“É a história da covardia política que continua até hoje”, diz Aldo Fornazieri sobre crise das esquerdas

Fornazieri no lançamento do livro “A Crise das Esquerdas” em Porto Alegre

Publicado no Sul21.

POR FERNANDA CANOFRE

“O que houve com a esquerda no Brasil e no mundo cem anos depois da Revolução Russa? Qual a origem da sua crise? A democracia foi capturada por um sistema único? Esgotou-se o pacto de conciliação? Teremos um destino comum? E a tensão entre igualdade e liberdade? Qual o espaço da ética no mundo político? E da utopia?”.

Essas são algumas das questões que norteiam o livro A crise das esquerdas, organizado pelo cientista político Aldo Fornazieri e pelo sociólogo e psicanalista Carlos Muanis. A obra, que traz entrevistas e artigos sobre o papel da esquerda no cenário político atual, teve o lançamento em Porto Alegre realizado neste sábado (05), com participação do público.

O livro reúne conversas com nomes que vão desde o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, passando pelo ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro (PT) e pelo atual diretor-executivo do Instituto Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Fausto.

A ideia do projeto é centrar a discussão nos erros realizados até aqui pela esquerda brasileira, depois de 13 anos de governos do Partido dos Trabalhadores, e na América Latina. Marina Silva, líder e fundadora da Rede Sustentabilidade, que começou a carreira no PT e foi ministra de Lula, chegou a ser convidada para participar, mas declinou do convite.

Aldo Fornazieri conta que o livro nasceu de discussões em um simpósio da Escola de Sociologia e Política, do Instituto Novos Paradigmas (INP), já com a ideia de levantar questões, sem se prender a conclusões. “Nós percebemos que o debate na esquerda estava bloqueado. A esquerda parou de pensar. A ideia da crítica e auto-crítica, que era muito cara à esquerda do final do século XIX e do século XX, desapareceu. Aquele que faz a crítica hoje é bastante estigmatizado”, afirmou ele. Fornazieri disse que ele mesmo é alvo desse estigma.

E ele não poupou críticas o PT. Para Fornazieri, a postura assumida pelo partido antes e depois de consumado do impeachment de Dilma Rousseff é “covarde”. “É a história da covardia política que continua até hoje. Porque no fundo, o PT não quer a saída do Temer do governo”, disse ele.

O analista político destaca que a esquerda atual perdeu a dimensão da tragédia. Ela alimenta um discurso otimista, quando na verdade, deveria estar voltada ao discurso republicano que salienta problemas. Um exemplo disso seria a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à presidência, no ano que vem, como uma espécie de “bala de prata”.

“Menos Marx e mais Maquiavel é a palavra de ordem que estamos lançando agora”, ironizou Fornazieri. “A esquerda deveria resgatar retórica jeremia, que dê mais ênfase à advertência do que à promessa. Se quiser construir alguma coisa com mais seriedade, temos que dar mais ênfase a advertência. A palavra ‘jeremia’ vem de Jeremias, que avisou os hebreus. [Temos que avisar] de que nossos erros e falhas vão manter a dominação e vão ser a destruição do mundo. Nos subordinamos, dizendo que só se enfrentarmos esses desafios é que conseguiremos chegar a uma terra prometida”.

Na análise de Fornazieri, o problema das esquerdas também está numa retórica que se transformou em “despotencializadora” a partir do momento em que não se atualizou. Por isso, há hoje tantos jovens interessados em política – fazer e discutir – mas cada vez menos deles quer fazer parte de um partido. O fato de que o Brasil não possui o que ele chama de “terror fundante” em sua História – um momento de ruptura, onde “rolem cabeças” e se crie algo verdadeiramente novo, contribui para isso.

A independência do Brasil foi proclamada pela própria Coroa portuguesa e não por seu povo; a República veio com um Marechal imperialista em cima de uma cavalo. E o governo Lula teria sido último momento de “bestialização da política”, na sua visão, por unir trabalhadores e um projeto que se queria de esquerda a tipos como Paulo Maluf (PP).

Citando Francis Fukuyama com sua teoria – já refutada por ele mesmo – de como chegamos ao fim da História, Fornazieri defendeu que chegamos ao fim da luta sistêmica. O sistema único do capitalismo já comporta todo o resto dentro de seu contexto. Mesmo as lutas que a esquerda trava hoje, são todas dentro do sistema capitalista. E ele aprendeu a fazer da esquerda e suas demandas por uma visão social o que sustenta a aparência de pluralidade.

“A esquerda não coloca mais a questão da luta pelo poder no campo sistêmico. Tanto pensador de direita, quanto de esquerda concordam com essa tese. Existem lutas plurais dentro de um único sistema, o que estabelece uma crise de pressuposto. Um pressuposto que não funciona mais é o da luta de classes. A classe é constitutiva de uma alternativa? Digo que não”, explica ele.

Fornazieri lembra que nem o próprio Karl Marx chegou a definir claramente o que entendia por “classe”. Em alguns momentos de O Capital, ele trata como categoria analítica, em outros como elemento empírico no sistema de produção, e por fim como sujeito político.

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