“Eles só não tiraram o Temer ainda por falta de um nome para pôr no lugar”, diz Gleisi Hoffmann ao DCM

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POR RIBAMAR MONTEIRO, de Brasília.

Recém-eleita a primeira presidenta do PT, numa disputa contra o colega de bancada Lindbergh Farias, a senadora Gleisi Hoffmann falou ao DCM sobre os planos do partido, a possível prisão de Lula e a mídia.

DCM — O PT tem alguma estratégia para caso o Temer não saia do poder até 2018?

Senadora Gleisi Hoffmann — O PT trabalha com a bandeira prioritária da saída do Temer. Tanto que aprovamos no Congresso Nacional do partido a bandeira “Fora, Temer”. Achamos que esse governo não tem condições de governar o Brasil. Não tem legitimidade, pelo voto, e politicamente está vivendo uma crise institucional sem precedentes. Ao invés de estarem preocupados com o Brasil estão preocupados com a própria defesa. Não tem jeito de melhorar o País nessa situação. Ele tem que sair.

E entendemos também, de maneira muito clara, que a substituição dele tem que ser feita por eleição direta. Tanto que o PT afastou completamente a possibilidade de participação do partido num processo de colégio eleitoral, de eleição indireta. Não participamos em 1985, que era para acabar com uma ditadura, imagina participar agora para continuar um golpe.

Obviamente que para ter esse resultado temos que ter acúmulo político de articulação, com a sociedade, por isso temos participado muito de articulações com os movimentos sociais e com outros partidos de oposição e centro-esquerda. Lançamos ontem a “frente ampla nacional pelas eleições diretas”, com PT, Psol, PSB, PDT, PC do B, já confirmados, e representações de entidades da sociedade civil.

Como articular a esquerda neste momento, em que existem diferenças e críticas ao PT, muitas vezes abertas, como é o caso do Psol, juntamente com a busca por uma união em torno de uma pauta em comum, que é a diretas já?

Acho que o que tem que nos unificar são causas, bandeiras. Me parece que a “diretas já” é uma bandeira ampla e radical que unifica a esquerda e a centro-esquerda. Então, é o início para que comecemos a conversar.

E como transformar isso em força política concreta para aprovações de projetos de interesse da esquerda, por exemplo?

Da forma que estamos iniciando essa união. O PSB tem puxado o movimento por meio do senador João Capiberibe, o que eu acho muito importante. Diria que é um primeiro passo para discutirmos outras pautas que possam nos unificar. Não adianta a gente achar que a partir daí sairemos todos unidos para todos os temas. Não é assim que acontece. A gente tem uma construção política.

Um acúmulo para poder trabalhar uma unidade mais efetiva. Acho que é um início. E nós também não podemos deixar de contar com pessoas de outros partidos que podem nos acompanhar. O PMDB, por exemplo, é um partido que dá sustentação ao Michel Temer. Mas existem figuras, como o senador Roberto Requião e a senadora Kátia Abreu, que dialogam conosco em várias bandeiras e que têm ajudado na construção de uma resistência no Congresso. É nisso que temos de avançar.

Como se daria a saída do Temer, que disse que não renuncia? 

Vamos ver o resultado do TSE. Em todo caso, qualquer movimento que tenhamos em termos de composição de governo será reflexo do acúmulo de forças das ruas. O Temer ainda tem uma boa base no Congresso Nacional, ele deve a esse Congresso o fato de estar na Presidência, presta contas e negocia com os parlamentares.

E acho que só não tiraram o Temer ainda por falta de um nome para colocar no lugar dele. Nisso o governo foi eficiente, porque não deixou surgir um nome para substituir Michel Temer. Ele está se segurando por esse motivo. Só que é um governo morto, com 3% de aprovação. Está na margem de erro. Ou seja, não tem como se sustentar por tanto tempo. Por isso temos de estar preparados para fazer essa sucessão.

Mas de forma prática, como ele sairia? Tem o julgamento do TSE, a renúncia e agora a operação Patmos, que pode resultar numa denúncia contra o Temer pela PGR…

O do TSE é o mais próximo, mas depende do nível de pressão popular e de deterioração desse governo. Acho muito difícil conseguir se firmar e ficar até 2018.

E no caso de a PGR apresentar denúncia, acha que a Câmara autoriza investigação contra o Michel Temer?

Difícil prever, mas a Câmara é muito porosa quanto às pressões sociais, ainda mais em ano eleitoral. Então vai depender muito da pressão popular.

