FHC precisou de 9 caminhões para despachar os presentes que recebeu na presidência

Postado em 9 de março de 2016 às 12:34 pm

Em 2010, a revista Época, ainda não aparelhada pelo antipetismo estridente, publicou um texto sobre como os ex-presidentes lidam com os presentes que receberam durante o mandato. FHC teve que recorrer a nove caminhões para carregar os seus ao sair do Planalto.

Um trecho da reportagem:

Fernando Henrique Cardoso se deparou com o mesmo problema há nove anos. Ele saiu de Brasília com nove caminhões de mudança e precisou de mais de um ano para fundar seu instituto, tempo em que recolheu fundos com a iniciativa privada para custeá-lo. Atualmente, o acervo é mantido no subsolo de um prédio no centro de São Paulo. O local foi equipado com controles de temperatura e umidade. Uma equipe especializada é responsável pela limpeza diária do arquivo. Outra se dedica à montagem de exposições e à manutenção do site. Tudo custa cerca de R$ 100 mil por mês. A maior parte dos recursos é obtida por meio da Lei Rouanet, de incentivo à cultura. Já a Fundação Sarney, em São Luís, no Maranhão, diz depender exclusivamente de doações de recursos privados para se sustentar. A administração dos acervos demanda uma quantidade considerável de trabalho e dinheiro, o que dificilmente permitiria aos ex-presidentes retirar-se da cena pública para uma aposentadoria tranquila, caso eles assim o desejassem.

Embora a lei obrigue os ex-presidentes a conservar e expor seus presentes, ela não diz quando isso deve ser feito. Isso explica por que, 18 anos depois de sua conturbada saída da Presidência, Fernando Collor de Melo ainda não organizou seu acervo. Ao voltar ao Senado em 2007, o ex-presidente decidiu se ocupar de seus documentos e presentes, abandonados na Casa da Dinda desde 1992. Muito do acervo se perdeu devido à umidade do lugar. Uma equipe agora trabalha para restaurar e organizar o que sobrou. Há alguns meses, Collor tentou captar recursos para o próprio acervo por meio da Lei Rouanet. Diante da má repercussão da iniciativa, ele desistiu de obter o dinheiro e tem evitado falar sobre o assunto.

Há quem veja pouco sentido em gastar fortunas na conservação desses objetos. “Há de tudo em meio a esses presentes, desde porcarias a coisas muito valiosas”, diz Danielle Ardaillon, do Instituto FHC. “Algumas coisas deveriam ser despachadas para bibliotecas em vez de ser mantidas pelo presidente. Fernando Henrique recebeu umas 60 Bíblias. Que importância tem manter todos esses objetos?” Danielle afirma que visitou muitas bibliotecas de presidentes americanos. Na do democrata Bill Clinton encontrou presentes semelhantes aos de FHC, que ela supõe serem iguais a alguns que Lula também ganhou. “Se todos têm um objeto igual, que significado ele tem para o país?” Baseada nos documentos do período FHC, Danielle tem tentado uma nova abordagem histórica. Criou uma exposição interativa sobre a economia brasileira para explicar o impacto do Plano Real nas contas nacionais. É um conceito alternativo ao dos museus, que mantêm objetos em redomas. A recente democracia brasileira ainda terá de rever o modo como conserva a história que produz. Enquanto a discussão toma forma, a história continua em movimento. Nem sequer foram despachados os objetos de Lula, os primeiros pacotes para Dilma já começaram a chegar ao subsolo do Palácio do Planalto.

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