Hartung: de “Imperador” do ES incensado pela mídia a chefete de uma terra sem lei. Por Sacramento

Hartung entre Cabral e Serra
Hartung entre Cabral e Serra

 

O atual governador do Espírito Santo Paulo Hartung foi um dos perfis em destaque na reportagem “Seis homens, um destino”, publicada pela Veja em 2008.

Junto com Hartung estavam os governadores Aécio Neves, Eduardo Campos, José Roberto Arruda, José Serra e Sérgio Cabral.

A matéria os citava como bons exemplos de governança, marcada por “profissionalismo e menos politicagem” e foco no equilíbrio das contas.

Passados quase 10 anos, Aécio Neves coleciona citações na Lava Jato. Eduardo Campos morreu em um desastre de avião. José Serra teria embolsado R$ 23 milhões da Odebrecht para sua campanha. José Roberto Arruda foi cassado e Sérgio Cabral ocupa uma cela no complexo penitenciário de Bangu.

Dos seis, Hartung era o único que flanava no paraíso astral, pelo menos até o início da crise deflagrada pela greve dos policiais militares.

No terceiro mandato à frente do governo do Espírito Santo, Hartung foi elogiado pelo seu modelo de gestão caracterizado pela ênfase no ajuste fiscal e incentivo tributário para atrair grandes empresas ao Estado.

Foi considerado exemplo para o resto do país em matérias e editoriais de veículos como Folha, Estadão e O Globo.

Em 2016 chegou a ser cotado para ministro da Fazenda na administração de Michel Temer. Notinhas na imprensa ventilavam seu nome como possível candidato à presidência da República em 2018 pelo PMDB, partido no qual Hartung esteve desde 2005 até anunciar a saída há poucas semanas.

Nada mau para um político de um Estado com pouca força e tradição para emplacar lideranças políticas. Mais que um bom trabalho de relações públicas, a cotação alta de Hartung no cenário nacional deve-se a qualidades reconhecidas por aliados e adversários.

Hartung é considerado um articulador metódico e estrategista hábil, capaz de aglutinar sob seus braços diferentes grupos ideológicos, da Igreja Católica ao Partido dos Trabalhadores.

“O Hartung não briga com ninguém mesmo, conversa com todo mundo. Ele vai articulando, e assim consegue reunir em torno de si forças antagônicas”, disse o então deputado estadual Claudio Vereza (PT) em um perfil sobre Hartung publicado na revista Época em 2008.

No mesmo texto, o tucano e na época deputado federal capixaba Luiz Paulo Vellozo Lucas afirmou que Hartung era o político mais habilidoso com quem lidara. “Quando foi candidato a senador, conseguiu o apoio de três candidatos a governador”, lembrou o antigo aliado político.

As afirmações acima não são lisonjas de correligionários. Mesmo fora do circuito político é consenso que a bênção de Hartung turbina a campanha de qualquer candidato no Espírito Santo, seja a vereador no interior ou governador do Estado.

Tanto poder rendeu-lhe a alcunha de “Imperador”. Como os césares, Hartung entrou para a política durante a juventude. Formado em Economia na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), foi o primeiro presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da universidade e participou da reorganização da União Nacional dos Estudantes no ano de 1979.

Em 1982, aos 25 anos de idade, elegeu-se deputado estadual pelo PMDB e foi reeleito na eleição seguinte. Em 1988 ingressou no recém fundado PSDB e se elegeu deputado federal em 1990.

Renunciou para assumir a prefeitura de Vitória em 1993. Após o mandato, atuou na iniciativa privada e no BNDES. Disputou o senado em 1998 e foi eleito. Passou para o PPS e pouco tempo depois ingressou no PSB.

Por este partido foi eleito governador em 2002, época em que o Espírito Santo era considerado “terra sem lei”.

O governador anterior, José Ignácio Ferreira, era acusado de corrupção. Os salários do funcionalismo público estavam atrasados e a máquina pública incapaz de promover investimentos. Para complicar, o crime organizado estava entranhado no poder público.

Hartung conseguiu arrumar a casa, mas para isso contou com a sorte de assumir o cargo no momento em que a Petrobrás anunciou a descoberta de novos poços de petróleo e gás no Espírito Santo.

Além da sorte, contou com a mão amiga do presidente Lula para a antecipação de R$ 350 mil em royalties. Foi o início de um período de bonança para o Espírito Santo, com organização das contas e implantação de novas empresas.

Ao fim dos oitos anos à frente do governo, Hartung se dedicou às atividades de consultor e palestrante. Disputou as eleições de 2014 e foi eleito novamente.

O reinado do Imperador, contudo, não passou imune a polêmicas. Uma delas, as condições precárias e desumanas do sistema prisional, chegou à ONU em 2010. Apesar de robusta, a denúncia só ganhou destaque da imprensa local depois que Elio Gaspari escreveu o artigo “As masmorras de Hartung aparecerão na ONU”.

A história das “masmorras” não foi o único caso embaraçoso para Hartung. Matéria publicada no Congresso em Foco no dia 24/09/2014 cita fatos questionáveis envolvendo o nome do governador.

O texto fala da suspeita de tráfico de influência em negócios da agência de consultoria Econos, da qual Hartung foi sócio entre 2011 e 2013, de um apartamento de luxo registrado por R$ 48 mil e vendido no mesmo dia por R$ 2,1 milhões e de uma mansão de luxo na região das montanhas omitida na declaração de bens das eleições de 2014.

Tais notícias, contudo, não ocuparam muito espaço na imprensa capixaba, na maior parte das vezes gentil com Hartung. A exceção é o portal Século Diário, que deu o furo do apartamento e da mansão de Pedra Azul.

A cordialidade da imprensa se manteve mesmo depois do episódio mal explicado do grampo ao jornal A Gazeta, os mais tradicional do Espírito Santo, em 2005, durante as investigações do assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, morto dois anos antes.

Segundo o governo, a justiça havia autorizado a escuta ao telefone da uma empresa, porém por algum equívoco o número foi confundido com o telefone usado pelos jornalistas na apuração das pautas.

O então secretário de Segurança Pública Rodney Miranda foi exonerado do cargo, mas retornou dois anos depois. Elegeu-se deputado estadual em 2010 e prefeito de Vila Velha, na Grande Vitória, em 2012, a despeito dos índices de criminalidade estratosféricos registrados no período em que ocupou a pasta.

As vitórias de Miranda (DEM) confirmam que Paulo César Hartung Gomes merece o apelido de Imperador. A dúvida é se o seu império continuará de pé depois da semana caótica que exumou fantasmas de quando Espírito Santo era a “terra sem lei”.