Acha que Lula pode ser preso?

Se fizerem isso é um atentado à liberdade do ex-presidente, ao estado democrático de direito e ao devido processo legal. Vamos defender o Lula de forma muito incisiva. Aliás, se fizerem qualquer coisa para impedir que o Lula participe de um processo eleitoral, livre, direto, não vai ser uma eleição democrática, vai ser uma fraude.

Terça-feira (6) foi divulgada pesquisa do Vox Populi que mostra a liderança de Lula na disputa para presidente, em todos os cenários, na pesquisa que apresenta nomes e na espontânea. Quando perguntam “acha que o Lula pode ter envolvimento com o escândalo da Lava Jato?”, muitos dizem que sim, segundo a pesquisa, mas acreditando também que há excessos na Lava Jato e perseguição política. Então, o que tem na cabeça das pessoas é um legado. Querer impedir o Lula de participar de uma eleição é levar um processo eleitoral para a fraude e nós não vamos aceitar isso.

Como presidenta do PT pretende fazer a chamada guinada à esquerda?

É uma nova fase do partido. Não é uma questão de guinada à esquerda. Quando éramos governo, construímo-nos a partir dos movimentos sociais, acumulamos força, tínhamos uma visão de desenvolvimento do país. Acho que faltou uma visão mais sistemática sobre os movimentos sociais. Ficou mais institucional.

Agora, fora do governo, a gente retoma essa pauta, com as experiências que tivemos de ser governo, considerando os avanços e as dificuldades, erros que verificamos, para que possamos corrigir isso e fazer uma aproximação muito efetiva com os movimentos sociais, sindicais, com as ruas do nosso país, que é o nosso papel, agora com uma experiência maior.

E já estamos fazendo isso na prática, desde um pouco antes da saída da presidenta Dilma o partido estava já com um diálogo mais sistemático com as representações. Hoje, participamos da Frente Brasil Popular, das atividades de rua, processos de greve, movimentações. Então, de certa forma, isso já está acontecendo.

Tem como avançar com a democratização da mídia estando no poder?

É uma necessidade.

E como fazer, com tanta pressão da Globo e da grande imprensa em geral?

Fazendo uma regulação do mercado de mídia. Existem legislações avançadas nesse sentido, como a inglesa, a francesa, a argentina. Temos que começar a discutir isso. Não estou interessada no que a Globo vai falar ou deixar de falar, linha editorial desse ou daquele jornal. Estamos em um país livre, cada um fala o que quer. Claro que há consequências sobre o que vai dizer, mas cada um diz o que quer. Não é esse o foco. Agora, não pode o mesmo grupo dominar, por exemplo, 80% dos meios de fazer comunicação. Isso fere a democracia.

Então, esse é um assunto prioritário para um próximo governo de esquerda, um próximo governo em que o PT esteja na coordenação. Assim como a regulação do mercado financeiro. Podemos não ter tido acúmulo de força para agir de forma mais incisiva quanto a esse tema, no passado, mas aprendemos bastante sobre o que isso significou para as conquistas da sociedade, principalmente dos trabalhadores, da população mais pobre, que está vendo agora os seus direitos sendo desmontados, com o apoio dessa mídia oligopolizada.

Numa possível volta do PT ao poder, como não fazer o jogo do empresariado, do mercado?

Acumulando forças de apoio popular. Tem que ter uma base de apoio grande da sociedade, fortalecendo alianças da esquerda, conversas com setores específicos da comunidade. Não é fácil, tem que trabalhar muito, mas é o caminho, acúmulo de forças. É impossível dizer que vai chegar ao poder sem alianças para a governabilidade, num contexto social como o brasileiro. Mas toda aliança é construída pelo acúmulo de forças que se tem. Estamos num momento de acumular forças e não discutir alianças.

Existe uma estratégia do partido para combater o discurso da mídia?

Temos que fortalecer o que chamamos de alternativa à mídia oligopolizada, não é nem mídia alternativa. Que são vocês do DCM e outros tantos veículos de informação mais independentes. Como líder da bancada no Senado, eu já tinha feito conversas com todos esses setores e dado preferência em termos de articulação e pauta. Farei a mesma coisa no PT. Não deixarei de dar informação, quando solicitada, à mídia tradicional, seria antidemocrático da nossa parte, mas a preferência de articulação, de passar informação, vai ter com essa alternativa à mídia que temos.

