Estudantes são presos por protestar contra a máfia da merenda. Os ladrões seguem soltos. Por Mauro Donato

Protesto na Assembleia Legislativa de SP (Foto de Lucas Martins)
Protesto na Assembleia Legislativa de SP (Foto de Lucas Martins)

 

Na tarde desta terça-feira, estudantes retornaram ao plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para cobrar a instalação de uma CPI que apure o esquema de propina na contratação de fornecedores de merenda escolar.

O que não havia dado certo antes, funcionou hoje. Infelizmente. Tanto o Coronel Telhada (PSDB), que havia dito não estar ali a troco de pão e mortadela, como o deputado Campos Machado (PTB), haviam passado a tarde inteira da sessão na semana passada provocando, atiçando a ira de professores e estudantes e feito ameaças de pedir intervenção de força policial.

Hoje, 1º de março, novamente o deputado Coronel Telhada provocou os jovens presentes nas galerias. Ao receber vaias, incitou os policiais a prenderem os mais ruidosos. Dois alunos (Renata Letícia e Douglas) foram imobilizados, detidos e levados para o 36º DP.

O PSDB e seu esquema de propinas faz de tudo para não ser investigado, ninguém até agora foi punido ou mesmo deu uma explicação razoável e quem vai preso é quem clama por justiça, por educação, por comida?

Desde a volta às aulas no início deste ano, cidades inteiras como Ubatuba, Americana, Caieiras, Franco da Rocha e mais dezenas de escolas da rede estadual de ensino da capital (resultando em pelo menos 90 mil alunos) estão recebendo a já famosa “merenda seca”: uma caixinha de 200 ml de achocolatado e um pacotinho com 5 biscoitos. Mas se reclamarem vão em cana.

Nesta mesma terça-feira soubemos que o governo Geraldo Alckmin cortou mais da metade (53%) do orçamento para o programa Ler e Escrever, voltado para o ensino fundamental (do 1º ao 5º ano). Bem avaliado por especialistas e professores, o programa inclui elaboração de materiais, formação e treinamento de equipes.

Tem mais. Pais informam encontrar dificuldade na hora da matrícula devido a superlotação (quando o governo diz haver queda na demanda) e fechamento de turmas (mais de mil salas foram fechadas segundo a APEOESP).

Professores alegam também que o contrato com a fornecedora Gimba foi cancelado, portanto, materiais de escritório, de informática e limpeza não estão sendo repostos. Muitas impressoras já estão inoperantes e eles reclamam da falta de estrutura para trabalhar.

Como pode tudo isso? Para professores e alunos não resta dúvida. É retaliação pura em decorrência da greve no primeiro semestre e das ocupações das escolas no segundo semestre de 2015.

Mas São Paulo parece viver a síndrome de Pollyana. Geraldo Alckmin levou o fornecimento de água à beira do colapso e ainda assim foi condecorado por boa gestão. Ele está querendo descobrir onde fica o nível ‘volume morto’ na educação? Os anúncios feitos pela pasta educação de seu governo na tentativa de contornar os problemas ou fornecer soluções são sofríveis.

A Secretaria de Educação informou que o programa Ler e Escrever não será descontinuado e sim tocado pelo pessoal formado pelo próprio programa (e com menos da metade verba). Já para a merenda, afirmou que haverá um aumento de 10% no repasse para prefeituras. Em tempo: o valor atual é de R$ 0,50 na maioria das cidades. Com o estupendo reajuste, irá para R$ 0,55. Fartura pouca é bobagem.