“Entrei na igreja e rezei por ele”: o suicídio de Getúlio Vargas segundo Carlos Lacerda. Por Camila Nogueira

Lacerda (dir.) e Vargas (esq.)
Lacerda e Vargas

As frases abaixo, que compõem essa Entrevista com Escritores Mortos, foram retiradas do livro Depoimento, de autoria de Carlos Lacerda.

Em suas memórias, o senhor narra um encontro que teve, alguns dias antes do suicídio de Getúlio Vargas, com Café Filho, vice-presidente da República. O que houve naquela ocasião?

Nós nos encontramos no Hotel Serrador. Ao chegar, fui dizendo: “Olha, Café, penso que agora só há uma solução – você assumir a Presidência da República. Você foi eleito vice-presidente, e vice-presidente existe é para essas ocasiões”.

Qual foi a reação do vice-presidente? 

Ele disse: “Mas não… Antes tenho que cumprir um dever; vou sugerir ao presidente que nós dois renunciemos para encontrar uma solução. Eu não quereria ser Presidente nesse momento, à custa dessa crise”. E, se não me engano, ele conta em suas memórias que de fato sugeriu a Getúlio renunciarem os dois. O certo é que chegou a fazer um discurso no Senado sugerindo essa renúncia.

Qual a dimensão da campanha contra Getúlio? 

Esta aconteceu na televisão, nas rádios e nos jornais.

Havia a possibilidade de Getúlio sofrer um processo de impeachment? 

O impeachment era inviável porque a Constituição exigia um quorum que a oposição não teria de jeito nenhum. E o clima no próprio Congresso já era quase de assassinato. Aliás, houve um grande discurso do Afonso Arinos, exigindo a renúncia do Getúlio. O clima era de tal ordem que o Capanema subiu à tribuna para tentar defender o Getúlio e teve uma crise de nervos. Quer dizer, ninguém ousava, nem mesmo os seus melhores amigos, subir à tribuna para defendê-lo. O máximo que faziam era calar, ou falar fora do plenário. Mas mesmo assim o que não havia era quorum para o impeachment.

No dia 5 de agosto de 1954, o senhor sofreu um atentado encomendado pelo chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, Gregório Fortunato. Um de seus acompanhantes, o Major Rubens Florentino Vaz, foi morto. Até que ponto o atentado em questão contribuiu para o declínio de Vargas?

Acho que o atentado foi o foco central da crise militar, de uma crise que já se condensava. Com a autoridade do Presidente da República atingida, gravemente atingida, houve uma espécie de paralisação do país à espera do que ia surgir dali, de qual seria a solução. Toda a credibilidade do governo caiu por terra a partir do momento em que ficou provado que dentro do Palácio do Catete alguém teria inspirado o chefe da guarda pessoal de Vargas a cometer um assassinato, por acaso de um oficial da Aeronáutica. Isso tudo intensificou o movimento a favor da renúncia.

O que Vargas poderia ter feito?

Havia três caminhos – ou o Getúlio se impunha pela força e se tornava ditador de novo (mas dessa vez não tinha força militar a seu favor para ser ditador) ou saía, renunciava. O terceiro caminho era a deposição. Foi aí que ele optou pela renúncia. E, obedecendo a certos impulsos de ordem psicológica que não me compete avaliar, suicidou-se.

Onde o senhor estava quando soube do suicídio?

Quando soubemos que o Getúlio tinha renunciado fomos para a casa de José Nabuco, que estava repleta de gente, inclusive Afonso Arinos, líder da UDN. Abriram champanhe, começamos a comemorar. Até que, já de manhã, alguém telefonou anunciando o suicídio de Vargas. É evidente que houve aquele momento assim de não sei bem como definir o sentimento, em todo caso, não era um sentimento de alegria; era um sentimento de pena do homem, da tragédia humana, da tragédia pessoal do homem, de imaginar a agonia  em que um homem deve estar para chegar a dar um tiro no coração. Isso marca de modo curioso a diferença entre o caráter brasileiro e o caráter de outros povos.

Como assim?

Nos Estados Unidos, por exemplo, ou na França, toda vez que me falavam dessa história, nunca ninguém lamentava o suicídio do Getúlio, nem dizia coitado! Eles acham natural. Como com o Nixon. Acham naturalíssimo que o Nixon tenha sofrido o que sofreu depois de ter mentido ao país. No Brasil deu-se o contrário. Até em nós. No primeiro momento, eu mesmo disse: “Que coisa horrível terminar assim! Podia ter renunciado ou qualquer coisa, mas ficava vivo”. Alguém teve até essa frase: “Puxa, ele puxou a toalha debaixo da nossa festa”.

O senhor mencionou “impulsos de ordem psicológica” que, em sua opinião, poderiam tê-lo levado ao suicídio. Quais seriam esses impulsos?

Segundo muitos psicólogos, um dos elementos constitutivos do complexo de suicídio é o desejo de vingança. Não quero julgá-lo, isso não me compete – procuro julgar os vivos o mínimo possível, portanto não julgo os mortos –, mas é evidente que havia algum desejo de deixar depois dele um caos. Quer dizer, tirar uma desforra. O fato é que qualquer que tenha sido a sua intenção, o suicídio nos perturbou de uma maneira incrível. Lembro que saí com minha mulher, fui para casa e no caminho parei no Colégio Santo Inácio, entrei na Igreja e rezei por ele. Fiquei realmente comovido com o fato. Talvez porque estivesse aqueles dias todos sem dormir, virando noite e dia, a gente acaba com os nervos à flor da pele, num estado de exasperação nervosa.

Qual foi a reação do povo diante da morte do presidente?

Quando cheguei em casa estava começando o grande erro. O Café Filho assumiu logo em seguida o governo, mas largou as rádios de lado. E as rádios quase todas ainda nas mãos do pessoal do Getúlio, de dez em dez minutos se referiam à carta-testamento. Um texto bastante agitador, em cima de um acontecimento que perturbou todo mundo. Eu lembro que telefonei para Odilo Costa Filho, que assumiu a direção da Rádio Nacional, e disse: “Isso é uma loucura! Vocês estão jogando o povo contra o governo Café Filho. Vocês estão pondo o povo num estado de exasperação nervosa. E em cima do suicídio do Presidente da República, de um homem evidentemente estimado por uma porção de gente, com ou sem razão, não importa. Um povo emotivo e vocês deixam de dez em dez minutos isso ser irradiado acompanhado de música de fundo”. E, de fato, o povo começou a sair para a rua, aquela agitação toda. O cadáver de Getúlio exposto, visitado por inúmeras pessoas que choravam, pessoas que desfaleciam, que tinham ataques e chiliques.

O senhor é considerado indiretamente responsável pelo suicídio de Vargas. O que pensa disso?

O que tinha acontecido no Brasil era o que aconteceu no drama de Shakespeare. Não foi à toa que traduzi Júlio César. A mesma multidão que aclamava Brutus e os que mataram César, quando Marco Antônio fez seu discurso com o cadáver nos braços, pediu a morte dos que tinham assassinado César. Foi assim que passei de vítima a assassino de Vargas. Vargas, que num certo momento era, não digo odiado, mas desprezado pela maioria do povo, ao morrer, ou por sentimentalismo, ou por causa desse tipo de exploração, ou por um natural pudor nosso de continuar a atacar um homem que tinha se suicidado – nunca voltei ao assunto, por exemplo –, passou a ser o Júlio César de Shakespeare.