Como unificar o PT, um partido com tantas vozes, diferentes opiniões e visões dentro do campo da esquerda?

A diversidade é uma marca do PT. Nos construímos a partir dela e sempre conseguimos ter unidade de ação nos principais momentos da política brasileira. Isso é uma riqueza, não um defeito. Dificilmente você tem partidos que tem essa riqueza interior, que faça debates, que discuta a política, dispute posições. E o Congresso que tivemos agora foi muito positivo, porque demonstrou uma unidade tática na política, do partido. Fazia tempo que não tínhamos essa construção de pautas tão claras: Fora, Temer, diretas já, não ir ao Colégio Eleitoral e a formação de uma constituinte soberana.

O PT é a favor da convocação de uma constituinte soberana?

Sim.

Depois de uma eventual eleição direta?

Não discutimos ainda o momento disso, mas já temos a bandeira de que somos a favor de uma constituinte. Teríamos que discutir a forma como teria de ser implementado. Não definimos prazo, se depois de 2018 ou não, mas é uma bandeira. Estamos sempre nos desafiando, internamente, para mostrar resultados para a sociedade.

Figuras históricas do PT, como Olívio Dutra, por exemplo, fazem críticas aos caminhos que o PT teria seguido depois que chegou à Presidência. Como é visto isso?

Olivio Dutra é super importante para o partido, uma liderança histórica, amadíssimo no Rio Grande do Sul, muito respeitado. E ele tem todo o direito de fazer críticas, as pessoas têm o direito de fazer críticas. Dizer que o PT errou ou não errou, ok, qualquer organização comete erros, mas temos que analisar esses erros a partir de uma perspectiva de aprendizado e a partir disso fazer uma ação política renovadora.

Então, o Olívio nos ajuda quando aponta determinadas situações porque dessa forma temos condições de reorganizar, redirecionar e resgatar muitas coisas. O que não pode é só ficarmos falando de autocrítica, temos que olhar para frente. O povo espera de nós uma ação propositiva, um Brasil a ser construído daqui para o futuro.

Existe uma ideia também de resgate de antigos eleitores do PT, que muitas vezes se tornaram inimigos, disseminando inclusive discursos de ódio contra o partido?

Temos que resgatar. Claro que não vamos conseguir fazer isso com a extrema-direita, com a classe dominante, que tem ódio de nós pelo que representamos e fizemos por esse Brasil. porque essa gente tem ódio do povo pobre, trabalhador, acha que é só um detalhe no processo de desenvolvimento que eles pensam para o país, numa visão de desenvolvimento deles, a partir do umbigo deles. Ou seja, isso a gente não vai superar. Mas tem uma classe média, que teve simpatia pelo PT no passado e que hoje faz uma crítica, que temos que resgatar para o diálogo, mostrar que não é bem isso, que teve muita desconstrução em cima da imagem do PT, muita coisa que não era verdadeira, muita perseguição.

Então, temos que mostrar o que significa o Partido dos Trabalhadores para o Brasil, o que está acontecendo agora com a política, como essa gente que está no governo hoje, envolvida em escândalos, fez para prejudicar, desconstruir a imagem do partido. Por exemplo, o Aécio Neves, que dizia que tinha que acabar com “essa organização criminosa”, se referindo ao PT. E onde ele está agora? Então, quer dizer, quem apostava nisso, que falava mal do PT era quem fazia as maiores barbaridades.

Como vê a aprovação da proposta de reforma trabalhista na comissão de assuntos econômicos do Senado? É um respiro do governo Temer? 

Eles fizeram uma operação pesada para aprovar isso lá e mesmo assim não foi folgado para o governo, foi 14 a 11. Mudaram gente da comissão para garantir voto. Ou seja, do ponto de vista político, não estão com folga. E ainda temos mais duas comissões para passar a matéria, de Assuntos Sociais e Constituição e Justiça. Tenho esperança que a gente consiga articular para barrar essa reforma antes de ir a plenário. Se for a plenário, também estamos preparados. O governo está muito desgastado, temos de aproveitar isso.

José Dirceu está sendo ouvido?

José Dirceu foi uma grande liderança do partido, ainda é uma referência política importante. Avaliamos que durante o processo todo ele foi muito injustiçado, em termos de julgamento, avaliação e até de exposição à sociedade. É uma pessoa que sempre deu boas colaborações e continua dando. Outro dia escreveu um texto para a Folha de S. Paulo, até citei o artigo, que mostra uma visão bem atual do momento político.