiro e poder que acumulam por conta dessa agenda fascista. Eles não vão mudar. Com essas pessoas nós temos que usar os instrumentos que nos cabem no estado democrático de direito, como fez a deputada Maria do Rosário. Foi importantíssimo o processo que ela moveu contra o Bolsonaro, e ele já foi condenado na justiça comum. Então, com esses, a Justiça, mas com os que são manipulados por eles, eu acho que vale a pena insistir no diálogo, cavoucar o muro, tentar criar brechas para ver se um dia a gente consegue derrubá-lo.

A esquerda também parece dividida por muros, ou por questões como a do Passe Livre…

O Movimento Passe Livre é um movimento legítimo, e não se trata só de instituir o passe livre, mas de trazer um debate sobre mobilidade urbana. É um ator social importante e os gestores não podem ignorá-lo. Mas o MPL também não pode assumir uma postura fundamentalista, do tipo ou aceitam as minhas condições, ou não tem conversa. Eu acredito que a política é o diálogo, a metáfora da política é a mesa, que ao mesmo tempo que nos separa, nos reúne, para chegarmos a um acordo comum. Eu não acho justo desqualificar o MPL só porque ele está fazendo contestação a um prefeito petista — e a militância virtual petista age muito assim: “Quando é com nossos inimigos, tá tudo certo; quando contesta um gestor petista, aí vem as acusações: auxiliar da direita, não bate no Alckmin…”

Eu, por exemplo, sou contra o processo de impeachment da Dilma, e quando eu falo isso, sou aplaudido e elogiado pelos petistas. Já quando eu critico o governo Dilma por todas as concessões que vem fazendo à agenda neoliberal, ou por como tem tratado os povos indígenas, ou por ceder tão facilmente às pressões da bancada fundamentalista, a militância petista age como milícia virtual e bate em mim. E não me refiro a “bater” no sentido de contestar os argumentos, mas no sentido de tentar me destruir. Fazem ataques pessoais e as vezes recorrem as mesmas calúnias e mentiras que a direita usa nas redes. A mentira e a calúnia servem à direita, mas também à “esquerda”, entre aspas, por ser só uma parte da esquerda. Que também sabe ser histérica, autoritária, mentirosa, apelar para o ad hominem. E eu não estou livrando o PSOL disso não, há pessoas no PSOL que também agem assim. Enquanto você está em sintonia com o que a maioria do partido defende, você é elogiado, mas se contesta passa a ser desqualificado. Veja por exemplo a minha viagem a Israel.

Iria novamente?

Sim. Eu fui a convite da Universidade Hebraica e de ativistas da juventude de esquerda da comunidade judaica do Rio de Janeiro — alguns deles, inclusive, militantes do PSOL. Fui convidado como membro das esquerdas brasileiras para proferir palestras, e também fui para me aprofundar no tema do conflito Israel-Palestina, que sempre me interessou muito. Esse convite foi feito por intelectuais de esquerda e a ideia era colocar as esquerdas em sintonia, era dizer que os israelenses não são um bloco monolítico, que há uma esquerda contrária ao governo Netanyahu, contrária à política belicosa de Israel, contra à ocupação de territórios palestinos e à violência, aberta aos refugiados, inclusive refugiados LGBTs palestinos, que não podem gozar da sua liberdade em lugares como a Gaza, controlada pelo Hamas, que é fundamentalista, fanático, terrorista, que não admite a homossexualidade e pune os homossexuais. O convite tinha então esse propósito. Mas embora fosse assim, e minhas posições fossem claras, sempre criticando o governo israelense, que beira a islamofobia, que viola direitos e mesmo tratados internacionais, apesar de eu dizer isso tudo, no Brasil, as pessoas na esquerda estavam me xingando. Não eram ataques da direita judaica, a direita judaica até me atacou, mas não tanto quanto essa esquerda.

A esquerda que defende o boicote a Israel?

Sim, mas foda-se o boicote, eu não sou obrigado a aderir a um boicote, não acho que o boicote seja eficaz nesse sentido, não acho que a gente tenha que estigmatizar e punir um povo como um todo. Isso é antissemitismo disfarçado. A sociedade israelense é complexa, não podemos achar que todos os israelenses apoiam as ações criminosas do exército de Israel, como não podemos achar que todos os palestinos apoiam as ações criminosas do Hamas. E assim como há intelectuais judeus de esquerda que não moram em Israel e são favoráveis ao boicote, outros são contrários. É complexo, e eu estudei o assunto, eu visitei o lado israelense e o lado palestino, estive na Cisjordânia, num campo de refugiados palestinos, fui tomar café na casa de um ativista palestino que conheceu Arafat na prisão, conversei com os dois lados. Eu sou a favor da paz e da solução dos dois estados, que as fronteiras voltem às linhas originais com as correções que precisem ser negociadas por ambas as partes. Sou pelo fim da ocupação dos territórios palestinos por Israel e, também, tenho todo o direito de ser contra o boicote contra Israel, e exigir de mim o contrário, pela via da força, da intimidação, do insulto, é uma atitude que não condiz com o que eu acredito.

