Hannah Baker não é a heroína de “13 Reasons Why”. Por Leo Mendes

A polêmica em torno de “13 Reasons Why” não é à toa.

Alguns críticos chegaram ao extremo de recomendar que a nova série original do Netflix não fosse assistida, e isso não pela má qualidade, mas pelo perigo que representa.

Recomendação que obviamente alcança o objetivo oposto, aumentando ainda mais o interesse pela série.

Mas concordo que ela pode ser perigosa, e que deve caber aos responsáveis por crianças e adolescentes decidirem se seus filhos estão prontos ou não para assisti-la, como qualquer outra série. E
que pessoas que enfrentem no momento sérios problemas psicológicos devem evita-la.

Mas o que também não pode ser esquecido é que muitos já a assistiram, muitos outros irão assisti-la, independente das advertências, então apenas censurá-la já não basta, é preciso tentar digeri-la.

O grande problema em “13 Reasons Why” – se é que pode ser chamado assim – é que pode não ficar claro quem é o herói. O problema é acreditar que a adolescente que comete suicídio, Hannah Baker, é a heroína da história.

O arquétipo do herói é representado em geral como alguém que se sente ultrajado pela injustiça e se sacrifica por um bem coletivo, é aquele com quem o público se identifica. E mesmo o anti-herói não foge dessa definição, mas de modo geral é motivado não por bondade, mas por interesses pessoais.

Caso Hannah seja tida como a heroína, o suicídio pode ser visto como um meio de transformação do mundo, o que a cultura judaico-cristã ocidental jamais aceitaria.

Nesse sentido, trata-se de uma questão cultural. E vale lembrar da icônica foto do monge budista que ateou fogo ao próprio corpo e queimou em silêncio e imóvel até a morte, em protesto contra a
Guerra do Vietnã.

Pode ser visto também como uma forma de vingança, que promova catarse. Como se Hannah fosse uma espécie de Grace, de Dogville, que ao invés de atirar contra todos os que a maltrataram, vinga-se deles despejando a culpa pelo seu suicídio.

De fato, é isso o que ela faz, porém não é ela a heroína de 13 Reasons Why.

Hannah também não fez o que fez para tentar melhorar o mundo ou se vingar, e as fitas são pura vaidade. Fez por não suportar mais, por fraqueza, num ato de prolongado desespero.

Ferida, dilacerada, sucumbe ao peso das dores que a atravessam, algo que ao herói não é permitido, pois ele é aquele que cresce nas dificuldades e se morre no final, morre realizado ou com a missão cumprida.

É o jovem Clay Jensen quem atravessa a Jornada do Herói, e se transforma e transforma o mundo ao seu redor.

Hannah funciona muito mais como arauto, é a personagem que anuncia ao herói o “chamado à aventura”.

Ela faz isso se matando, mas de modo algum como sacrifício.

Não é mártir, não é heroína, era apenas uma menina sensível e fraca, que precisava de uma ajuda que não veio, vítima de um meio tóxico e cruel.

E o mundo não se tornou um lugar melhor com a sua morte, pelo contrário. E esse é outro problema perigoso na interpretação de 13 Reasons Why.

Talvez não tenha ficado claro que o prejuízo com o suicídio de Hannah foi infinitamente maior do que qualquer lição a ser aprendida com ele, que na verdade não há lição alguma, e apenas fraqueza, vaidade e desespero.

São temas complexos, cujo debate já está posto e não há retorno possível. E há também a possibilidade da série evitar tragédias, e não promovê-las, dependendo do modo como seja compreendida.

Parece caber agora aos críticos, profissionais da educação e responsáveis por crianças e adolescentes, muito mais saber lidar da melhor maneira possível com essa série do que simplesmente negá-la.

Tentar entender o porquê de tanta polêmica e sucesso, e tentar assim neutralizar as possíveis consequências negativas que a obra pode ter.

Quem sabe destacar as positivas, e se há uma lição principal em 13 Reasons Why, é que diante da tragédia, dói demais seguir em frente, mas é possível.

De todo modo, a arte é livre para não dar lições, e “apenas” liberar potências, promover catarse, estimular a reflexão, despertar afetos.

13 Reasons Why é, antes de tudo, uma delicada obra de arte. Que deve ser apreciada com muito cuidado.