Explicado: para dono da Riachuelo, Temer se reuniu com Joesley “para não se indispor com ele”. Por Kiko Nogueira

Flávio Rocha e o amigo Michel

 

O dono da Riachuelo, Flávio Rocha, aquele que garantiu que com o impeachment de Dilma a volta de investimentos seria “instantânea”, entre outras imbecilidades, resolveu passar um pano no crime de prevaricação de seu cavalo manco.

Em entrevista à Istoé, Rocha chegou ao cúmulo de defender que Michel Temer recebeu Joesley Batista no Jaburu porque “não podia se indispor com ele”.

Leia:

Pelo menos as reformas trabalhista e previdenciária saem?

Talvez a reforma previdenciária saia já muito combalida, muito fragilizada. Será preciso se retomar esse assunto em 2018 e 2019. Já a reforma trabalhista traz um grande avanço, principalmente para varejo e serviços, que tinham mais dificuldade com uma legislação de DNA exclusivamente industrial e de 70 anos atrás.

Mas não houve um retrocesso? A aprovação não está menos garantida?

Realmente foi um retrocesso, porque hoje temos três grupos bastante atuantes: os reformistas, que querem a solução estrutural definitiva; os jacobinos, que não querem resolver o problema, querem só vingança e acham que a corrupção se vence na questão policial; e os antirreformistas. Essa cumplicidade surpreendente do (Rodrigo) Janot com o (empresário) Joesley Batista representa a união de dois grupos que não estavam unidos até então. São os antirreformistas com os jacobinos. Isso isola os reformistas, é muito preocupante.

O sr. falava nos campeões nacionais como “empresários de conluio” com o governo…

Os empresários de conluio estão mostrando sua força, eles são os antirreformistas. Esse episódio (a delação da JBS) é uma vitória dos empresários de conluio. É uma situação muito perigosa porque passa a ideia de que a luta contra a corrupção avançou, quando na verdade ela recuou. Isso atrapalha na medida em que interrompe as reformas. E, queira-se ou não, o presidente Temer estava reunindo as últimas energias dele para lancetar o tumor. Ele fica fragilizado.

(…)

Como o sr. vê o fato de Temer ter recebido Joesley no Jaburu?

A missão de Temer, se ele quiser entrar para a história, é aprovar as reformas. Mas isso passa pelo Congresso e, por isso, ele teve de se curvar e encontrar o homem que tinha mais influência no Congresso. O poder dele na política era quatro vezes superior ao da Odebrecht – a Odebrecht financiou 450 políticos; ele financiou 1.900. Temer não podia se indispor com ele (Joesley), teve de engolir esse sapo.

Em novembro, ao Estadão, Rocha havia dito que “o livre mercado é a melhor maneira de distribuir riqueza e o inchaço do Estado, a pior maneira de concentrar riqueza. O mito do Estado Robin Hood a Dilma acabou de desmoralizar”.

Para ele, “o socialismo é uma saga tão terrível que, de tempos em tempos, ela ressuscita como um zumbi, como agora, nessa última vez, na forma do populismo bolivariano, que fez um estrago imensurável em tantas economias ricas da América Latina.”

Lindo.

Em janeiro de 2016, o grupo Riachuelo foi condenado a pagar pensão vitalícia a uma de suas ex-funcionárias. A costureira era pressionada a produzir cerca de mil peças de bainha por jornada. A meta, por hora, era colocar elástico em 500 calças ou costurar 300 bolsos. Na ação, ela diz que muitas vezes evitava beber água para diminuir suas idas ao banheiro. Idas que, segundo ela, eram controladas pelo encarregado mediante o uso de fichas.

O apoio de empresários como Flávio Rocha e Nizan Guanaes a essa quadrilha é revelador.

Nizan é o gênio que vendeu a Michel a ideia do “antes impopular que populista” — e este, uma besta, comprou e repetiu até não fazer mais sentido.

Essas figuras ajudam a explicar por que o governo Temer concorre para ser o mais indigente da história do Brasil.

E olha que a competição é braba.