“Eu não me considero um grande artista”: a arte de ser Woody Allen

Com filme novo na praça, ‘Blue Jasmine’, o gênio do cinema abre o coração com exclusividade para o Diário.

Woody Allen está de volta com Blue Jasmine, uma comédia estrelada por Cate Blanchett como uma neurótica, levemente delirante, ex-esposa de um financista desonesto de Wall Street (Alec Baldwin). Críticos já estão falando que Blanchett será indicada ao Oscar e saúdam o longa como o melhor de Allen desde Match Point.

Blanchett incorpora todos os tiques e alterações de humor maníacos que muitas vezes são típicos dos protagonistas dos filmes de Allen, mas – e isso é a chave para seu desempenho – mantém a integridade dramática do personagem. “O desafio é encontrar o tom certo”, diz ela.

Ao longo de uma carreira extraordinariamente produtiva, Woody Allen conseguiu tornar a contradição humana e o desapontamento romântico uma forma de arte. O trabalho é seu único meio de escapar das tristes verdades sobre como a vida pode ser um absurdo.

“O trabalho é uma grande distração”, diz o cineasta de 77 anos. “Eu estou sempre escrevendo um novo roteiro ou promovendo um filme. Tive a sorte de ser capaz de manter o ritmo durante a maior parte da minha vida. É uma fuga, eu sei, mas funciona. Eu continuo fazendo filmes na esperança fútil de fazer uma obra-prima, embora saiba que a maioria dos meus filmes são um fracasso”.

Claro, Woody Allen está sendo muito pessimista quando se trata de sua carreira. Mestre na arte da autodepreciação, seu corpo de trabalho é inatacável – desde 1969, ele dirigiu 44 filmes em 44 anos – e seu ritmo notável é apenas rivalizado pelo do falecido Rainer Werner Fassbinder.

Na entrevista que segue, Woody Allen se abre sobre filmes, arte e sua vida em casa com Soon-Yi Prévin, filha adotiva de sua ex-namorada Mia Farrow. Os dois vivem em um tríplex no Upper East Side, em Nova York, com duas filhas adotadas, Bechet, 14, e Manzie, 13, nomes em homenagem a músicos de jazz. Woody leva seus filhos para a escola todas as manhãs quando não está trabalhando em um novo script.

Houve alguma inspiração especial para o personagem de Jasmine?

Minha esposa (Soon-Yi) me contou a história de uma mulher do Upper East Side que era rica, perdeu tudo e teve que se adaptar drasticamente a seu novo estilo de vida. Era o tipo de queda vertiginosa em que a pessoa não é mais de capaz de pagar as jóias caras, comer nos melhores restaurantes e ir a Paris nos desfiles de moda. Foi reduzida à condição de pobreza, se esforça para pagar pelas necessidades básicas da vida. Eu tentei transformar tudo isso em uma tragédia grega clássica.

Você deu a Cate Blanchett quaisquer orientações específicas de como queria que ela interpretasse a personagem título?

A grande vantagem de ter alguém como ela no papel é que você basicamente sai do caminho e a deixa trazer mais personalidade ao personagem do que você imaginou.

Você filmou em San Francisco. Vai trabalhar com mais freqüência nos EUA?

Depende totalmente do financiamento. Se eu tiver um orçamento de US$ 15 milhões ou US$ 18 milhões, sei que esse dinheiro vai render muito mais na Europa. Muitas vezes eu consigo certos atores porque eles têm lacunas na sua agenda e estão dispostos a trabalhar por uma pequena fração do seu salário habitual, já que não posso pagar o que eles normalmente ganham. É difícil dizer quando serei capaz de trabalhar em Nova York novamente, mesmo que seja minha primeira escolha.

woody
No set de ‘Blue Jasmine’

Como tem sido filmar em lugares como Londres, Paris, Barcelona e Roma?

Eu amo trabalhar na Europa. Roma é muito especial para mim porque eu cresci assistindo filmes de Fellini. Mas, se eu tivesse escolha, sempre filmaria em Nova York porque moro lá e gosto de ir para casa depois do trabalho, além de não ter de me preocupar se o serviço de quarto é lento e de ter de perguntar a algum turista Lituânia onde fica o meu hotel.

