“Eu sou mais à esquerda do que eu era”: Lula 2018 está em campo. Por Kiko Nogueira

A entrevista no Instituto Lula
Lula e os blogueiros durante a entrevista em seu instituto

 

Lula deu uma entrevista em seu instituto na manhã de quarta (20), da qual o DCM participou juntamente com outros sites. Durou aproximadamente três horas, durante as quais ele falou da crise, de Lava Jato, de ódio, de processos contra jornalistas, de PT, de corrupção, de Dilma, do passado de metalúrgico, de Corinthians — e de sua candidatura em 2018.

Respondendo ao jornalista Altamiro Borges sobre as próximas eleições presidenciais, repetiu o que tem dito: “Não gostaria que fosse eu o candidato. O Jaques Wagner apareceu como plano B e já tomou tiro”.

Mas o tom, a energia e o discurso não são de quem está no banco de reservas se aquecendo, mas de quem já está jogando. Lula vai concorrer em 2018.

Mas será outro Lula. “Dilma precisa lembrar que nós temos lado”, afirmou. Que lado? Em 2018 ele estará à esquerda daquele Lula de 2002, da Carta aos Brasileiros?, perguntei.

“Eu hoje sou mais à esquerda do que era”, disse. “Eu tenho lido mais, eu tenho visto que mesmo fazendo o que nós fizemos por este país, ganhando o dinheiro que ganharam em nosso governo, eles ainda não nos aceitam.”

Continuou: “A Dilma é muito mais à esquerda que eu. Ela tem uma formação ideológica mais consolidada. Eu sou um liberal… Eu sou um cidadão muito pragmático e muito realista entre aquilo que eu sonho e aquilo que é a política real. Quando fui presidente da República, eu tinha consciência de que eu era um estranho no ninho. Aquilo não foi feito para um operário chegar lá.”

Num blazer cinza escuro sobre uma camiseta preta de manga comprida, virando xícaras de café, emocionou-se em algumas ocasiões, como ao lembrar da mãe e de um grupo de meninos índios que foram saudá-lo na Amazônia.

Aos 70 anos, é um homem preocupado em defender seu legado, o qual inclui Dilma (“Governo bom é o que se reelege. E o big bom é o que faz seu sucessor”). Bate a mão na mesa de maneira enfática, ligeiramente teatral, para enfatizar seus pontos (“Não tem neste país uma viva alma mais honesta do que eu, nem delegado, nem promotor do Ministério Público, nem empresário, nem na Igreja. Pode ter igual, isso sim”).

Adquiriu o hábito de massagear a garganta com a mão esquerda enquanto pratica seu esporte predileto: falar. “Eu tinha medo de falar até os 25 anos. Minhas pernas tremiam. Aí comecei e não parei mais”, admitiu.

A metralhadora verbal produziu uma frase francamente defensiva — e idiota: “Não tem uma viva alma mais honesta do que eu”. A bobagem acabaria sendo usada fartamente pelos revoltados online como se ele a tivesse repetido sem parar durante aqueles 200 minutos.

O ajuste fiscal foi um erro. Levy foi outro erro. “Se em algum momento se acreditou que fazendo discurso para o mercado a gente ia melhorar, o que a gente percebeu é que não conseguimos ganhar uma pessoa do mercado”, disse.

“Nem o Levy, que era representante do mercado no ministério da fazenda, não virou governo. Não ganhamos ninguém e perdemos a nossa gente. Então o desafio da Dilma, agora, e eu peço a Deus que a ilumine muito, o ministro Nelson Barbosa e todo o governo, é que em algum momento neste mês vão precisar anunciar alguma coisa para a sociedade brasileira. Então o Levy saiu, e o que vai mudar?”

A corrupção dentro do PT veio de seu crescimento, de acordo com Lula. “O PT errou, cometeu práticas que condenávamos. E o PT não nasceu para ser igual aos outros, nasceu para mudar a lógica dos partidos tradicionais”, disse.

“À medida em que a família começa a crescer e o partido entra nas instituições e na briga institucional, o partido mudou. Lembro de um tempo que a gente sentava aqui na direção nacional e fechava política de alianças nacional. Mas aí o partido vai crescendo e começa aliança ora com um, ora com outro, aí precisa de dinheiro pra campanha, as campanhas de TV ficam cada vez mais caras, parecendo filme de Hollywood e, de repente, o PT ficou parecido a todos os outros. E isso levou a posturas equivocadas”.

Eduardo Cunha não ficou de fora. “Em 2015, foi pauta bomba todo santo dia. Congresso adora presidente fraco”, declarou. “Eu falo pra Dilma: “Uma coisa que você tem que fazer é decidir qual é a fotografia do final do seu mandato. Como quer sair. Você tem que sair como orgulho do povo brasileiro, sobretudo das mulheres brasileiras”.

Em algum momento ele pensou em se aposentar e sair da vida pública? “Eu adoro uma briga. Já avisei a Marisa que não morro na cama de pijama. Vou morrer num comício ou em campanha”.

O escritor Fernando Morais completou com um verso de “Soy Loco Por Ti America”: “De susto, bala ou vício”. Lula 2018 está em campo.