Dor e revolta em SC no caso do herdeiro da RBS que atropelou e matou um funcionário da Renner. Por Aline Torres

Sérgio Teixeira da Luz, morto no atropelamento

Sérgio Orlandini Sirotsky, herdeiro de um dos maiores conglomerados de comunicação do país, a RBS, dirigia o Audi A3 da empresa que é sócio. Sérgio Teixeira da Luz andava a pé, trabalhava nas lojas Renner.

Tinham o mesmo nome, herdado dos pais, e diferenças que se alargaram. Um faz planos para estudar no exterior, o outro está sepultado no cemitério Jardim da Paz.

O último resultado publicado pela RBS foi em abril de 2016, um mês após a venda das operações em Santa Catarina para o grupo NC, do empresário Carlos Sanches, e para  Lirio Parisotto, famoso pelo episódio da agressão a sua ex Luisa Brunet. Totalizou R$ 1,1 bilhão de faturamento e lucro de R$ 132,5 milhões

Sérgio Teixeira da Luz não queria sair naquela noite. Seus amigos insistiram. Seria a 3° edição da Big Bang, festa das turmas de Economia, Educação Física e Nutrição da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), promovida pelo Music Park, no bairro mais badalado e requintado de Florianópolis, Jurerê Internacional.

Lá ele encontraria os amigos da Renner e da UDESC (Universidade Estadual de Educação Física), onde cursava Educação Física. Por outro lado, seus amigos de infância iriam para uma balada no Centro.

A dúvida terminou quando Sergio optou por ir prestigiar um amigo DJ que tocaria na Big Bang. Sérgio tinha o carro, mas foi de carona com um amigo para não dirigir. O plano era voltar de Uber.

Seu amigo Rafael Machado da Cruz, no entanto, resolveu economizar e pegar o transporte público. Sérgio foi acompanhá-lo até a parada. 

Ao lado de Rafael e Edson Mendonça de Oliveira, ele caminhavam pelo acostamento. Eram 5h30.  O motorista do ônibus que eles pegariam assistiu a cena – é testemunha.

Sérgio Sirotsky atropelou Rafael, Edson e Sérgio e fugiu sem ajudar as vítimas na rodovia batizada com o nome do seu tio-avô, fundador do Grupo RBS.

Caído no asfalto, um segundo carro atropelou Sérgio Teixeira da Luz. De acordo com as testemunhas, Eduardo Rios, 25 anos, desviou de Sérgio, mas atropelou Maycon, que prestava socorro à vítima

Maycon teve ferimentos leves, não ficou hospitalizado. Eduardo Rios pagou R$ 2,8 mil de fiança e foi liberado da prisão em flagrante.

Edson fraturou o braço e machucou as pernas. Rafael se recupera em casa, está em choque e ainda não sabe da morte do amigo. Sérgio não resistiu às fraturas nas pernas, costelas, mandíbula e às perfurações e cirurgias  nos pulmões.

Havia cerca de 400 pessoas no velório. Chovia fino. O assunto era um só. Sérgio Sirotsky. As pessoas estavam incrédulas e revoltadas.

Diversas vezes foi relembrado o caso do estupro que chocou Florianópolis em 2010. Sérgio Orlandini Sirotsky tinha 14 anos. Em seu apartamento, ele e dois amigos, um deles filho de um delegado, doparam uma colega do tradicional Colégio Catarinense e a estupraram.

Um controle remoto foi enfiado na vagina da adolescente, aponta o laudo. De acordo com o jornalista e blogueiro Mosquito, que cobriu o crime na época, abafado pela mídia local e nacional, eles a estrangulavam quando a mãe de Sérgio entrou no quarto, Ela começou a bater no filho, mas resolveu protegê-lo.

Sérgio Orlandini Sirotsky, herdeiro da RBS, o atropelador

Segundos as informações de Mosquito em seu site Tijoladas, ela vestiu a menina desacordada, enrolou um cachecol em seu pescoço para esconder as marcas e ligou para seus pais dizendo que ela tinha exagerado na bebida.

Os pais a levaram para casa desacordada e quando ela despertou começou com um choro compulsivo e a falar palavras desconexas. Ficou internada no Hospital Infantil e nunca quis conversar com a imprensa.

Após sete anos, procurada pela reportagem, preferiu não comentar o caso. Mosquito foi encontrado enforcado na casa onde morava em 13 de dezembro de 2011. A polícia não encontrou nenhuma ligação com a denúncia.

Ao que parece, o caso dos atropelamentos também está longe de uma resolução. O delegado que conduz o inquérito pela 7ª DP, Otávio César Lima, explica que há duas hipóteses: culposo ou doloso.

A Polícia Civil também não pediu perícia do local do crime. O delegado justificou que “até por falha técnica, não sei por quê, mas não foi solicitado”.

Quando Sirotsky não apareceu na delegacia para prestar depoimento no dia combinado, Otávio César Lima justificou que não expediu um mandado de prisão temporário porque acreditava que ele não fugiria.

Ele também comentou para uma repórter que “estava feito corno. Sabia das informações por último, pelos jornais”.

Sérgio Teixeira da Luz era o filho do meio. Se espelhava no irmão mais velho, Leonardo Schmitt, que trabalhava com eventos, e era muito próximo ao mais novo, Gean. Eram parecidos no jeito e no físico.

Ele começou a trabalhar desde cedo. Era independente. Além de operar como fiscal na Renner, trabalhou como bartender no beach club Taikô, de Jurerê Internacional,  estudava na UDESC e tinha passado no vestibular para Manutenção Automotiva no IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina).

Seu irmão Leonardo disse que ele “era um rapaz do bem. Bom filho, bom irmão, bom amigo. Trabalhador, honesto e que se orgulhava de ser independente”.

Rafael Machado, 23, seu amigo de infância, disse que ele era “muito esforçado e batalhador. Sempre alegre, com suas piadas sem graça e amigo de todos”.

“Ele era o tipo de cara que quando se fazia uma festa ele não ia para casa antes de ajudar na limpeza, não deixava ninguém na mão, era responsável, bom”, concluiu.

De fato, Sérgio tinha muitos amigos. Com exceção dos pais, tios e alguns parentes mais velhos, o cemitério estava repleto de jovens, que aguardavam na chuva as palavras finais do padre.

Um Pai Nosso e uma Ave Maria.