Mas tem acontecido muito…

Sim, como teve o cara que foi insultado no avião porque estava lendo a Carta Capital. O outro se achou então no direito de ir lá e ofendê-lo, intimidá-lo. Quer dizer, a gente pode ver gente segurando um lixo, um panfleto ordinário como a revista Veja, mas tem que respeitar o direito dela de consumir aquilo.

As campanhas de ódio estimulam as pessoas a não limitarem sua agressão às mídias sociais, elas levam a agressão agora para as relações analógicas, reais, elas encontram pessoas na rua e saem xingando. Uma interpelação violenta não porque a pessoa cometeu algum crime, mas porque ela defende uma posição ou porque ela gosta de alguém que a outra não gosta. A gente já viu isso acontecer na Alemanha nazista. Como as pessoas foram aceitando os insultos antissemitas, a homofobia, foram sendo cegadas pelo ódio, se fechando ao conhecimento. A pessoa acha que está com a razão absoluta, então age, ela não tem controle. E a mídia hegemônica tem grande culpa nisso que está acontecendo. Mas depois não adianta reclamar em editoriais inflamados, quando alguém for morto por conta de tanto ódio disseminado.

A classe média é mais propensa a discursos de ódio?

Eu não quero estigmatizar a classe média. Tem muita coisa bacana que vem da classe média, o Movimento Passe Livre é um exemplo. É um movimento feito pela classe média, por meninos da classe média, que podem nem pegar ônibus, mas são solidários com quem pega. Que entendem que a mobilidade urbana é um problema de todos nós. Mas o que eu posso dizer é que parte da classe média é mais propensa a assimilar as meias verdades disseminadas pelos meios de comunicação de massa como verdades absolutas. Há nela um terreno propício a discursos que interpelam e fortalecem preconceitos. E eu falo da antiga classe média, mas infelizmente esse sentimento está vazando da antiga classe média para a nova, a chamada classe C. Aquele discurso, inclusive anti-petista, que estava mais localizado na classe alta e média alta, nos eleitores de Aécio Neves, agora já está no antigo eleitor petista. Isso é um triunfo da grande mídia tradicional, mas também um fracasso da forma de mobilidade social que existiu durante os governos do PT, baseada apenas no aumento do consumo, que hoje é afetado pela crise que as políticas econômicas dos últimos anos produziram.

É um triunfo, também, da Lava Jato e da Polícia Federal?

É importante que façamos uma distinção: uma coisa é a investigação em si e outra seu uso político e a forma em que é divulgada. A investigação é importante. Todos os corruptos devem ser punidos e tudo o que for descoberto tem que ser julgado e a sociedade tem direito a saber. Nesse sentido, eu acho a “lava-jato” importante e positiva. Contudo, acho também que ela tem priorizado, do ponto de vista da divulgação e do vazamento de informações, certas pessoas e certos grupos, e poupado outros, que estão igualmente implicados na operação, inclusive indiciados ou citados. É como se o estado de direito e as garantias fundamentais existissem para um grupo e não para outro. Para esse aqui pode se fazer espetáculo televisionado, pode invadir a casa, prender a mulher que não tem nada a ver com a história, mas que foi confundida com fulana de tal e você então leva presa, humilha publicamente, põe na televisão, destrói tudo, e fica por isso mesmo, como se isso fosse justo. Então para essas pessoas aqui o estado de direito não existe, eu posso então violar garantias fundamentais, o tempo do judiciário, posso vazar informações, expô-las na TV, deixar que o jornalista as destrua, culpá-las por males que são históricos. Já essas aqui não, e eu vou protegê-las de acordo com a lei. Elas estão indiciadas, foram citadas, há elementos contra elas, mas nós vamos poupá-las porque a lei diz que não podemos expô-las. Então estamos vivendo dois pesos e duas medidas. Sempre numa relação com os meios de comunicação de massa. E isso tem a ver, é claro, com a disputa política. Esses meios de comunicação estão fazendo política, não jornalismo, deliberadamente, como sempre foi.

Talvez a gente esteja vivendo um debate mais acirrado porque os tempos são outros, porque a internet nos permite fazer o debate. Houve um tempo em que sequer o debate podia ser feito, o que o jornal publicava estava publicado e pronto, não adiantava nem mandar carta do leitor, que eles também não publicavam, ou publicavam um trechinho. Então eles deitavam e rolavam e configuravam sozinhos aquilo que a gente chama de opinião pública. Hoje a opinião pública é disputada por nós nas mídias sociais, nos veículos alternativos, na mídia independe, e a esfera pública está reconfigurada por essa atuação. Eu prefiro viver nesse tempo, do que no tempo em que a gente não podia contestar. Ainda que haja meias verdades, haja seletividade na cobertura, que bom que a gente pode apontar isso.