Eu amo me hospedar em bons hotéis e viver confortavelmente enquanto estou rodando um filme. Eu não sou como outros diretores que não se importam de passar um ano no deserto ou numa vila remota no meio do nada. Eu gosto de terminar o trabalho antes das seis para que eu possa desfrutar de um agradável jantar com minha esposa e ir dormir num horário razoável.

Você acha que está no meio de um renascimento na carreira desde que começou a fazer filmes na Europa?

Não. Eu estou feliz só de poder continuar trabalhando. Já desisti há muito tempo da idéia de que eu possa fazer um filme que se equipare a um Kurosawa, Fellini ou Bergman.

Mesmo aqueles considerados meus melhores trabalhos – Annie Hall e Manhattan – são muito diferentes do que eu pretendia. Annie Hall deveria ser como uma série de memórias e adquiriu uma narrativa mais tradicional. Eu odiava tanto Manhattan que tentei comprá-lo de volta do estúdio por US$ 1 milhão.

Então como você explica o seu sucesso e sua reputação como cineasta?

Eu tenho muita sorte. Eu tive a habilidade de divertir as pessoas e escrever piadas e contar histórias que de alguma forma interessam. Mas é pura sorte. É por isso que um dos principais temas em muitos dos meus filmes é o elemento da sorte.

As pessoas não gostam de admitir que muito do seu sucesso na vida é devido ao puro acaso. As pessoas preferem acreditar que são brilhantes. Mas quantas pessoas trabalham tão duro, têm tanto talento e falham completamente? A maioria das pessoas se recusa a admitir que o sucesso gira em torno do acaso porque isso prejudicaria a sensação que elas têm de que podem controlar o próprio destino. Eu sempre entendi que tenho muita sorte.

A felicidade depende da sorte?

São coisas separadas. Felicidade depende muitas vezes de ignorar as coisas terríveis que acontecem na vida e focar apenas nas coisas boas que você deseja ver. As coisas raramente funcionam da maneira que esperamos. Nós ficamos decepcionados muitas vezes com nossos relacionamentos amorosos. A maioria das pessoas não se sente intelectualmente realizada. Mas algumas têm uma maneira de superar ou ignorar convenientemente as duras realidades e se iludir acreditando que são felizes. Todos nós fazemos isso, e eu sou a última pessoa a criticar alguém que seja capaz de sustentar isso.

Minha maneira de lidar com essas realidades — como o envelhecimento ou não viver de acordo com as minhas próprias ambições — é continuar trabalhando, assistindo esportes ou indo ao cinema. É a minha maneira de me iludir e me manter ocupado e não me desesperar com o lado mais sombrio das coisas. Eu posso correr na minha esteira todos os dias e comer alimentos saudáveis, mas, no final das contas, a Morte virá me buscar.

Você é famoso por dar muito pouca orientação a seus atores. Por quê?

Eu gosto de deixar os atores darem o seu próprio toque ao que escrevi. Uma das coisas que aprendi como diretor durante esses anos é a vantagem de contratar grandes atores e deixá-los fazer seu trabalho. Eu tento não interferir com seu processo criativo porque muitas vezes eles estão trazendo novas idéias e elementos maravilhosos.

O público acha que os personagens que você criou em seus filmes são baseados em suas experiências …

Isso é uma suposição muito romântica e completamente falsa. Todo mundo gostaria de acreditar que eu estou me baseando na minha vida pessoal. Eu sou ansioso numa certa medida, mas não sou particularmente neurótico e levo uma vida relativamente boa.

Algumas situações podem ter inspirado algumas cenas, mas geralmente tudo vem da minha imaginação. Esse é o trabalho de ser um escritor, você começa a inventar as coisas. Quando Annie Hall saiu, eu tentei explicar que não conheci Diane Keaton como aconteceu no filme e nunca terminamos daquele jeito. Mas as pessoas preferem acreditar na versão mais romântica.

A mesma coisa acontece com Manhattan e Crimes e Pecados. Tudo é fruto da minha imaginação. Eu tento escrever sobre coisas que me interessam ou que eu sinto que vão render uma história divertida e, geralmente, as coisas que você inventa são muito mais interessante do que tudo o que acontece na sua própria vida, a menos que você seja um assassino ou um político.

Muitos de seus filmes lidam com a questão da aparente ausência de moralidade ou justiça na vida. 

Sim. Eu sinto que a vida é um absurdo em geral. Não há uma grande quantidade de significado quando você olha para o mundo. Você simplesmente não pode entender o sentido das coisas — por que as pessoas se comportam de determinada maneira ou por que certas pessoas se apaixonam pelas pessoas erradas ou por que somos atraídos por gente que está destinada a nos fazer infelizes.

Eu acho que é um desperdício de tempo especular em qualquer medida sobre questões como o sentido da vida, o que é completamente insolúvel. As maiores mentes da civilização têm se debruçado sobre esse tipo de questão e nunca tiveram respostas satisfatórias.

Em última análise, nós continuamos procurando esses momentos indescritíveis de felicidade, mas no final estamos sempre presos de volta à realidade.

Eu não me considero um grande artista. Eu não sou tão ambicioso. Eu aspiro ser um grande artista, mas não creio que tenha profundidade suficiente.

match point
‘Match Pont’, o filme preferido

Alguns de seus filmes como, Crimes e Pecados e Melinda e Melinda, tentaram discutir temas como o bem contra o mal e comédia versus tragédia.

Eu já me perguntei se um artista sério como Ingmar Bergman, que fez um filme como O Sétimo Selo, que eu vi vinte ou trinta vezes, é mais importante do que Fred Astaire, cujos filmes são puro entretenimento.

Bergman não nos oferece qualquer esperança, enquanto você sai de um filme de Fred Astaire renovado e esperançoso e isso torna mais fácil passar o dia. No Sétimo Selo, o único conhecimento real que o personagem central adquire de suas conversas com a morte é que, no final, temos de sair da vida, mas sob protesto. Não há nada reconfortante nisso.

Nossa cultura está inclinada a atribuir maior respeito artístico a uma visão trágica da existência, mas eu acho que o escapismo de um Fred Astaire pode ser tão válido e talvez mais importante, pois ajuda a aliviar nosso sofrimento, mesmo que apenas por alguns instantes.

É impossível encontrar a felicidade com outra pessoa?

Não é impossível, mas é muito difícil. Isso é uma contradição fundamental. Você pode passar anos tentando encontrar a pessoa que vai fazer você feliz, e quando você acha que está feliz, o seu parceiro quer deixar você, ou você acorda um dia e percebe que não está mais apaixonado.

É um dilema básico da natureza humana. Apaixonar-se pode ser uma das experiências mais felizes que você pode ter, mas quando um relacionamento termina é também uma das experiências mais devastadoras.

Você está com 77 anos e mais produtivo do que nunca. O envelhecimento o incomoda?

Não há nada de bom a ser dito sobre a velhice. Pelo menos meus pais viveram muito (o pai de Allen morreu com 100 e sua mãe viveu até os 95) e por isso tenho alguma esperança de que possa continuar a trabalhar por algum tempo.

Eu tento me exercitar todas as manhãs, comer alimentos saudáveis ​​e fazer alguns alongamentos para evitar a atrofia, mas o melhor que podemos esperar é um empate e seguir para a prorrogação. Seus amigos morrem, seu corpo se desgasta e é um processo muito desagradável, mesmo que você tente se distrair com pequenas alegrias.

Como você consegue fazer um filme por ano?

Eu não quero passar anos tentando lidar com um orçamento enorme de US$ 50 milhões ou esperar até que um ator muito famoso fique disponível. Me considero muito feliz por ser capaz de trabalhar regularmente. Tenho de trabalhar dentro de certos limites e é por isso que eu raramente filmo em Nova York, que é muito cara.

Você também é famoso por trabalhar das 9 às 5.

Eu não sou um perfeccionista e gosto de parar numa hora razoável para assistir a um jogo de basquete ou jantar com minha mulher. Desisti da idéia de perfeição artística há muito tempo.

É verdade que você nunca vê seus filmes depois de editá-los?

Eu não suporto ver meus filmes novamente. Mesmo que passem na TV, eu costumo rapidamente mudar de canal porque só vejo os erros que cometi e como eu gostaria de ter mudado esse trecho do roteiro ou essa cena. Eu fico muito deprimido.

Qual dos seus filmes que você considera o melhor?

Eu acho que Match Point é o que mais se aproxima do que eu imaginava quando escrevi. Normalmente você escreve uma cena e, em seguida, quando chega ao set e roda, acaba por não ser tão interessante ou engraçada como imaginava. Mas naquele filme eu acho que consegui realizar o que me propus a fazer.